O Retrato de Jesus

3 Comentários

jesus

 

Retrato de Jesus por Publio Lentulo  a Tibério César

  “Sei que desejas conhecer o que vou narrar:

Existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é o filho de Deus, criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos ate as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos; o seu rosto, é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vêem em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.

A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplandece, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar.  Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente, e quem dele se aproxima verifica que é muito modesto na presença e na pessoa.  É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua Mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto por estas partes uma mulher tão bela. Porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dai-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível.

De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e não consta haver estudado nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.

Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém a tua obediência estou prontíssimo; aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido.

 

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo… Publio Lentulo, presidente da Judéia.

 

         L’indizoione setima, luna seconda.” 

Inscrição encontrada pelos monges “lazaristas” em 1928 numa carta de Públio Lentulo, antecessor de Pôncio Pilatos, a Tibério César.

Harmonia das diferenças

1 Comentário

  Preferimos conviver com os afins. Todavia, é no relacionamento com os que não pensam como nós que adquirimos novas e importantes experiências. 

Toda coisa tem o oposto. A morte tem a vida, a noite tem o dia, o claro o escuro, o grande o pequeno, o alto o baixo …

É comum procurarmos a harmonia das situações e dos agrupamentos, na semelhança entre as partes. Todavia, a igualdade pode criar choques. É preciso haver diferenças. Mas que se complementem sem criar dissensões.

Imaginemos uma casa onde os dois gastam irresponsavelmente. Em curto prazo, o lar vai à bancarrota. Mas se os dois forem avaros, faltará até o indispensável e eles serão irritadiços e ansiosos. Um terá de ser mais arrojado e o outro comedido, prudente. Irão completar-se.

O mesmo se daria se ambos fossem excessivamente risonhos, brincalhões, irreverentes. Nunca seriam levados a sério. Mas se fossem sisudos, mal-humorados, rechaçariam os que tentassem aproximar-se.

Este pequeno esboço serve de intróito para analisarmos uma sociedade, um grupo, uma entidade.

Toda pessoa  tem sua própria habilidade. Observemos uma orquestra. Cada músico toca um instrumento. No entanto, a melodia embeleza-se pela combinação de todos eles. Um conjunto vocal tem diversas vozes, que se fundem numa só, em harmonia. Um time de futebol tem os que fazem  os goles e outros que tratam de evitá-los.

A grande empresa, por exemplo, começa pela presidência e assessores diretos, mas não dispensa os auxiliares de escalões menores e nem mesmo o trabalho dos mensageiros, encarregados da correspondência. São muitas vezes a figura da companhia. Um funcionário educado, bem composto, eficiente, levará boa imagem da firma onde trabalha, junto à clientela, fornecedores e bancos.

Dá-se o mesmo nas sociedades culturais, recreativas, filantrópicas, religiosas. E, neste caso, analisemos o Centro Espírita.

Um agrupamento onde se divulga o Espiritismo, tem diferentes tipos de colaboradores. Ali encontramos a equipe diretora da casa, muitas vezes fundadora do Centro, os passistas, os palestrantes, os orientadores, os assistentes sociais, os faxineiros.

Não podemos esperar que todos tenham as mesmas idéias. São espíritos em variados degraus de entendimento, espíritas há mais ou menos tempo, culturas diferentes e convicções que não coincidem. Uns mais amoráveis e outros mais racionais. Este se encanta com o fenômeno, aquele valoriza a mensagem. Há os que preferem a religião e os que destacam a ciência espírita.

O fato de não darmos atenção a esse aspecto, pode criar dificuldades de relacionamento entre os participantes da mesma casa ou, em âmbito maior, do próprio movimento espírita. Desejamos que haja perfeita sintonia e qualquer deslize é considerado irreverência, desobediência, indisciplina, o que nem sempre é verdade. Ninguém muda de um dia para outro, apenas por tornar-se adepto do Espiritismo.

