“Qual é a mais meritória de todas as virtudes?”

 Esta indagação foi feita aos orientadores espirituais e está registrada em O Livro dos Espíritos, como questão 893. 

A resposta não deixa dúvidas: “Todas as virtudes têm seu mérito próprio, porque todas são sinais de progresso no caminho do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária à atração das más tendências. Mas o que há de mais sublime na virtude é o sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem segundas intenções. A virtude mais meritória é aquela fundada na mais desinteressada caridade.”

Resta-nos, agora, definir e compreender o que é caridade. Já não mais podemos confundi-la com a esmola, depois das orientações trazidas pelo Espiritismo.

A caridade é exercida em cada movimento, em cada atitude, quer em relação a terceiros quer em relação a nós mesmos. É até comum nos esquecermos da autocaridade, quando descuidamos da saúde, do indispensável repouso, do equilíbrio alimentar e entramos em desvarios mentais que nos causam os conhecidos estresses e depressões.

Para que essa caridade tenha sucesso, a virtude, mencionada no título deste despretensioso escrito, é das mais importantes: PACIÊNCIA! Quantas vezes nos perdemos pela impaciência, desistindo de tentar mais um pouco, de manter a confiança e serenidade por mais um tempo, sem desistir de algum objetivo. Ele pode ser a vitória sobre a irascibilidade, a tolerância com alguém difícil, a aceitação da enfermidade que nos aborrece, a persistência na educação de um filho rebelde, o equilíbrio no trânsito ou a conformação ante as dificuldades da vida.

Em nosso livro “Modo de Ver”, da Casa Editora O Clarim, temos uma página que diz Paciência, a ciência da paz. Argumentamos que, embora etimologicamente paz e ciência nada tenham a ver com paciência, sem dúvida, a paciência é a ciência que nos leva à paz.

A paciência nos é ensinada pela natureza. Qualquer planta espera, pacientemente, o tempo certo para dar flores e depois produzir frutos. O feto espera nove luas para depois nascer. Tudo na hora certa. Nosso coração bate uma vez e espera que o sangue percorra o caminho devido para, depois, bater novamente, num trabalho de décadas, sem que ele se aborreça com a rotina. O mesmo se dá com a respiração, com a digestão, que mostram a paciência da natureza em relação a nós.

Imaginemos se Deus não tivesse paciência com seus filhos. Manda um emissário à Terra para ensinar-nos; manda outro e mais outro e nós continuamos turrões ante os conselhos de seus enviados, todos eles visando a nossa felicidade. Mas Deus nunca desiste. Afinal, foi Ele quem inventou a paciência!

A falta de paciência gera a irritabilidade e o consequente nervosismo; desequilibra-nos o organismo, produzindo úlcera, gastrite, hipertensão, angina, infarto, vitiligo, baixando a imunidade e até interferindo nas células que terminam cancerosas. Isso no corpo físico.

Se analisarmos sob o prisma espiritual, veremos que a impaciência abre portas para processos obsessivos, dada à sintonia com espíritos inferiores que se comprazem ante a nossa infelicidade. E, à medida que o processo se instala, vai ficando mais intenso e crônico, dificultando a reversão para retorno ao equilíbrio.

Quando ficamos impacientes, seja com algo ou alguém, busquemos desviar o pensamento, sintonizando com algo bonito, ouçamos a música preferida ou usemos outros recursos que nos ajudem a desviar a atenção daquilo que consideramos problema. Partamos do princípio de que tudo tem solução. Até a morte é uma bela saída para interromper, muitas vezes, vidas inúteis ou desregradas. Lembramos uma trova sobre a morte, de Djalma Andrade, aquele poeta de Congonhas do Campo-MG, que diz: A morte é a bela enfermeira/vem sem a gente chamar/e cura sempre as feridas/que ninguém soube curar. Ou a outra, do mesmo autor: A morte é a melhor das aias/sem ser chamada aparece/e é tão lindo o que ela canta/que a gente logo adormece.

Paciência depende de um aprendizado lento e contínuo. Só vem quando se tem fé. Mas, como tudo o que incorporamos ao inconsciente espiritual é nosso, é inalienável, qualquer esforço vale a pena, porque é o tesouro que o ladrão não rouba, a traça não come e a ferrugem não destrói. Quem, numa encarnação, incorporar em si uma das virtudes – paciência, humildade, desprendimento, solidariedade, resignação, etc. – fica dono dela por toda a eternidade. Por que imaginamos que Chico era daquele jeito? Porque ele treinou, em encarnações passadas, uma coisa em cada uma delas. E, tenham certeza, não foram poucas as suas vidas de aprendizado.

Paciência não se compra em farmácia. O que lá se compra é calmante, que nada mais é do que paciência artificial. Para usar um termo atual, é paciência pirata. A verdadeira e conquistada paciência evita crimes, insucessos, inimizades, injustiças, arrependimentos, mágoas, enfermidades e tantas outras dores. Perseverar sempre mais um pouco, antes de perder a paciência, é sabedoria; mesmo porque ninguém pode perder o que não tem!

É difícil, mas vale a pena.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2011