O que o ladrão rouba, a ferrugem corrói, e a traça consome, ensinou Jesus, não é nosso.

Quando pensamos possuir um bem da Terra, na verdade, não o temos. A mãe afirma: “meu filho!”. Se ele desencarna, ela não tem mais esse filho; o homem diz: “meu carro”. Mas, se o ladrão o leva, já não tem mais o “seu” carro. Temos dinheiro no banco, e o governo o confisca, ou um sequestrador exige de nós o pagamento do resgate. Onde está o nosso dinheiro? Isso inclui o corpo, ao qual temos tanto apego e enfeitamos ao exagero. Logo após o desencarne, transforma-se em cabelos e ossos, simplesmente, e volta ao laboratório da Natureza. Onde está o “meu” corpo?

São exemplos simples para constatar que os bens do mundo são de posse transitória e podem ser tirados, a qualquer momento; são bens diferentes dos espirituais, que são tesouros eternos, qualquer que seja o plano em que estejamos.

Raciocinemos. Se vendemos o nosso carro e usamos o dinheiro num gesto de benemerência, seremos proprietários desse valor; ninguém poderá mais tirá-lo de nós. Mas, enquanto formos proprietários do bem físico, corremos o risco de perdê-lo, a qualquer momento. Pensamos que assim fica fácil entender o que é realmente nosso e o que é emprestado para uso provisório, embora concordemos que o exemplo é um exagero, e poucos estão preparados para isso! Chico Xavier fez isso: trocou um Fuscão por comida para os seus pobres! (Extraído do livro “Lições de Sabedoria – Chico Xavier, nos 22 anos da Folha Espírita”, Marlene Rossi S. Nobre – FE Editora Jornalística Ltda. – pag. 241).1

Com a convicção dessa verdade, os homens começarão a investir em outro tipo de poupança. A poupança que garanta o futuro do espírito imortal que vai precisar dessas conquistas, por toda a eternidade. Infelizmente, com os apelos materiais dos mundos inferiores como o nosso, onde o corpo prevalece sobre a alma, é realmente difícil essa conscientização, a não ser quando convencidos pelas dores. Mas, aos poucos, vamos entendendo e nos arriscando a diversificar os investimentos.

Esse raciocínio permite entender que é dando que se recebe. Ou seja, quando damos, já recebemos, seja bom, seja mau.

Ante o desencarne de um ser querido, a primeira pergunta que nos vem à mente é como chegará ele à espiritualidade! Dúvida sem sentido, se conhecíamos bem o que partiu. Basta ver como viveu para saber como chegará ao mundo da verdade. Façamos uma análise sem pieguice, independente do grau de parentela do nosso querido ser, mesmo que seja nossa mãe.

A encarnação tem como finalidade o preparo do espírito para novas etapas de vida, na matéria ou fora dela. Quem foi solidário na Terra colherá os frutos, na erraticidade, e não precisamos temer pelo seu futuro. Mas, se o egoísmo prevaleceu, não há porque iludir-nos. Não estará muito bem no mundo dos espíritos. Terá contas a acertar, antes de ajustar-se à nova situação e ter outra oportunidade para renascer na Terra.

Basta entender que “a justiça divina é justa”, de verdade, para saber que não pode ser diferente. Os jeitinhos dos homens não fazem parte das Leis de Deus. Quando aprendemos sobre ação e reação, é assim que devemos entender o futuro espiritual das pessoas.

O sentimentalismo, geralmente carregado de emoção, faz-nos ver as criaturas com olhos coloridos, pondo qualidades onde não existem. E o inverso também ocorre, amiúde. Temos que medir todos com a mesma vara, como aprendemos pelo Evangelho de Jesus.

O que plantamos colhemos. A reencarnação, longe de ser um castigo, é a maior expressão da misericórdia de Deus, porque se repete tantas vezes quantas necessárias, até que consigamos passar de ano. Cabe a cada um retirar, desse tempo na matéria, as oportunidades que ela oferece. Por isso temos o dever de aproveitar o tempo. Precisamos ler mais, estudar mais, trabalhar mais e sermos mais fraternos. Temos de prestar atenção no próximo para suavizar-lhe a carga, na medida da nossa competência. O bem que fazemos a ele é o nosso salvo-conduto para viajar à espiritualidade superior.

O bem que fazemos pode ser a ajuda material ou o apoio espiritual. A palavra confortadora ou o silêncio respeitoso. Não devemos comentar sobre um defeito físico que já serve de complexo para a pessoa. Os comentários desrespeitosos criam mágoas e inimizades. Expressões como: careca, banguela, dentuço e outras leviandades podem gerar o ódio das pessoas contra nós.

A verdadeira caridade é aquela que põe um sorriso nos lábios do outro e fá-lo sentir prazer com a nossa presença. Quando somos aguardamos e alguém diz: “que bom que você veio”, estamos no caminho certo. Fazer ao outro o que gostaríamos que o outro nos fizesse, em situações idênticas, é a melhor receita para ser amado.

Diz o Espiritismo: “Fora da caridade não há salvação”. Conveniente, portanto, investir mais nessa “moeda” que circula nos diferentes mundos. Assim viveu e “vive” o médico Dr. Adolfo Bezerra de Menezes que, neste 29 de agosto, completaria 181 anos de vida e continua fazendo o bem a todos quantos pedem a sua presença neste planeta sofrido que ele escolheu para prosseguir servindo pela sua Casa dos Humildes, sediada na espiritualidade da Terra.

Podemos fechar este texto, repetindo − o que já fizemos várias vezes – uma frase que extraímos de uma crônica de Arnaldo Jabor: “Não somos um ser humano numa experiência espiritual; somos um ser espiritual numa experiência humana.” Essa afirmação resume toda a nossa natureza e a finalidade da vida na Terra. Vale a pena pensar no assunto, com seriedade! A caridade é uma poupança séria e não muda como a dos homens, ao sabor das conveniências.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – agosto de 2012