Há muitos tipos de tratamentos feitos por médiuns coadjuvados pelos Espíritos ou com a aplicação do seu próprio magnetismo.
Eles podem ser feitos por meio de passes, orações – mesmo à distância – cirurgias mediúnicas, com ou sem cortes, ou mesmo pelos Espíritos diretamente no paciente, muitas vezes, sem que ele mesmo saiba. Durante uma reunião espírita é possível que sejamos operados de uma enfermidade que temos, mas ignoramos.
O tratamento espiritual visa dar oportunidades aos homens de executarem suas tarefas diante da vida, geralmente compromissos assumidos antes da encarnação. Nesse sentido, é comum que a cura total não se processe, mas que o necessitado experimenta uma melhora provisória com uma pausa na doença, para dar conta de alguma tarefa que ainda precise realizar. Cessado o tempo, muitas vezes o sofrimento recomeça.
Considerando-se que uma pessoa doente na Terra continuará doente na espiritualidade até que seu mal seja totalmente debelado, o tratamento espiritual é sempre eficiente, porque a medicina só cura o corpo. Com a assistência dos Espíritos, o tempo de internamento nos hospitais espirituais pode ser amplamente reduzido, porque já saiu daqui com parte da cura obtida pelo tratamento via mediúnica ou similar.
Embora os Espíritos contem muitas histórias desse teor, vivemos em família um fato que possivelmente ilustre o relatado.
Nosso pai, pedreiro e analfabeto, foi acometido de úlcera de estômago aos trinta e oito anos de idade. O ano era 1941, quando eu tinha sete anos de idade e meu irmão apenas um.
Internado no Hospital São Paulo para submeter-se à cirurgia, fugiu do nosocômio sob a alegação que não lhe mostraram a radiografia que comprovasse a sua doença. Como se ele soubesse ler uma radiografia!
Por mais de ano, sem que seu organismo retivesse qualquer tipo de alimentação, sólido ou líquido, tomando injeções quase que diárias, estava definhando. Não havia medicamento que resolvesse o problema. Chegou a quarenta e cinco quilos.
Uma de suas irmãs mais velhas perguntou-lhe se não gostaria de visitar um senhor que talvez pudesse ajudá-lo. Seu nome era Valdomiro e residia próximo ao hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele aceitou e lá foram os dois.
Ali chegando, o homem pergunta ao meu pai:
– Você tem fé?
– Eu tenho, sim senhor. – Foi a resposta.
Atendeu a uma pessoa e logo depois deu ao meu pai uma xícara com um chá.
– Beba, por favor.
Ingerida a bebida, ele perguntou quando deveria voltar para nova consulta. E a resposta foi que não precisava voltar mais porque já estava curado.
Imagino que meu pai, embora agradecido pela ajuda, não acreditou muito naquele milagre. Despediram-se e foram embora.
Dois ou três dias depois ele voltou a trabalhar, o que não fazia havia quase um ano, e passou a comer de tudo. Sem mais dores ou desconfortos de qualquer natureza.
No Natal de 1956, mais de quinze anos depois, as dores e os sintomas recomeçaram, exatamente iguais. Um sofrimento entre gemido e desespero.
Depois de atendimentos de urgência, úlcera soporada, hemorragias, finalmente preparou-se para a cirurgia que se deu na segunda-feira, 16 de setembro de 1957, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, pelo INSS.
Lembro-me que, sentado na soleira da porta da cozinha, ele disse à minha mãe:
– Sabe? Agora posso ser operado porque se eu morrer não tem problema. Você já tem sua casa e os filhos estão criados e cuidarão de você. Naquele tempo eu não podia correr o risco de deixar você viúva com duas crianças sem uma casa para morar.
E realmente desencarnou no domingo, 22 de setembro de 1957, uma semana depois da cirurgia.
Correu boato no hospital que ele estava bem e havia sido vítima de anafilaxia, choque causado por transfusão de sangue incorreto. Durante muito tempo me perguntei se ele tivesse sido operado em hospital particular não teria sobrevivido e o erro não teria acontecido. Mas não podíamos pagar, infelizmente. Hoje, como espírita, eu sei que isso não mudaria nada. O que ele teve foi uma moratória de quinze anos, concedida pelo Plano Divino, para que completasse a assistência às pessoas que dependiam dele, a fim de que pudessem encaminhar-se na vida, o que realmente aconteceu.
Hoje eu entendo melhor o que é assistência espiritual e sei que ela tem por objetivo mais a alma do que o corpo. Morrer não é problema, porque voltaremos a nascer. Grave é desencarnar deixando erros cometidos na Terra ou serviços inacabados que, cedo ou tarde, terão de ser reparados ou completados, quase sempre com muito sofrimento.
O conhecimento da verdade é libertador. A cada mês de novembro quando visitamos nossos mortos nos cemitérios, é preciso meditar sobre a beleza de vida e a libertação pela morte. Saudade sem revolta, porque a morte é autorizada por Deus. E cada ser espiritual em evolução na Terra, por meio das reencarnações, deve ver a vida com bom-senso e justiça. A misericórdia sempre chega até nós, mas ela atende às necessidades do Espírito mais do que às exigências do corpo. O corpo só adoece quando o Espírito está enfermo. E a sua cura sem cogitar da renovação espiritual não está de acordo com os apelos da Vida Superior.
Neste novembro dos Santos e dos Mortos, lembremo-nos dos nossos queridos que se foram com alegria e saudade, mas sem revolta. Morrer é libertar-se após o cumprimento da pena e é sinal da igualdade perfeita que existe em todos os homens do mundo. Todos nascemos um dia e todos um dia morreremos, com o compromisso de nascer novamente, ainda por muitas vezes.
Que a paz do Senhor permaneça nos corações de todos.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Novembro de 2010