Os tempos são chegados

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Que tempos? Por que e para quê?

Essa expressão é muito antiga. Para dar um exemplo meio recente, na Revista Espírita, traduzida por Julio Abreu Filho para a Editora Cultural Espírita – EDICEL – Ltda., Allan Kardec, no mês de outubro de 1866, página 289, já comentava sobre o assunto. Dizia ele:
“Os tempos marcados por Deus são chegados, dizem de todos os lados, nos quais grandes acontecimentos vão realizar-se para a regeneração da humanidade. Em que sentido devem ser entendidas essas palavras proféticas?”
“Para os incrédulos não têm qualquer importância. Aos seus olhos não passam de expressão de crença pueril, sem fundamento. Para o maior número de crentes tem algo de místico e sobrenatural que lhes parece o precursor do desmoronamento das leis da natureza. As duas interpretações são igualmente errôneas: a primeira porque implica a negação da Providência quando os fatos realizados provam a verdade dessas palavras; a segunda porque a expressão não anuncia a perturbação das leis da natureza, mas a sua realização.”
Allan Kardec nos diz ainda que em tudo há harmonia na obra da criação; este é o sentido mais racional.
Certas profecias equivocadamente interpretadas, ou analisadas de propósito para estabelecer confusão e vantagens pessoais, pregam datas, circunstâncias, etc., envolvendo o final dos tempos. Um planeta novo como o nosso ainda em processo de aprimoramento, que deve ser brevemente um planeta de regeneração, não pode acabar melancolicamente, implodindo-se. A mais recente predição é a deste ano de 2012, preconizado como data do fim do mundo! Mais uma tolice!
Acreditamos mesmo que Deus dará algum aviso prévio sobre como se desenrolarão os ciclos planetários? Avisou ele sobre a era glacial e sobre a extinção dos dinossauros? E caso houvesse confidenciado à humanidade as suas intenções, que poderia ela fazer para enfrentar o estabelecido pelas Leis Divinas?
O tempo material é diferente do espiritual, onde não há passado, presente ou futuro, porque tudo é simplesmente AGORA. Somente quando encarnados é que precisamos dos relógios e calendários para administrar nossa vida física. Temos a hora de dormir, de comer e de trabalhar e tudo deve ser feito comedida e equilibradamente.
Já que a Terra progride, como tudo o mais, à medida que ela melhora geologicamente é preciso que sua humanidade se aprimore moral e espiritualmente. Os tempos chegados para que haja uma seleção de seus habitantes, com expurgos e exílios, mas também com a chegada de espíritos mais evoluídos. Esse é o momento que está se instalando há muito tempo. Acontece todos os dias, sem dar-nos conta. Cada ser que desencarna e cada criança que chega ao planeta, acontecimentos naturais do cotidiano, são parte desse processo que identifica que o avanço dos tempos que são chegados.
Ninguém que seja equilibrado pode admitir que uma mudança desta grandeza possa operar-se de imediato. Como numa festa de ano novo em que abominamos o ano velho em 31 de dezembro para acreditar que tudo será diferente no dia 1o de janeiro. Mais uma das tantas ilusões que enganam os homens místicos e imprevidentes e beneficiam os oportunistas. Muita gente enriquece com tais balelas que chamam de profecias, simpatias, talismãs e semelhantes.
Não se negue que o mundo caminha acelerado na direção dos tempos chegados, apesar de fazê-lo quase que somente na área tecnológica. Quando a moral for do tamanho da ciência, o homem estará equilibrado e com suas duas asas completas, pronto para voar.
Com a chegada do Espiritismo, essa orientação deixou de ser restrita para abarcar toda a humanidade. Não muda apenas um país, um povo, uma raça, porque é um movimento universal que se opera no sentido do progresso moral. A humanidade, diz Allan Kardec, é um ser coletivo no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada indivíduo. As partes compõem o todo.
Estamos vivendo um dos muitos momentos de transformação moral dos que sempre chegam a humanidade quando se faz necessário o seu crescimento. Não serve para os dias atuais a moral deturpada dos homens do passado. Nestes novos tempos todos os valores precisam ser revistos enérgica e corajosamente e só uma profunda reforma do homem poderá qualificá-lo a viver melhor nestes difíceis tempos do Apocalipse.
Sem perceber, os homens foram, ao longo do tempo, criando armas de autodestruição. E não são as bombas nucleares que nos causam mal; nem os tsunamis. São as armas de calibre moral. O culto ao corpo, a vaidade, os gastos descontrolados que levam o homem ao desequilíbrio e à desonestidade, à prepotência e à busca de privilégios sem que cada um se dê conta que nada tem de especial porque para Deus somos todos iguais. Sem mencionar a poluição química e a consequente destruição física.
Quanto mais o ser humano humilha o semelhante mais ele se enrola na corda da própria forca. Mais tarde implorará, como o Lázaro da parábola, para que o Senhor alerte seus descendentes para que não cometam os mesmo erros dele.
A quem mais é dado mais é pedido. Espíritas! Já que temos o privilégio do conhecimento ainda não alcançado pela maioria, façamos dele nosso roteiro de libertação e progresso. Já não podemos mais exigir privilégios materiais ou espirituais, recebendo na Terra as glórias que nos farão falta no céu. Não podemos mais ser prepotentes nem menosprezar o que sabe menos como se fôssemos pós-graduados em religião e moral. Não sejamos os fariseus do mundo moderno porque em vez de sermos chamados discípulos do Senhor não passaremos também de túmulos caiados.
Os tempos realmente são chegados; há muito tempo. Atualmente apenas se aceleraram. Importante, então, avaliar qual é o nosso comportamento para aproveitar as oportunidades desta transição da Terra na sua caminhada de transformação planetária de mundo expiatório para mundo de regeneração. Reencarnaremos por aqui quando o planeta já estará renovado ou seremos exilados repetindo-se o episódio de Capela? A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2012

