Ao Espiritismo cabe instruir, não confrontar

 

De repente, não mais que de repente, aparecem os políticos e os juristas discutindo temas que não lhes dizem respeito, apesar de pensarem que sim e que podem concluir com segurança seus projetos, transformando-os em leis em favor da sociedade. Coitados! Que pretensão!

Estamos nos referindo aos assuntos ligados à vida: nascimento, aborto, eutanásia e similares. Já sabemos que sob a ótica econômica é mais barato matar que deixar nascer. Enquanto o aborto tem o custo de um procedimento vil, barato, único e insensato para destruir uma criança, o nascimento implica cuidados que o estado não está disposto nem tem competência para assumir corretamente: pré-natal, parto, testes para detectar doenças, vacinas, pediatras. Enfim, muito mais custoso que a expulsão do feto do ventre da mãe.

Deus não entra no julgamento deles. Os homens se fazem de deuses, decidindo pela sua lógica. Em caso de eclampsia, elimine-se o feto porque nascerá com defeito e risco grande de cegueira. Decidem a priori o que vai acontecer com base na ciência médica, essa mesma que está aprendendo todo dia e se modificando para curvar-se a novas evidências. Cotidianamente há novidades.

Em caso de fetos sem cérebro, decidiu-se pela legalidade – e até necessidade – do aborto, em nome da caridade em favor da mãe que não terá no seu regaço um ser que não pode manifestar inteligência nem responder aos carinhos que lhe são ofertados. É o que eles afirmam.

Onde está o cuidado que devemos ao espírito? Para os técnicos isso é subjetivo. Se a maioria acredita que corpo e alma são criados na concepção, esse espírito deve ser também um espírito sem cérebro. Eles só podem pensar assim porque não conseguem usar a lógica e o bom senso.

Deus não é sádico nem joga dado. A Lei que Ele criou para a regência do Universo abrange todos os reinos na natureza, onde tudo se encadeia, conforme ensina a questão 604 de O Livro dos Espíritos. Diz ainda que as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contato que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. “Por um esforço de inteligência poderá entrevê-los, mas somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta do preconceito do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas ideias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma.”

“O homem é, com efeito, um ser à parte, visto possuir faculdades que o distinguem de todos os outros e ter outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-Lo.” Questão 616 de o L.E. É o único que tem razão e consciência.

Esse feto com problemas mentais, degenerescências de qualquer natureza, incluindo a falta de cérebro físico, tem também a animá-lo um espírito; no geral, altamente comprometido no campo da inteligência e que agora tem de contemplar o seu corpo defeituoso sem poder manifestar-se pela linguagem dos homens. Não podemos ignorar, todavia, que esse espírito sente o carinho que lhe dedicam seus pais, deixando-o sensibilizado com as manifestações de amor.

Daí, quando vemos o movimento espírita desapontado e surpreso, quando não revoltado, com os resultados das votações nas chamadas Casas Superiores da República, de qualquer um dos três poderes, percebemos como os espíritas estão equivocados.

Não nos compete afrontar as leis que os homens, apesar de insensatos, promulgam. Nossa missão é divulgar a existência do espírito como o ser inteligente da criação, que anima todas as criaturas humanas que precisam reencarnar, tenham elas saúde ou não, defeitos ou não, cérebro ou não. Todos nós, ao reencarnarmos, atendemos à lei de causa e efeito e a lesão física nada mais é do que o defeito moral que levamos de uma encarnação para outra e agora nos compete corrigi-lo. A mãe dá amor ao seu filho anencefálico porque, para ela, ele é o seu filho querido. Fique com ela por um dia ou por um ano. Deixemos que ele nasça e desencarne no tempo de Deus, não no tempo dos homens equivocados.

A tarefa do movimento espírita será a divulgação falada, escrita, radiofonizada, televisionada, internetizada ou encenada da existência do espírito, da continuidade da vida após a morte e, principalmente, da volta do espírito à matéria tantas vezes quantas necessárias para que ele possa purificar-se. Quanto mais pessoas se conscientizarem dessas verdades, menos serão as praticantes do aborto porque terão seu filho gerado no estupro ou no ato de amor conjunto, com a mesma felicidade. E se impossível mantê-lo, deixe-o nascer e o entregue para adoção. Muitas mulheres sonham com a presença de uma criança para completar seus lares e não podem produzir por si próprias. Darão o mesmo carinho a esse filho como se fossem as geradoras da criança.

Campanhas em favor da vida para conscientizar as mulheres, seus parceiros e os “doutores” são sempre válidas, mas a revolta contra os poderes maiores será sempre perda de tempo porque eles entendem que estão com a razão e se sentem importantes, sem se dar conta da sua equivocada ignorância. Um dia, frente a frente com Deus, serão mais bem informados e, no futuro, renascerão obstetras, pajens, amas de leite, enfermeiros, para compensar o mal que fizeram a muitas criaturas, destruindo toda uma programação espiritual, frustrando o espírito que estava entusiasmado com a possibilidade de viver de novo para crescer mais um pouco. Isso se também não vierem anencéfalos!

O mundo está mudando porque o Espiritismo esclarece a humanidade a cada dia que passa, contando, ainda, com a mídia que divulga cada vez mais as verdades espirituais envolvendo a vida após a morte e as consequências resultantes de cada encarnação.

É um trabalho de formiga, lento e produtivo, mas que já cresceu bastante. Não desistamos nem nos desesperemos. O mundo feliz está chegando!

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – julho 2012