A Codificação já está ultrapassada?

 Discussões estéreis poluem, de vez em quando, o Movimento Espírita, porque falsos sábios querem demonstrar uma sabedoria e um entendimento que são impossíveis de serem conquistados com o cérebro humano atual.

Em muitas oportunidades, os Espíritos aconselharam-nos a não entrar em contendas ou sutilezas que se assemelham a debates políticos; cada lado acredita ter sido vencedor, e os dois são, quase sempre, igualmente medíocres.

Já na codificação, na questão 14, de O Livro dos Espíritos – PANTEÍSMO –, Allan Kardec, depois de ter feito muitas perguntas sobre a existência e a natureza de Deus, indaga:

– Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo?

As Entidades responderam:

– Se assim fosse, Deus não existiria, pois seria o efeito e não a causa. Ele não pode ser ao mesmo tempo um e outro.”

O interessante, porém, é a complementação do ensino, quando os Veneráveis dizem:

– Deus existe, você não pode duvidar, e isso é o essencial. Creia e não vá além. Não se perca num labirinto de onde você não pode sair. Isso não tornará você melhor, mas um pouco mais orgulhoso, talvez, já que julgaria saber, quando, na realidade, nada sabe. Então, deixe de lado todos esses sistemas; você já tem muita coisa que o toca diretamente, a começar por você mesmo. Estude as suas próprias imperfeições para livrar-se delas; isso será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável.

São lições de 1857, quando do lançamento do livro básico da Codificação, que vêm sendo, ao longo do tempo, corroboradas por toda a espiritualidade encarregada de trazer-nos novos e atualizados conhecimentos.

Algumas dessas informações estão na apresentação do livro “O Consolador”, de Emmanuel, por Chico Xavier, lançado em 1940.

Como se fora um prefácio, o livro começa com a página “DEFINIÇÃO”. Ali somos informados pelo médium psicógrafo que, numa reunião de 31 de outubro de 1939, ainda em Pedro Leopoldo, foi sugerido por um espírito a necessidade de estudo por meio de perguntas e respostas. Após ser consultado, Emmanuel estabeleceu um programa de trabalho que daria origem à obra em questão.

O mentor espiritual deixou clara a posição dos espíritos, no contato com os encarnados, quando disse:

“Podem perguntar, sem que possamos nutrir a pretensão de lhes responder com soluções definitivas, embora cooperemos com vocês com a melhor boa vontade.” Ressalta que, “além do túmulo, o espírito não encontra os milagres da sabedoria e que as novas realidades do plano imortal ultrapassam os quadros do conhecimento contemporâneo, conservando-se em uma esfera quase inacessível às cogitações humanas, escapando, pois, às nossas possibilidades de exposição, em face da ausência de comparações analógicas, único meio de impressão na tábua dos valores restritos da mente humana.”

Depois de apresentar ainda mais alguns argumentos, completou Emmanuel: “Além do mais, ainda nos encontramos num plano evolutivo e não podemos trazer ao círculo de aprendizado de vocês as últimas equações neste ou naquele setor de investigação e análise.” Como tal, respeitando essa relatividade, prometeu trazer-nos experiência, sem se deter nos quadros técnicos das questões científicas ou na polêmica das Filosofias e Religiões, já bastante movimentadas nos bastidores das opiniões, a fim de considerarmos somente a luz espiritual que se irradia de todas as coisas. O mentor de Chico Xavier deixou bastante claro que somos muito pretensiosos e queremos saber sempre o que a nossa inteligência mediana não pode compreender.

Entre as realidades do mundo espiritual, e mesmo dos planos físicos, em mundos mais adiantados, e o nosso planeta, há um imenso abismo que ainda não podemos ultrapassar. Seria como ensinar ciência quântica a uma criança da pré-escola, ou como correr de Fusca e pretender vencer uma competição de Fórmula 1, ou um virtuose tocar num violino desafinado; a melodia seria prejudicada.

Por isso é que há muitos espíritas querendo reformar os livros da codificação. Se é verdade que entre as perguntas há certas questões já plenamente absorvidas pelos praticantes e estudiosos do Espiritismo, não nos esqueçamos de que, todos os dias, chegam novos adeptos aos Centros Espíritas. E esses não podem começar com lições avançadas, precisando, como todo estudante que inicia, do uso da cartilha. Nesse ponto, a Codificação ainda perdurará por muito tempo. E os que a têm, como ensino superado, tratem de estudá-la com mais profundidades, porque descobrirão, todos os dias, sutilezas que lhes escaparam, nas primeiras e superficiais olhadelas.

O grande problema do homem dos nossos tempos é que ele não consegue ser simples. Precisa exibir sabedoria e dizer-se conhecedor de verdades transcendentes, embora nem saiba, ainda, controlar o próprio pensamento, nem dominar sentimentos inferiores, aqueles que o levam às quedas diárias, pela exagerada pretensão. Nem aprendeu, ainda, a amar o próximo, mas julga merecer privilégios de Deus.

A grande tarefa do ser humano, neste mundo de provas e expiações, é a do autoaprimoramento. Equivocadamente, temos a receita para consertar o mundo, mas nem conseguimos consertar-nos. Sabemos sempre o que compete aos outros, e onde se localizam as suas falhas e imperfeições. Pena que não apliquemos esse mesmo discernimento na melhoria de nós mesmos. E é para isso que reencarnamos. Em vez de corrigir os outros, por palavras, tratemos de ser exemplos. Diz certo provérbio oriental: “O que você é grita tão alto que nem escuto o que você fala.”

Neste mês do 154º aniversário dessa extraordinária obra, O Livro dos Espíritos, visitemos as questões 919 e 919ª, ditadas por Santo Agostinho, e teremos um roteiro seguro para autoanálise, reflexão importante para todo aquele que deseja, efetivamente, ser melhor a cada dia. E não nos percamos em filosofias estéreis ou falsas impressões de conhecimento superior. É uma vaidade que em nada nos ajuda.

Amigo Kardec, aceite nossa gratidão e os desejos de que Deus o abençoe!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2011