O Espiritismo e os espíritas

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Muitos de nós espíritas fazemos muito pelo Espiritismo, mas, ironicamente, não permitimos que o Espiritismo faça muita coisa por nós!

Pode parecer um contrassenso o que acima afirmamos porque dando recebemos, segundo a Lei Maior. Pedindo obteremos, ensina o Evangelho. Todavia é preciso ver se damos como convém dar e pedimos como convém pedir.
Por mais dedicados que sejamos no trabalho, geralmente o executamos automaticamente, sem humildade e desprendimento. Por esta razão, é comum entre nós os espíritas, o que é orgulhoso, o vaidoso, o egoísta, o prepotente, o agressivo, o que tem complexo de superioridade, o rancoroso, o vingativo, o que tem rasgos de estrelismo e só faz trabalhos que o deixe em evidência, luta e tem apego pelos cargos, tudo igual à maioria dos seres comuns, não importa de que religião.
Isto não significa que não sejamos colaboradores úteis à doutrina, pois realizamos muito em favor do próximo. A oportunidade que perdemos é de não fazer por nós o mesmo que fazemos pelo semelhante. Lembro-me da saudosa poetisa goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, que adotou o pseudônimo Cora Coralina e publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade, quando disse mais ou menos o seguinte: feliz quem divulga o que sabe; é mais feliz, porém, quem aprende o que ensina. Ou como se comenta no meio espírita, “ele entrou no Espiritismo mas o Espiritismo não entrou nele”.
Agimos como o que tem facilidades financeiras e constrói obras sociais, mas que não abre mão de ter seu nome nas placas de honra no hall nobre da instituição. Troca as bênçãos eternas de Deus pela glória efêmera dos homens. Pela satisfação do ego, temos aqui na Terra a recompensa por tudo o que fizemos nada mais restando a receber.
O que devemos considerar, todavia, é que a obra tem também valor e mérito porque é preferível o que faz, mesmo por vaidade, àquele que se omite diante das dores do mundo. Mais feliz, porém, o que dá sem esperar qualquer retribuição, porque acumulará méritos no céu que lhe servirão de amparo no dia da mudança de plano. Chegará na espiritualidade enriquecido pelo bem que fez ao próximo. Isso não depende do tamanho do serviço, mas da qualidade e intenção.
É sempre ditoso o que ensina e auxilia, com alegria; mas é preciso que também saiba receber ajuda e orientação com humildade, sem ofender-se por ver-se, em certas circunstâncias, em posição de inferioridade. Na vida sempre estaremos acima de alguém e abaixo de outro alguém, seja qual for a nossa posição. Do pedinte da rua ao presidente da república. Ora servimos, ora precisamos ser servidos. Todos, sem exceção.
A maior dificuldade para ser espírita, porém, consiste em viver exatamente como recomendamos nas palestras, pela imprensa especializada, nas doutrinações ou no atendimento fraterno que existe na maioria das instituições. E a parte prática pode ser exercitada na casa espírita, na rua, na escola, no trabalho e, principalmente, no seio da família.
Este comentário está longe de ser uma censura. É antes uma “mea culpa” e um lamento por constatar que o Espiritismo, a exemplo do que acontece com Jesus, ainda não conseguiu nos reformar massiçamente. Em pleno no século XXI continuamos os mesmos espíritos atrasados da Idade Média e de outros tempos remotos. Nosso crescimento espiritual é lento e os muitos séculos decorridos nos modificaram quase nada. Hoje sabemos de reencarnação, de ação e reação, de causa e efeito, semeadura e colheita, tudo na teoria que repetimos mecanicamente sem nos dar conta do que realmente significam e que implicações têm de verdade na nossa vida presente e futura.