Sem dúvida, há que haver afinidade quanto ao ideal e objetivos. Todos, sem exceção, devem praticar a caridade em favor do semelhante. Mas cada um na sua habilidade própria.

Encontramos irmãos com grande cabedal doutrinário que são péssimos orientadores. Para ajudar, é preciso respeitar a capacidade do outro. Ninguém pretenda resolver as dificuldades alheias baseado no próprio conhecimento, na sua coragem e disposição diante de problemas. Jamais aconselhar com frases como: “se eu fosse você”; “se isso fosse comigo”, porque nem você é o outro, nem o problema é seu. 

A maioria dos dependentes deseja ver-se livre do vício, mas não consegue. Para aquele que já venceu alguma imperfeição, ou que nunca fez uso das químicas nocivas e alienantes, parece fácil vencer o mal. Mas é difícil; extremamente difícil.

Observemos os passes. Quantos trabalhadores que se dedicam a essa tarefa, mesmo sem grande conhecimento doutrinário, têm bom sentimento  e desejo de servir. Quando impõem as mãos, jorra luz do seu coração, pela facilidade de sintonia com os Espíritos Benfeitores. Mas se convidados a fazer uma simples prece, alegarão dificuldades em comunicar-se.

Quantos são eficientes orientadores, porque, mesmo sem a vidência ou a audiência, são ouvintes pacientes que deixam a pessoa falar para descarregar as mágoas. Não têm pressa em resolver tudo, preferindo entregar o irmão aos Espíritos e às palestras, que explicam, pouco a pouco, os meandros da vida e como a pessoa pode ajudar a si mesma, ampliando a fé e ganhando entendimento. Sabe que só quando chegar o tempo certo e nascer o merecimento é que a melhora começara a processar-se. A imperfeição é uma doença que leva tempo para ser curada. É preciso que doa para que o compreensão chegue. Poupar excessivamente alguém é como atrofiar-lhe a vida. O passe, terapêutica de emergência, é socorro provisório, até que a própria pessoa aprenda a cuidar-se, modificando sua maneira de viver.

Palestrantes há que têm grandes conhecimentos doutrinários, mas falam de forma rebuscada e metafórica, atêm-se ao cientismo, criando barreiras que impossibilitam o entendimento. Demonstram sabedoria, mas não atingem os que esperam palavras simples e de fácil assimilação. Falam, mas não comunicam.

Vimos, portanto, que num agrupamento espírita há de tudo e todo tipo de participante. Um vaidoso, outro humilde. Um culto, outro menos instruído. Um jovem afoito, outro maduro e prudente. Um com receitas para salvar a humanidade, outro que contenta-se em ajudar um ou dois, colocando-se entre os necessitados.

A igualdade que deve haver no Centro Espírita é que todos se preocupem em estudar o Espiritismo e conhecer objetivamente, sem dogmas ou figurações, o Evangelho de Jesus. Todos devem ser educados e gentis com cada pessoa que visite a casa em busca de orientação e socorro. Todos se devem mútuo respeito, aceitando os defeitos e as fraquezas do companheiro de ideal. Temos de ajudar, sem impor, orientar, sem agredir, aconselhar, sem exigir. Isso não significa que o tarefeiro rebelde, nocivo ao agrupamento, renitente, de coração endurecido, não possa e não deva ser advertido e até afastado, em benefício dos demais e dele próprio. Se tememos os obsessores desencarnados, temos de nos cuidar contra os encarnados que muitas vezes tumultuam os trabalhos mais do que os  “fantasmas”.

Concluindo. As diferenças não são problemas. As diferenças podem compor harmonioso conjunto,  O que cria problemas são os radicalismos, quando exigimos dos outros o que  nem sempre podem dar. Além disso, convém lembrar que não somos perfeitos, nem modelo para ninguém. Temos ainda, todos, muito a ser corrigido em nós mesmos.

No Centro Espírita, igualmente como em qualquer lugar, a paciência segue sendo a maior virtude para que os homens se entendam e se complementem na lei do amor.