Octávio Caúmo Serrano [caumo@caumo.com]

Mais uma expressão popular que raramente é levada a sério. Geralmente, apesar da mudança da folhinha, repetimos na nova etapa a mesma vidinha desprovida de ideais verdadeiros.

Embora tenhamos nos proposto a mudar, fazemos como os políticos que nunca cumprem suas promessas. É fácil de explicar: mudar dá trabalho. É preciso romper com velhos e arraigados hábitos nocivos que, muitas vezes, nem percebemos ter. O mesmo se dá no campo dos vícios, que temos muita dificuldade em abandonar. Livrar-se de um simples e inanimado cigarro é um tormento para a maioria. E observem que o cigarro não é como um defeito moral que mora dentro de nós; ele está fora e bastaria não comprá-lo para não consumi-lo.

Se não conseguimos deixar de fumar ou de beber, imaginem como conseguir deixar de ser egoístas e orgulhosos, impacientes e inconformados, aflitos e inseguros, se esses vilões moram dentro da nossa mente e não conseguimos vencê-los. Nem percebemos que eles nos dominam a ponto de se alguém nos taxar de egoístas ficarmos surpresos e nos revoltamos com a pessoa. Não nos conhecemos e é isso que dificulta a nossa mudança. Em O Livro dos Espíritos temos a clássica questão 919 que nos dá segura recomendação sobre tal problema. “Conhece-te a ti mesmo”.

O mundo moderno criou doenças da civilização e deu a elas o nome de estresse e depressão. E quem não tem não imagina o que sejam e o estrago que causam. Destroem a estrutura do homem, castrando-lhe o desejo de viver, de lutar, de ser. Fica tolhido em sua vontade, só quer cama, não sente disposição para comer e é tomado por apatia que o impede de tomar banho e de ser ele mesmo. Desiste de lutar e pensa quase sempre em morrer, como solução para seus males.

O grande problema do nosso tempo é realmente o desconhecimento de nós mesmos, o que nos impede de saber o que realmente desejamos da vida. Não percebemos que num mundo de provas e expiações, onde noventa por cento dos seus sete bilhões de seres são miseráveis, a felicidade mais ampla é coisa rara. Vivemos nos iludindo sonhando com o que não podemos ter e ficamos revoltados.

Quando se aproximam as festas de fim de ano, fazemos nosso planejamento. O que vamos fazer com o 13º, no que vamos usar a restituição do imposto de renda, que presentes e para quem vamos comprar. Tudo com antecedência para não ter problemas na hora H. Das coisas materiais entendemos bem. Pena que não façamos o mesmo planejamento no que concerne às coisas morais-espirituais, as mais importantes e que podem efetivamente levar-nos à felicidade.

Neste novo ano que agora desponta, seria muito bom aprendermos a planejar dentro da nossa capacidade e condições. Vamos prometer ser melhores e esperar que Deus nos recompense por isso. Prometer brigar menos a fim de que desentendimentos desnecessários não nos infelicitem ainda mais. Prometer melhorar nossa cultura, nossos modos, educando-nos para viver em sociedade. Ser menos prepotentes e não desejar que o mundo gire em volta de nós. Saber que só o trabalho em favor do bem nos traz a verdadeira alegria.

É esse tempo o ideal para planejarmos nossa reforma íntima, tão preconizada pela doutrina espírita. E como não é possível santificar-nos numa única encarnação, que tal eleger um defeito mais grave, ou o que mais nos incomode, ou o que seja mais fácil de combater e iniciarmos nossa luta contra nós mesmos. Não adianta querer consertar todos os problemas de uma vez porque acabaremos nos perdendo no emaranhado de nossas imperfeições.

Há situações que um defeito aparentemente sem importância, especialmente se é aquele que prejudica apenas a nós mesmos, não é tomado a sério. Exemplo, a introversão, que é o fechamento do indivíduo em si mesmo, deixando-o acanhado e com dificuldade de relacionamento. Muitos dirão: – Mas isso não é grave.

Imaginemos um indivíduo introvertido. Se estiver num baile desacompanhado dificilmente encontrará um par para dançar. Se for a uma entrevista de emprego sequer olha nos olhos do entrevistador. Já de início perderá muitos pontos e o emprego facilmente lhe escapará. Não inspira confiança. O que fazer nesses casos? A resposta é buscar ajuda de um psicólogo, entrar numa escola de arte, fazer um treinamento para falar em público, participar de uma reunião de estudo com interação dos componentes. Há muitas outras sugestões, que cada um pode descobrir por si mesmo ou com o auxílio de terceiros.

Combatida a introversão e o indivíduo voltando-se para fora de si mesmo, muitas portas poderão se abrir e ele passará a viver com maior naturalidade. Do conserto dessa falha poderá redundar o conserto de muitas outras.

Desejamos a todos os leitores da RIE um feliz 2012, pleno de realizações espirituais, porque as financeiras serão uma decorrência. Quando a pessoa está bem moralmente, a parte material também se ajusta e a espiritualidade que nos assiste sempre cuida de nós física e moralmente. Para confirmação, vide questão 524 em O Livro dos Espíritos, no estudo sobre os pressentimentos.

Boa sorte!

RIE -Revista Internacional de Espiritismo – janeiro de 2012