Nesta encarnação, aos setenta e sete anos de vida, penso que será difícil eu fazer parte de uma humanidade espiritualizada, formada dentro dos princípios ensinados pela Doutrina dos Espíritos. Tenho pouco tempo e não me parece possível que a Terra de regeneração possa se instalar nesse curto prazo. Eu mesmo não terei condições de corrigir todas as falhas para qualificar-me como seguidor de Jesus. Na presente reencarnação seguramente não conseguirei, tal é a quantidade de erros e defeitos a serem consertados. Se puder crescer um pouco, para ser agradecido a Kardec, já me darei por satisfeito. Um só defeito que eu corrija e a encarnação terá valido a pena.
No campo dos vícios, fui fumante por vinte e oito anos, dos treze aos quarenta e um. Parei em 1975, portanto há trinta e sete anos. Deste carma penso que já me livrei ainda nesta vida. Outros vícios não tive. Nem álcool, nem droga ou qualquer tipo de dependência. No campo dos defeitos, as chamados deturpações de caráter, ainda estou longe de ser exemplo. Sou, ansioso e preocupado além do normal, embora jamais tenha praticado a ingratidão, traído a confiança ou usado de desonestidade contra alguém. Sou pontual e assíduo nos compromissos assumidos. Mas como isso não passa de obrigação é pouco diante do que me falta conquistar. Fiz até agora, sem me arrepender de nada, o que o meu grau de evolução me permitiu. Mas continuo lutando.
Não sou muito diferente da maioria, infelizmente. Lembro-me quando Chico Xavier afirmou que se nós usássemos com os da casa dez por cento da cortesia que usamos com os de fora, os lares estariam salvos. Somos gentis afetados, não verdadeiros. Temos apenas o verniz da educação, por enquanto.
Como a esperança, irmã da fé, sempre nos acompanha, empenho-me para merecer, ainda que parcialmente, o rótulo de espírita. Quem já conhece a verdade tem mais possibilidade de libertar-se das amarras do mundo. Saber eu já sei; só me falta viver o que já conheço. No dia que conseguir, serei espírita. Melhor ainda, serei cristão!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio de 2012

Era 18 de abril

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1857. O mundo recebia o Espiritismo! 

Indagados sobre esta data, poucos saberão responder o que aconteceu de importante nesse dia. Mesmo entre os espíritas, não são muitos os que sabem que ela marca o lançamento da primeira edição de O Livro dos Espíritos, um novo divisor de águas na história da humanidade, assim como foi a vinda de Jesus. Este livro é o registro de nascimento da Doutrina dos Espíritos na Terra, o Cristianismo redivivo na sua mais pura essência. Não julguem nossa afirmativa exagerada, porque dia virá em que o mundo será dividido entre antes e depois do Espiritismo.

Com a publicação da obra em Paris, nossa Doutrina foi codificada pelo professor Denizard Rivail, que a assinou como Allan Kardec, seu nome numa encarnação como sacerdote druida, nas Gálias do Império Romano de Júlio César, um século antes do nascimento do Cristo. Trouxe revelações que mudariam a história dos homens, suas crenças e conceitos.

