“A roseira só dá rosas por ter raízes no chão” – Chico Xavier 

Era 31 de março de 1869. Allan Kardec preparava-se para mudar a sede da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um espaço mais amplo, quando, às 14 horas, foi vitimado pelo rompimento de um aneurisma, desencarnando inesperadamente em seu domicílio em Paris, na rua Ste. Anne, no 59.

Depois de lançar os cinco livros da Codificação e viajar para diferentes cidades e países próximos à França, decide dinamizar a divulgação do Espiritismo e, para tanto, queria instalações mais adequadas. Não sabia, no entanto, que sua tarefa na presente encarnação já estava completada. Frisemos que ele tinha grande preocupação com o que fariam da Terceira Revelação depois de sua morte, pois já havia até idealizado um Comitê Central do Espiritismo para a melhor organização da doutrina ao longo do tempo.

Homem experiente e sabedor de que tudo precisa ser cuidadosamente planejado e elaborado, deixou mais este exemplo de responsabilidade para todos nós, a par de que devemos estar atentos ao dia de hoje porque desconhecemos o que nos ocorrerá daqui a minutos. Kardec já tinha problemas de saúde e sabia que deveria controlar sua impetuosidade diante do trabalho, ainda que desejasse deixar-nos o Espiritismo cada vez mais organizado. Por isso não diminuiu o ritmo do trabalho.

Se observarmos a nossa própria vida, poderemos ter sinais claros que nos indiquem se estamos fazendo o certo, na devida dosagem, com equilíbrio diante das leis naturais ou se estamos nos desgastando além do que podemos e devemos, quando, por exemplo, nos empenhamos em ganhar dinheiro ou quando exageramos até mesmo na prática da caridade.

Como nosso principal compromisso é a nossa própria educação e salvação, não podemos ultrapassar os limites da natureza quando da execução de nossas tarefas, sejam elas de que ordem sejam. É preciso ter equilíbrio e saber que, como encarnados, estamos sujeitos às leis da matéria. Temos de descansar, alimentar-nos corretamente e mesmo divertir-nos, porque a alegria é a maior terapia contra doenças inconvenientes, entre elas a depressão e o estresse e até mesmo o câncer. É preciso combater sempre a tristeza porque ela é o maior veneno para a alma e tem na alegria o principal antídoto. Nunca despreze a oportunidade de ser alegre. A alegria tranquiliza o coração e deixa a alma feliz.

Não compre além do que pode pagar, para não culpar depois os espíritos pelos seus desarranjos mentais. Há mais auto-obsessão que obsessão espiritual, porque a imprevidência é a maior causa do sofrimento.

Ninguém imagine que estamos fazendo a apologia à preguiça ou insinuando que caridade faz mal. Apenas alertamos que tudo deve ser corretamente dosado. Se precisamos dormir oito horas e alimentar-nos diversas vezes para repor o desgaste do dia, justo também que trabalhemos na dose certa. O trabalhador, depois de doze meses, tem direito a férias. Não tem sentido vendê-las ao patrão para ter um pouco mais de dinheiro em prejuízo da saúde. Lá na frente, a vida cobra.

Certa vez, Chico Xavier queixou-se a Emmanuel de que estava doente e cansado e o mentor lhe disse: “Você está trabalhando demais”. Chico argumentou que trabalhava para o bem das pessoas. Emmanuel aduziu: “Não perguntei no que você trabalha. Disse que você está trabalhando demais”.

Na espiritualidade, a maioria dos homens é recebida como suicida, mesmo sem ter-se matado pelas vias do autocídio convencional. É que nós abreviamos o tempo programado para a vida no corpo com os excessos que nos debilitam fisicamente. Lazer com noites mal ou pouco dormidas, trabalho além do normal, vícios que debilitam o corpo e comprometem o caráter, irritabilidade, manias ou fobias que causam insônia ou enfermidades, eis algumas razões que reduzem nossos anos de vida e nos catalogam como suicidas indiretos.

Nesses casos, desembarcamos na espiritualidade “devendo” à lei da reencarnação alguns meses ou anos que nos causarão desconforto e desagradáveis resgates em vida futura. Isso não é castigo; é a lei se cumprindo para que seja quitada até o último centavo.

Nossa vida é nossa e ninguém a vive por nós. Nem cônjuges, nem amigos, nem governos. E não nos iludamos a pensar que quando desencarnamos o mundo ficará órfão de algo importante que poderá comprometer-lhe o progresso. Voltamos para a espiritualidade deixando na Terra o trabalho aí realizado, mas ele também segue conosco em forma de patrimônio espiritual. Se o trabalho foi bom e ajudamos a melhorar o mundo, colheremos bons frutos. Não esqueçamos que pessoas muito mais importantes que nós já nos deixaram e o mundo seguiu em frente. Estaremos presentes – ou não – no coração dos que ficam, dependendo de como vivemos. Jesus vive; Chico Xavier vive; Teresa de Calcutá vive. Por quê? Porque foram a materialização do amor. Só o serviço no bem dará boas notícias de nós. Se quisermos ser lembrados para sempre, amemos. E sem esquecer de amar, inclusive, a nós mesmos.

Já diz o provérbio latino: in medium virtus, que se traduz por a virtude está no meio termo. Feliz quem consegue ser dessa maneira, porque é a única forma de viver com equilíbrio para fazer jus à encarnação que, por misericórdia, foi-nos presenteada pela Lei Divina.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março de 2012