Muitos de nós espíritas fazemos muito pelo Espiritismo, mas, ironicamente, não permitimos que o Espiritismo faça muita coisa por nós!

Pode parecer um contrassenso o que acima afirmamos porque dando recebemos, segundo a Lei Maior. Pedindo obteremos, ensina o Evangelho. Todavia é preciso ver se damos como convém dar e pedimos como convém pedir.
Por mais dedicados que sejamos no trabalho, geralmente o executamos automaticamente, sem humildade e desprendimento. Por esta razão, é comum entre nós os espíritas, o que é orgulhoso, o vaidoso, o egoísta, o prepotente, o agressivo, o que tem complexo de superioridade, o rancoroso, o vingativo, o que tem rasgos de estrelismo e só faz trabalhos que o deixe em evidência, luta e tem apego pelos cargos, tudo igual à maioria dos seres comuns, não importa de que religião.
Isto não significa que não sejamos colaboradores úteis à doutrina, pois realizamos muito em favor do próximo. A oportunidade que perdemos é de não fazer por nós o mesmo que fazemos pelo semelhante. Lembro-me da saudosa poetisa goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, que adotou o pseudônimo Cora Coralina e publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade, quando disse mais ou menos o seguinte: feliz quem divulga o que sabe; é mais feliz, porém, quem aprende o que ensina. Ou como se comenta no meio espírita, “ele entrou no Espiritismo mas o Espiritismo não entrou nele”.
Agimos como o que tem facilidades financeiras e constrói obras sociais, mas que não abre mão de ter seu nome nas placas de honra no hall nobre da instituição. Troca as bênçãos eternas de Deus pela glória efêmera dos homens. Pela satisfação do ego, temos aqui na Terra a recompensa por tudo o que fizemos nada mais restando a receber.
O que devemos considerar, todavia, é que a obra tem também valor e mérito porque é preferível o que faz, mesmo por vaidade, àquele que se omite diante das dores do mundo. Mais feliz, porém, o que dá sem esperar qualquer retribuição, porque acumulará méritos no céu que lhe servirão de amparo no dia da mudança de plano. Chegará na espiritualidade enriquecido pelo bem que fez ao próximo. Isso não depende do tamanho do serviço, mas da qualidade e intenção.
É sempre ditoso o que ensina e auxilia, com alegria; mas é preciso que também saiba receber ajuda e orientação com humildade, sem ofender-se por ver-se, em certas circunstâncias, em posição de inferioridade. Na vida sempre estaremos acima de alguém e abaixo de outro alguém, seja qual for a nossa posição. Do pedinte da rua ao presidente da república. Ora servimos, ora precisamos ser servidos. Todos, sem exceção.
A maior dificuldade para ser espírita, porém, consiste em viver exatamente como recomendamos nas palestras, pela imprensa especializada, nas doutrinações ou no atendimento fraterno que existe na maioria das instituições. E a parte prática pode ser exercitada na casa espírita, na rua, na escola, no trabalho e, principalmente, no seio da família.
Este comentário está longe de ser uma censura. É antes uma “mea culpa” e um lamento por constatar que o Espiritismo, a exemplo do que acontece com Jesus, ainda não conseguiu nos reformar massiçamente. Em pleno no século XXI continuamos os mesmos espíritos atrasados da Idade Média e de outros tempos remotos. Nosso crescimento espiritual é lento e os muitos séculos decorridos nos modificaram quase nada. Hoje sabemos de reencarnação, de ação e reação, de causa e efeito, semeadura e colheita, tudo na teoria que repetimos mecanicamente sem nos dar conta do que realmente significam e que implicações têm de verdade na nossa vida presente e futura.
Nesta encarnação, aos setenta e sete anos de vida, penso que será difícil eu fazer parte de uma humanidade espiritualizada, formada dentro dos princípios ensinados pela Doutrina dos Espíritos. Tenho pouco tempo e não me parece possível que a Terra de regeneração possa se instalar nesse curto prazo. Eu mesmo não terei condições de corrigir todas as falhas para qualificar-me como seguidor de Jesus. Na presente reencarnação seguramente não conseguirei, tal é a quantidade de erros e defeitos a serem consertados. Se puder crescer um pouco, para ser agradecido a Kardec, já me darei por satisfeito. Um só defeito que eu corrija e a encarnação terá valido a pena.
No campo dos vícios, fui fumante por vinte e oito anos, dos treze aos quarenta e um. Parei em 1975, portanto há trinta e sete anos. Deste carma penso que já me livrei ainda nesta vida. Outros vícios não tive. Nem álcool, nem droga ou qualquer tipo de dependência. No campo dos defeitos, as chamados deturpações de caráter, ainda estou longe de ser exemplo. Sou, ansioso e preocupado além do normal, embora jamais tenha praticado a ingratidão, traído a confiança ou usado de desonestidade contra alguém. Sou pontual e assíduo nos compromissos assumidos. Mas como isso não passa de obrigação é pouco diante do que me falta conquistar. Fiz até agora, sem me arrepender de nada, o que o meu grau de evolução me permitiu. Mas continuo lutando.
Não sou muito diferente da maioria, infelizmente. Lembro-me quando Chico Xavier afirmou que se nós usássemos com os da casa dez por cento da cortesia que usamos com os de fora, os lares estariam salvos. Somos gentis afetados, não verdadeiros. Temos apenas o verniz da educação, por enquanto.
Como a esperança, irmã da fé, sempre nos acompanha, empenho-me para merecer, ainda que parcialmente, o rótulo de espírita. Quem já conhece a verdade tem mais possibilidade de libertar-se das amarras do mundo. Saber eu já sei; só me falta viver o que já conheço. No dia que conseguir, serei espírita. Melhor ainda, serei cristão!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio de 2012

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