Uma doutrina com pouco mais de século e meio é ainda nova para se firmar e ser compreendida por um número relevante de pessoas, especialmente porque não promete facilidades sem o trabalho de cada um. Antes, recomenda ao homem que se esforce para usar o mundo material na construção de sua vida na espiritualidade. Uma doutrina com essa linha de pensamento tem dificuldade para competir com as que oferecem o céu mediante doações, promessas ou penitências, sem que o homem cogite de sua renovação moral. Por isso são poucos os espíritas praticantes. E menos ainda são os que, mesmo dizendo-se espíritas, vivem como tal, fazendo dos compromissos doutrinários sua prioridade, convictos de que este breve momento na matéria se destina especialmente ao crescimento da alma e não como pensamos aos prazeres do corpo.

O verdadeiro espírita tem fé. Não a fé de quem vai ao centro, vive rezando, toma água fluidificada, dá passe ou faz palestra. Sua fé se fundamenta na certeza de que Deus cuida de nós porque somos seus filhos diletos, criados para a felicidade. Se ainda não somos ditosos é porque estamos em processo de reforma moral para conseguir a necessária afinidade que nos permita viver em vibrações mais elevadas. E isso se obtém pelo comportamento cristão, que tem sua relevância no amor ao próximo. Enquanto estivermos órfãos dessa sintonia, já ensinou Emmanuel, inútil querer penetrar em Mundos Superiores.

Ao longo destes cento e cinquenta e cinco anos dos calendários humanos, embora representem um segundo no tempo da espiritualidade, muita coisa nos foi revelada: a eternidade do espírito, conferindo-lhe a imortalidade, sua criação simples e sem conhecimento, igualmente para todos, a repetição de sucessivas oportunidades de renascimento na matéria, para corrigir defeitos que ficaram de uma encarnação para outra, além da nossa destinação à felicidade. “Nenhuma ovelha do rebanho se perderá.” O Espiritismo dá-nos a confirmação dessa promessa de Jesus.

Com o permanente rodízio das almas, muitas da Terra reencarnando em Mundos Inferiores, enquanto outras se qualificando a viver na Terra renovada que se prepara para ser Mundo de Regeneração, o planeta já experimentou alguma evolução. Com a continuidade dessas migrações, seu nível espiritual tende a se elevar cada vez mais. Com a quantidade de desencarnes coletivos que ocorrem nos dias atuais a mudança está acelerada. E quem desejar permanecer no planeta reformado terá de conquistar um lugar por seu próprio progresso moral, pela correção de defeitos e pelo serviço no campo do bem.

Estudar O Livro dos Espíritos é importante para todos nós. Não há pergunta que façamos que ali não tenha sua resposta. A partir da Introdução, que nos permite conhecer as lutas do codificador para o êxito de seu trabalho, passando pelas 1018 questões respondidas pelos Espíritos e culminando com a Conclusão, não há uma só linha que não tenha importância e não ensine algo.

Como as Casas Espíritas oferecem normalmente reuniões para estudar essa obra em grupos, todos devem aproveitar a oportunidade porque a análise em conjunto é mais eficiente. Interagindo com os participantes surgem indagações que nos fazem aproveitar as lições mais do que num estudo solitário.

Só quando o Espiritismo for popularizado, e cada ser humano acreditar nos seus ensinamentos, vivenciando-os, é que terminarão os desajustes familiares, estupros, sequestros, crimes, corrupção, tráfico de drogas ou qualquer outra enfermidade de caráter, porque os homens compreenderão que tudo o que fazem é a si mesmo que o fazem e terão de resgatar até o último centavo. Agora ou mais tarde, aqui ou em qualquer lugar, porque nenhum mal ficará impune. É da lei de Deus, que não é falha como a dos homens.

Não nos parece possível, por enquanto, reverter o quadro social e transformar esta humanidade na qual prevalecem a ganância e a vaidade. A paz não virá num passe de mágica ou nas cantigas e passeatas. Não é pessimismo, mas constatação. Mas como o amor de Deus é irrestrito, só nos resta confiar e trabalhar com alegria, suavizando o sofrimento alheio e o nosso, sobrevivendo como é possível, sem medos, incertezas ou angústias. Não há alternativas! Se o momento é difícil mesmo para os que conhecem e praticam o Espiritismo, imaginemos para os demais que acreditam que tudo se acaba com a morte! Recordemos Meimei, por Chico Xavier, na página “Confia Sempre”, quando ela diz: “De todos os infelizes os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmos, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo”.

