Sua ação no bem dispensa os discursos.

Jesus não oferece discurseiras nem fórmulas mágicas para orientar a humanidade. Suas mostras são receitas de aprimoramento espiritual, que não incluem o princípio do “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”. Suas atitudes são exatamente conformes com as pregações. Se dermos às suas orientações a forma das encíclicas, as cartas pontifícias, teremos laudas de uma só linha porque Sua capacidade de síntese, própria dos enviados, não encontrou ainda similar.

Desembarca no planeta pela manjedoura, sem as pompas do templo, da sinagoga ou da catedral. Desde jovem, sustenta-se do trabalho, não da esmola. A sandália, a túnica e o manto surrados, sem o luxo dos paramentos, são o Seu uniforme de Mestre. À mesa, junto aos seus seguidores, não usa o cálice de ouro. Não cobra pelos milagres, ora de graça e ensina a orar. Recomenda o pagamento dos tributos, não pleiteia privilégios e prega nas ruas, onde a poeira é o tapete, o monte é o púlpito e o coração do homem o altar.

Não o vemos recomendar a invasão das terras, nem censurar Roma pelos atos despóticos. Não faz demagogia com os direitos humanos, mas recomenda a todos que se amem. Refuta a hipocrisia do fariseu, enquanto perdoa a pecadora. Censura em Pedro a sua pequena fé, mas é bondoso com o equivocado Judas. Convida o publicano Mateus para ser Seu discípulo, mas libera o paralítico, nada exigindo dele, a não ser recomendar-lhe que não peque mais.

O Mestre dos mestres, pleno de misericórdia, conhece as almas e não exige delas nada além do que podem oferecer. Ensina que a riqueza e a pobreza são necessidades humanas e que os homens precisarão das dores como recurso de evolução, ainda por muito tempo. Propõe que nos eduquemos para a saúde e para a doença, indiferentemente, porque ambas elevam ou destroem.

Ao falar sobre a “Indulgência”, recomenda que perdoemos setenta vezes sete, enquanto ensina que não é o sadio que precisa do médico. Não tem atos de represália negando-se a visitar povos onde há preconceitos. Mostra quando vai à Fenícia, pois, sem censurar os senhores, consola os escravos diante das cenas dantescas de Sidon e Tiro. Nas agressões, inclusive quando estava na cruz, não pergunta “por que eu, o Messias”, Entrega-se ao Pai e perdoa os seus algozes.

Fala da fome sem intimar a sociedade a repartir, porque sabe que ela não tem disposição nem entendimento para tal. Toma meia dúzia de pães e alguns peixes e os multiplica. Produz Ele mesmo o alimento, sem transferir a tarefa para ninguém. Por essa razão, raramente o vemos no Templo, mas sempre no íntimo contacto com a cidade baixa, junto aos miseráveis de Jerusalém. Não instiga nem faz política para defender os pobres. Estes sempre existirão, ensina em casa de Lázaro quando Judas censura o desperdício com o óleo da unção.

Na análise entre “Pais e Filhos”, exalta a coragem do menino pródigo que saiu em busca de experiência. Não o excomunga. Oferece-lhe respeito e lhe abre Seu coração, como faz com todos nós, filhos desgarrados, quando reencontramos o caminho.

No “Evangelho e Vida”, enaltece o óbolo da viúva e não pede dízimos nem depósitos para os cofres da fé.  A essência de sua “encíclica” é o sermão dito em canal aberto e direto, do Céu para a Terra, quando encoraja o pobre de espírito prometendo-lhe o Reino dos Céus, oferece aos de coração puro a visão de Deus, presenteia com a compaixão o misericordioso e exorta a que todos sejamos luz para melhorar o mundo.

No delicado assunto “Mãe”, desmistifica o mito da parentela e ensina que a família é o resultado dos que se unem pelo amor. Concita-nos a espiritualizar o lar humano, onde nos escravizamos e agredimos irracionalmente. Crucificado, entrega à divina genitora o jovem João para ser adotado. Em pleno calvário, realiza o parto de luz ao entrelaçar mãe e filho, compensando-os pela dor que ali sentiam.

“Encíclicas do Cristo”! Não se desesperam com a pobreza humana, mas preocupam-se com as misérias do espírito. Não somente alimentam, mas dão vida, porque protegem o homem, já que à medida que este salda débitos do passado, compromete-se em dobro no presente. É um sábio que ainda não compreende o amor.

Nestes tempos de mar revolto, nenhuma outra encíclica, além das do Cristo, pode manter-nos de pé. Para encontrá-las basta folhear o Evangelho. E uma vez conhecendo-as, basta vive-las para que produzam resultado.

 Octávio Caúmo Serrano

 Do Livro Pontos de Vista – Casa Editora O Clarim