Neste 3 de outubro, em 1804, nascia o codificador do Espiritismo

Kardec foi ferrenho defensor do Centro Espírita e acreditava que pequenos grupos são geralmente mais produtivos que uma casa de grandes proporções.

Mas o que é um Centro Espírita?

Poderíamos definir como uma instituição beneficente e religiosa, com propósitos definidos. Esses objetivos variam dependendo da localização geográfica do agrupamento, o seu entorno e o tipo de público que participa de suas atividades.

Formar um Centro Espírita é algo muito simples.

Reúne-se um grupo de pessoas, ou alguém com vocação para a prática da caridade, compra-se, aluga-se ou consegue-se um local para a realização dos trabalhos.

O passo seguinte é formar, com esse grupo ou com terceiros, uma diretoria que deverá ser responsável pelo centro. Jurídica e doutrinariamente.

Cria-se um estatuto, cujo padrão está disponível em qualquer federativa ou mesmo na internet, e registra-se, em cartório próprio, uma ata de fundação que leva anexado o referido regulamento.

Coloca-se algum mobiliário básico (mesa, cadeira, arquivo etc.), tudo conforme o tamanho do local e as ambições que os dirigentes têm quanto aos objetivos da entidade.

Nesse aspecto, o centro pode ter, além do trabalho de divulgação doutrinário pela teoria e estudo dos seus princípios básicos, também atividades que demonstrem na prática a execução da caridade em favor dos mais necessitados materialmente. Pode dar sopa, fornecer enxoval para gestantes, ter bazar beneficente, distribuir cestas básicas, ensinar trabalhos profissionais, artes e toda uma gama de possibilidades que se encontra nas casas espíritas dos nossos dias.

Por mais simples que seja a instituição, ela sempre poderá realizar um serviço social em favor da comunidade onde se instala, especialmente no campo do estudo e da divulgação do Espiritismo, coadjuvado pelo Evangelho de Jesus, ou, se preferirem, vice-versa, o Evangelho de Jesus explicado pelo Espiritismo. Este é o principal departamento de um centro espírita, sem o que não há Espiritismo, porque os demais são complementares e servem para ensinar as pessoas a abrir a mão e meditar sobre sua vida pela observação das misérias do mundo. Para aprender a agradecer mais e reclamar menos.

Nesse aspecto, uma reunião espírita por meio de palestras públicas deve ser algo muito sério. Conforme os encarnados falem, pensem, vibrem, ouçam e se comportem, teremos a equipe da espiritualidade que se fará presente nos trabalhos. Jamais esquecer que para os espíritos de alguma elevação, a seriedade e a responsabilidade é que contam. A simples presença física, sem a devida atenção aos propósitos do dia, nada acrescenta ao praticante da doutrina. E se, além da desatenção, ainda houver leviandade, futilidades, pensamentos desviados para os valores mundanos, estejamos seguros de que não teremos uma equipe espiritual séria. Seremos um grupo a serviço mais da obsessão do que do Evangelho.

O dirigente de uma casa espírita é o guardião da doutrina dentro do centro. Mais importante do que as casas espíritas é a causa espírita. Para ser coerente com o Espiritismo, há vezes que temos de desagradar algum companheiro de tarefa, quando este não se conduza dentro dos princípios doutrinários. Daí vermos grandes grupos sem o aval do Plano Espiritual, devido às prioridades que têm, recreativas ou baseadas em necessidades materiais para gerir obras que não podem se autossustentar. Enquanto isso, outras agremiações, aparentemente modestas, são pilares com que conta a espiritualidade para a construção dos sólidos alicerces do verdadeiro cristianismo no nosso planeta.

Quando entramos numa casa espírita temos de manter respeito e fazer silêncio, físico e mental, porque já desde esse momento estamos sendo amparados pela espiritualidade. Não é fato raro alguém que está apenas ouvindo uma palestra ser operado ou tratado de enfermidades que nem imagina ter. E é também comum que a espiritualidade se sirva de nossos fluidos para ajudar algum sofredor. Todos são necessitados, mas todos também podem doar algo.

Uma das recomendações que habitualmente nos são feitas é que não devemos ter pressa em abrir um novo trabalho sem que tenhamos realizado bem os compromissos já assumidos. Antes de ter uma nova tarefa, é preciso ver que recursos estão disponíveis e com que pessoas o centro pode contar para realizar o trabalho com seriedade e segurança. Pior do que não começar um novo departamento é ter de fechar aquele que não funcionou porque foi mal planejado ou está executando as tarefas fora dos princípios cristãos.

É normal o entusiasmo do dirigente com a sua casa e o empenho para ter o salão sempre cheio. Esquece-se que a sua parte é realizar o trabalho com toda dedicação sem deixar de considerar que cada pessoa tem suas próprias necessidades e seu entendimento pessoal. O responsável não pode se decepcionar com o desinteresse que certas vezes se observa no trabalhador espírita ou no frequentador da casa. Não são todos que se integram no espírito de equipe e entendem que a sua participação efetiva é importante. Que tudo lhe diz respeito. Se a casa está organizada e tudo funciona é graças ao trabalho de equipe. Ninguém realiza sozinho uma tarefa. Todos precisam de todos, sem que um seja mais importante do que o outro. Do presidente ao faxineiro.

 O espírita é propagandista do Espiritismo por ação e conduta, mais do que pelas palavras que divulga. Já diz provérbio oriental que o grama de exemplo vale mais que a tonelada de conversa. Daí, sem ser conivente com o erro, o espírita deve ser paciente com o equivocado; sem aceitar a desonestidade deve compreender a fraqueza do desonesto; sem ser perfeito cabe-lhe entender a imperfeição do próximo. Não podemos ser os donos da verdade nem ter nossa religião como a salvadora de toda a humanidade. Todavia temos de ser coerentes e acreditar com firmeza em tudo o que dizemos, a par de viver, com exemplos, os discursos proferidos. Dentro e fora da casa espírita.

O espírita de verdade é, portanto, o que coloca a coletividade acima da individualidade e as necessidades gerais acima dos seus interesses particulares. Um conjunto de pessoas com esse comportamento comporá sempre um verdadeiro Centro Espírita.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Outubro de 2010