Neste abril de 2012, lembremos mais uma vez de Allan Kardec e agradeçamos pelo seu destemor e determinação, sem o que não teria conseguido legar à humanidade a DOUTRINA DOS ESPÍRITOS.

Qualquer que seja o plano em que viva agora o Codificador, rogamos a Deus para que o ajude e o abençoe!

 RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril de 2012

Que faz você de sua vida?

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 “A roseira só dá rosas por ter raízes no chão” – Chico Xavier 

Era 31 de março de 1869. Allan Kardec preparava-se para mudar a sede da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um espaço mais amplo, quando, às 14 horas, foi vitimado pelo rompimento de um aneurisma, desencarnando inesperadamente em seu domicílio em Paris, na rua Ste. Anne, no 59.

Depois de lançar os cinco livros da Codificação e viajar para diferentes cidades e países próximos à França, decide dinamizar a divulgação do Espiritismo e, para tanto, queria instalações mais adequadas. Não sabia, no entanto, que sua tarefa na presente encarnação já estava completada. Frisemos que ele tinha grande preocupação com o que fariam da Terceira Revelação depois de sua morte, pois já havia até idealizado um Comitê Central do Espiritismo para a melhor organização da doutrina ao longo do tempo.

Homem experiente e sabedor de que tudo precisa ser cuidadosamente planejado e elaborado, deixou mais este exemplo de responsabilidade para todos nós, a par de que devemos estar atentos ao dia de hoje porque desconhecemos o que nos ocorrerá daqui a minutos. Kardec já tinha problemas de saúde e sabia que deveria controlar sua impetuosidade diante do trabalho, ainda que desejasse deixar-nos o Espiritismo cada vez mais organizado. Por isso não diminuiu o ritmo do trabalho.

Se observarmos a nossa própria vida, poderemos ter sinais claros que nos indiquem se estamos fazendo o certo, na devida dosagem, com equilíbrio diante das leis naturais ou se estamos nos desgastando além do que podemos e devemos, quando, por exemplo, nos empenhamos em ganhar dinheiro ou quando exageramos até mesmo na prática da caridade.

Como nosso principal compromisso é a nossa própria educação e salvação, não podemos ultrapassar os limites da natureza quando da execução de nossas tarefas, sejam elas de que ordem sejam. É preciso ter equilíbrio e saber que, como encarnados, estamos sujeitos às leis da matéria. Temos de descansar, alimentar-nos corretamente e mesmo divertir-nos, porque a alegria é a maior terapia contra doenças inconvenientes, entre elas a depressão e o estresse e até mesmo o câncer. É preciso combater sempre a tristeza porque ela é o maior veneno para a alma e tem na alegria o principal antídoto. Nunca despreze a oportunidade de ser alegre. A alegria tranquiliza o coração e deixa a alma feliz.

Não compre além do que pode pagar, para não culpar depois os espíritos pelos seus desarranjos mentais. Há mais auto-obsessão que obsessão espiritual, porque a imprevidência é a maior causa do sofrimento.

Ninguém imagine que estamos fazendo a apologia à preguiça ou insinuando que caridade faz mal. Apenas alertamos que tudo deve ser corretamente dosado. Se precisamos dormir oito horas e alimentar-nos diversas vezes para repor o desgaste do dia, justo também que trabalhemos na dose certa. O trabalhador, depois de doze meses, tem direito a férias. Não tem sentido vendê-las ao patrão para ter um pouco mais de dinheiro em prejuízo da saúde. Lá na frente, a vida cobra.

Certa vez, Chico Xavier queixou-se a Emmanuel de que estava doente e cansado e o mentor lhe disse: “Você está trabalhando demais”. Chico argumentou que trabalhava para o bem das pessoas. Emmanuel aduziu: “Não perguntei no que você trabalha. Disse que você está trabalhando demais”.

