Os espíritos e os médiuns. Parceiros ou inimigos. 

Não foi sem razão que Chico Xavier, o apóstolo da mediunidade, iniciou a tarefa na psicografia com o livro Parnaso de Além Túmulo, aos incompletos 21 anos, trazendo de volta a verve dos espíritos poetas que vinham comprovar a continuidade da vida e a inalienabilidade dos talentos conquistados durante as encarnações.

Dentre os cinquenta e seis nomes que o livro engloba, brasileiros e estrangeiros, em cerca de quinhentas páginas, temos alguns, (Emílio de Menezes e Augusto dos Anjos, por exemplo), que mostram um lado novo da sua personalidade. De pessimistas, incrédulos ou obscenos, relatam aceitação e entendimento sobre a vida que agora levam. Ante a imortalidade da alma, renderam-se e modificaram-se.

O livro é de tal forma autêntico que suscitou polêmicas, porque alguns atribuíam a Chico o crime de plágio, enquanto outros, especialistas, afirmavam que os estilos e a linguagem dos poetas estavam ali tão fielmente reproduzidos – o que é como a impressão digital no ser humano – que lhes restavam somente duas opções: ou aceitar que Chico Xavier era efetivamente um médium ou que era um gênio e mereceria cadeira na Academia Brasileira de Letras. E, com o tempo, o médium mostrou o que era!

Na 10ª edição de 1978, FEB, foram dedicadas trinta e uma páginas ao poeta Augusto dos Anjos, entre a inserção dos poemas e as análises de M. Cavalcante Proença, reproduzidas do ensaio “O artesanato em Augusto dos Anjos”, da obra Augusto dos Anjos e outros ensaios, da Livraria José Olímpio Editora de 1959. Ali o autor evidencia a perfeição dos decassílabos, fala dos subesdrúxulos, da aliteração, da sibililação, dos enjambements e muitos outros detalhes que podem ser observados na poesia do encarnado e na do espírito, com a mesma técnica.

Os expertos garantem que Chico não poderia ter tal habilidade, repetida de maneira diferente com os demais poetas. Na mencionada edição, há, em muitos capítulos, o poema do poeta “vivo” e a sua obra depois de “morto”, para mostrar a semelhança do estilo, que se conserva após a morte.

Um dos fortes da poesia é a sua capacidade de comunicação sintética, como é o caso dos sonetos que, com apenas quatorze versos – linhas – têm começo, meio e fim, deixando um recado por inteiro, substituindo, em certos casos, explicações que tentamos dar num longo texto, sem conseguirmos.

O próprio codificador valorizou a poesia na divulgação do Espiritismo;  encontramo-la na Revista Espírita Allan Kardec, em muitas oportunidades. No original francês e em traduções.

Além do Chico, outros médiuns receberam os poetas. Por exemplo, o saudoso Jorge Rizzini, no seu  “Antologia do Mais Além”, e Waldo Vieira, parceiro de Chico em “Antologia dos Imortais” e “Trovadores do Além”. Temos também obras de humor, como “Humorismo no Além”, de Chico Xavier, na qual o irreverente Damião das Queimadas diz numa trova: A ter de casar no mundo/no amor agora como é/prefiro ter catapora/sarampo e bicho de pé; todavia, a doce Auta de Souza replica: casamento de quem ama/do mais nobre aos mais plebeus/mesmo florindo na lama/é um lírio do amor de Deus. Só como exemplo, já que há vasta literatura mediúnica em versos, em livros ou mensagens esparsas.

“Quase todos os poetas nos trouxeram produções de caráter superior às que deixaram no plano físico. Ao que parece, foi Djalma Andrade quem primeiro observou isso, falando sobre alguns poetas que ele conhecera e que figuram no Parnaso”, diz Elias Barbosa, no prefácio de Antologia dos Imortais.

Enquanto há os que pregam a pornografia, Djalma Andrade, de Congonhas do Campo – MG –, 1891/1975, que escreveu sete livros, entre 1935 e 1945, criou belos poemas, alguns que são verdadeiros rogos. Confiram:

Ato de Caridade

Que eu faça o bem, e de tal modo o faça,
Que ninguém saiba o quanto me custou.
– Mãe, espero de ti mais esta graça:
– Que eu seja bom sem parecer que o sou. 

Que o pouco que me dês me satisfaça;
E se, do pouco mesmo, algum sobrou,
Que eu leve esta migalha onde a desgraça,
Inesperadamente, penetrou. 

Que a minha mesa, a mais, tenha um talher,
Que seja, minha Mãe, Senhora nossa,
Para o pobre faminto que vier.

Que eu transponha tropeços e embaraços:
– Que eu não coma sozinho o pão que possa
Ser partido por mim em dois pedaços.

Humildade

Que o meu orgulho torne-se humildade
Podendo ser o mais, que eu seja o menos;
Que morra, em mim, a estúpida vaidade
E que eu seja o menor entre os pequenos. 

E que eu pratique o bem, – fuja à maldade
E não atenda mais aos seus acenos;
Que se transforme em rosas de bondade
O que era em mim espinhos e venenos.

Que a minha mão as dores alivie,
Que aos mais humildes eu não cause inveja,
E, se luz eu tiver, que aos outros guie…

 Mãe, que eu veja nos pobres meus iguais,
E, se orgulho eu tiver que o orgulho seja
De ser o mais humilde dos mortais.

Este ano, o Parnaso de Além Túmulo completa 80 anos. A primeira semente plantada pelo Chico que deu como fruto mais de quatrocentas obras, em prosa e verso, vertidas para muitos idiomas. Nossos agradecimentos ao grande benfeitor que, em 30 de junho de 2002, despediu-se de nós e voltou para a casa, onde certamente está, por merecimento, em doce recanto de luz!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2011