Na espiritualidade, a maioria dos homens é recebida como suicida, mesmo sem ter-se matado pelas vias do autocídio convencional. É que nós abreviamos o tempo programado para a vida no corpo com os excessos que nos debilitam fisicamente. Lazer com noites mal ou pouco dormidas, trabalho além do normal, vícios que debilitam o corpo e comprometem o caráter, irritabilidade, manias ou fobias que causam insônia ou enfermidades, eis algumas razões que reduzem nossos anos de vida e nos catalogam como suicidas indiretos.

Nesses casos, desembarcamos na espiritualidade “devendo” à lei da reencarnação alguns meses ou anos que nos causarão desconforto e desagradáveis resgates em vida futura. Isso não é castigo; é a lei se cumprindo para que seja quitada até o último centavo.

Nossa vida é nossa e ninguém a vive por nós. Nem cônjuges, nem amigos, nem governos. E não nos iludamos a pensar que quando desencarnamos o mundo ficará órfão de algo importante que poderá comprometer-lhe o progresso. Voltamos para a espiritualidade deixando na Terra o trabalho aí realizado, mas ele também segue conosco em forma de patrimônio espiritual. Se o trabalho foi bom e ajudamos a melhorar o mundo, colheremos bons frutos. Não esqueçamos que pessoas muito mais importantes que nós já nos deixaram e o mundo seguiu em frente. Estaremos presentes – ou não – no coração dos que ficam, dependendo de como vivemos. Jesus vive; Chico Xavier vive; Teresa de Calcutá vive. Por quê? Porque foram a materialização do amor. Só o serviço no bem dará boas notícias de nós. Se quisermos ser lembrados para sempre, amemos. E sem esquecer de amar, inclusive, a nós mesmos.

Já diz o provérbio latino: in medium virtus, que se traduz por a virtude está no meio termo. Feliz quem consegue ser dessa maneira, porque é a única forma de viver com equilíbrio para fazer jus à encarnação que, por misericórdia, foi-nos presenteada pela Lei Divina.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março de 2012

Uma rara inspiração

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Tudo começou em 9 de agosto de 1863.

Nessa data, o escritor Allan Kardec recebeu uma comunicação de seus Guias sobre a elaboração de um novo livro que começara a escrever. Já havia lançado O Livro dos Espíritos, em 1857, e O Livro dos Médiuns, em 1861, e a comunicação dizia o seguinte: “Este livro de doutrina terá influência considerável, porque explana questões de interesse capital. Não somente o mundo religioso encontrará nele as máximas de que necessita como também as nações, em sua vida prática, dele haurirão instruções excelentes. Fizeste bem em enfrentar as questões de elevada moral prática, do ponto de vista dos interesses gerais, dos interesses sociais e dos interesses religiosos.”

Pouco mais tarde, em 14 de setembro de 1863, complementavam: “Com esta obra o edifício começa a libertar-se dos andaimes e já podemos ver-lhe a cúpula a desenhar-se no horizonte.”

Os espíritas já sabem que estamos tratando de O Evangelho Segundo o Espiritismo, cuja primeira edição foi lançada em 29 de abril de 1864 com o nome “Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo”.

A inteligência do escritor Allan Kardec se observa na introdução, no prefácio e nos comentários que faz ao longo dos 28 capítulos que formam o terceiro livro da Codificação.

Cuidou o notável e lúcido escritor de incluir apenas questões de moral evangélica, dispensando os assuntos de rituais, dogmas e tudo o mais que causa conflito entre as diferentes doutrinas. Moral é moral, em todos os tempos da humanidade e em todas as nações. Falamos da Moral Divina e não dos costumes disseminados entre os povos, porque estes mudam de país para país e de século para século.

Cada capítulo cuidadosamente elaborado começa, geralmente, com o enunciado do Novo Testamento – texto original – seguido da explicação do autor da obra e finalizado com a mensagem dos Espíritos.

Mesmo nesta composição Allan Kardec demonstrou grande lucidez porque não colocou apenas mensagens de orientadores, mas também de espíritos que faliram no mundo e agora dão testemunho dos erros cometidos, servindo de exemplo para que não repitamos seus enganos. Um dos exemplos é a extraordinária mensagem da Rainha de França (Havre 1863), constante do Capítulo II da obra ora em estudo. Diz ela, num gesto de humildade, que na sua soberba de rainha no mundo esperava ser também rainha na espiritualidade onde encontrou em planos superiores ao seu, muitos homens  que mereciam seu desprezo por não terem sangue azul. Deixa como clara lição que perdeu-se pelo orgulho na Terra e que agora sabe que para se ter um lugar no reino dos céus são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática e a benevolência para com todos.

Deixa claro, como mensagem, que estão iludidos todos os homens que correm para alcançar os bens terrenos como se fossem guardá-los para sempre. Aqui, diz ela, todas as ilusões se somem.

No capítulo XXI, inclui um texto de Jeremias, profeta do Velho Testamento, quando ele já falava dos Falsos Profetas, instruções complementada com grande clareza por João, o Evangelista, quando sugeriu que verifiquemos primeiro se os Espíritos com os quais nos aconselhamos são de Deus. Kardec demonstra com isso que tudo está inter-relacionado. Velho e Novo Testamento são mensagens divinas. Um precisava vir antes do outro porque cada um encontrou a humanidade num momento diferente. Por isso O Evangelho Segundo o Espiritismo, logo no Capítulo I, nos explica que Moisés (ligado ao Velho Texto) foi a primeira revelação. Depois veio Jesus (Novo Texto) até a humanidade ter condições de receber o Espiritismo (Terceiro Texto).

Lembramos que certa vez um pastor protestante perguntou ao Chico Xavier o que era a Bíblia. Chico estranhou que um homem evangélico, conhecedor profundo das escrituras, perguntasse a um espírita sobre tal assunto. Foi quando Emmanuel ofereceu-se para responder e disse: “O Velho Testamento é o grito agoniado da humanidade em busca do Senhor.” E o Novo Testamento, indagou o pastor? “O Novo Testamento é a resposta do Céu.”

Hoje poderíamos complementar que o Espiritismo é a explicação clara dessa resposta, em linguagem acessível a todas as inteligências. E nesse particular O Evangelho Segundo o Espiritismo é chave importante para que os homens entendam os mecanismos da vida. É hoje o livro Espírita mais lido no mundo, vertido para muitos idiomas, inclusive dos países onde o Espiritismo é ainda pouco difundido – Japão, por exemplo.

O Evangelho Segundo o Espiritismo hoje é objeto de estudo nos lares e nas casas espíritas. Não é apenas lido, mas estudado, dissecando-se o conteúdo de cada parágrafo e de cada capítulo.

Kardec fecha a obra com uma coletânea de preces, uma para cada situação. Hoje já sabemos fazer nossas próprias rogativas e agradecimentos, mas quando o livro foi lançado tudo era novidade e essas orientações foram importantes.

O Evangelho Segundo o Espiritismo balançou as estruturas frágeis de outras doutrinas que pregam as penas eternas, porque informou que tudo é provisório e que, conforme prometeu Jesus, nenhuma ovelha do rebanho será perdida. Céu e Inferno estão no coração dos homens e cabe a ele transformar-se para chegar ao Reino dos Céus. 

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro de 2012        

         

Ano Novo Vida Nova

2 Comentários

Octávio Caúmo Serrano [caumo@caumo.com]

Mais uma expressão popular que raramente é levada a sério. Geralmente, apesar da mudança da folhinha, repetimos na nova etapa a mesma vidinha desprovida de ideais verdadeiros.

Embora tenhamos nos proposto a mudar, fazemos como os políticos que nunca cumprem suas promessas. É fácil de explicar: mudar dá trabalho. É preciso romper com velhos e arraigados hábitos nocivos que, muitas vezes, nem percebemos ter. O mesmo se dá no campo dos vícios, que temos muita dificuldade em abandonar. Livrar-se de um simples e inanimado cigarro é um tormento para a maioria. E observem que o cigarro não é como um defeito moral que mora dentro de nós; ele está fora e bastaria não comprá-lo para não consumi-lo.

Se não conseguimos deixar de fumar ou de beber, imaginem como conseguir deixar de ser egoístas e orgulhosos, impacientes e inconformados, aflitos e inseguros, se esses vilões moram dentro da nossa mente e não conseguimos vencê-los. Nem percebemos que eles nos dominam a ponto de se alguém nos taxar de egoístas ficarmos surpresos e nos revoltamos com a pessoa. Não nos conhecemos e é isso que dificulta a nossa mudança. Em O Livro dos Espíritos temos a clássica questão 919 que nos dá segura recomendação sobre tal problema. “Conhece-te a ti mesmo”.

O mundo moderno criou doenças da civilização e deu a elas o nome de estresse e depressão. E quem não tem não imagina o que sejam e o estrago que causam. Destroem a estrutura do homem, castrando-lhe o desejo de viver, de lutar, de ser. Fica tolhido em sua vontade, só quer cama, não sente disposição para comer e é tomado por apatia que o impede de tomar banho e de ser ele mesmo. Desiste de lutar e pensa quase sempre em morrer, como solução para seus males.

O grande problema do nosso tempo é realmente o desconhecimento de nós mesmos, o que nos impede de saber o que realmente desejamos da vida. Não percebemos que num mundo de provas e expiações, onde noventa por cento dos seus sete bilhões de seres são miseráveis, a felicidade mais ampla é coisa rara. Vivemos nos iludindo sonhando com o que não podemos ter e ficamos revoltados.

Quando se aproximam as festas de fim de ano, fazemos nosso planejamento. O que vamos fazer com o 13º, no que vamos usar a restituição do imposto de renda, que presentes e para quem vamos comprar. Tudo com antecedência para não ter problemas na hora H. Das coisas materiais entendemos bem. Pena que não façamos o mesmo planejamento no que concerne às coisas morais-espirituais, as mais importantes e que podem efetivamente levar-nos à felicidade.

Neste novo ano que agora desponta, seria muito bom aprendermos a planejar dentro da nossa capacidade e condições. Vamos prometer ser melhores e esperar que Deus nos recompense por isso. Prometer brigar menos a fim de que desentendimentos desnecessários não nos infelicitem ainda mais. Prometer melhorar nossa cultura, nossos modos, educando-nos para viver em sociedade. Ser menos prepotentes e não desejar que o mundo gire em volta de nós. Saber que só o trabalho em favor do bem nos traz a verdadeira alegria.

É esse tempo o ideal para planejarmos nossa reforma íntima, tão preconizada pela doutrina espírita. E como não é possível santificar-nos numa única encarnação, que tal eleger um defeito mais grave, ou o que mais nos incomode, ou o que seja mais fácil de combater e iniciarmos nossa luta contra nós mesmos. Não adianta querer consertar todos os problemas de uma vez porque acabaremos nos perdendo no emaranhado de nossas imperfeições.

Há situações que um defeito aparentemente sem importância, especialmente se é aquele que prejudica apenas a nós mesmos, não é tomado a sério. Exemplo, a introversão, que é o fechamento do indivíduo em si mesmo, deixando-o acanhado e com dificuldade de relacionamento. Muitos dirão: – Mas isso não é grave.

Imaginemos um indivíduo introvertido. Se estiver num baile desacompanhado dificilmente encontrará um par para dançar. Se for a uma entrevista de emprego sequer olha nos olhos do entrevistador. Já de início perderá muitos pontos e o emprego facilmente lhe escapará. Não inspira confiança. O que fazer nesses casos? A resposta é buscar ajuda de um psicólogo, entrar numa escola de arte, fazer um treinamento para falar em público, participar de uma reunião de estudo com interação dos componentes. Há muitas outras sugestões, que cada um pode descobrir por si mesmo ou com o auxílio de terceiros.

Combatida a introversão e o indivíduo voltando-se para fora de si mesmo, muitas portas poderão se abrir e ele passará a viver com maior naturalidade. Do conserto dessa falha poderá redundar o conserto de muitas outras.

Desejamos a todos os leitores da RIE um feliz 2012, pleno de realizações espirituais, porque as financeiras serão uma decorrência. Quando a pessoa está bem moralmente, a parte material também se ajusta e a espiritualidade que nos assiste sempre cuida de nós física e moralmente. Para confirmação, vide questão 524 em O Livro dos Espíritos, no estudo sobre os pressentimentos.

Boa sorte!

RIE -Revista Internacional de Espiritismo – janeiro de 2012

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