Para entender a própria vida 

Cada pessoa chega à Doutrina Espírita de uma maneira muito pessoal. A realidade, porém, é que ou chegamos porque temos problemas ou porque os teremos. Não há no mundo quem passe uma encarnação sem problema. Ele é o combustível que nos leva à evolução. Feliz o que chega antes porque prepara as costas para as necessárias chicotadas da vida. Doerão sempre muito menos porque o conhecimento da verdade serve-nos como libertação!

Entre algumas razões que nos levam ao Espiritismo, podemos considerar o vazio do entendimento sobre a vida, a doença física ou espiritual ou um ser próximo necessitado. Uma das bênçãos que Deus nos oferece, seja qual for a circunstância que nos aproxima dessa busca, é o esquecimento do passado.

Minha mulher e eu chegamos ao Espiritismo da seguinte maneira:

Tínhamos uma vizinha e nossas famílias mantinham certa convivência. Ela era espírita, mas durante anos ignoramos sua crença, porque jamais conversamos sobre religião. Mas certo dia minha mulher lhe fez a seguinte indagação:

– Por que eu me dou tão bem com você e outras pessoas e não vivo igualmente bem com meu pai, meus irmãos, minha sogra, meu cunhado?…

A amiga respondeu:

– A minha doutrina ensina que os parentes de hoje, são, geralmente, os inimigos no passado.

– Faz sentido – Disse ela. – E onde ensinam isso?

– Na Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Minha esposa pediu a ela que a conduzisse até o plantão e lá esperou sozinha pelo atendimento, porque a amiga retirou-se para deixá-la à vontade na busca de orientação.

A partir daí, começou a ouvir palestras, a tomar passes e a conversar comigo sobre as inusitadas revelações; eram novidades para uma católica praticante que estudou no colégio das freiras Doroteias da sua cidade. Para mim fez também sentido e aqui estou eu, agora sem a companheira, seguindo no trabalho doutrinário, com tarefas escritas e faladas, há mais de quarenta anos.

Quando a amiga lhe falou em inimigo do passado, a pergunta que poderia surgir é: Que passado? Jamais havíamos pensado em reencarnação. Quando se falava de vida espiritual, como as outras pessoas, dizíamos que ninguém voltou para dizer como é a vida do outro lado. Ainda hoje é assim. Queremos que os Espíritos mandem e-mails, mensagens por programas de bate-papo ou pelo Facebook, ou enviem torpedo pelo celular? Hoje sei que basta não ser cético e cultivar o bom-senso para saber que as notícias nos chegam todos os dias.

Desde a primeira edição de O Evangelho Segundo o Espiritismo temos novidades ditadas por mentores e sofredores. O livro é rico dessas informações, assinadas. Não fossem suficientes os livros de Allan Kardec, temos mais de quatrocentas obras de Chico Xavier, mais de duzentas de Divaldo Franco, além de muitos outros médiuns que merecem confiabilidade, ditadas pelos Espíritos.

O alerta permanente é que colhemos na vida espiritual todo o plantio feito na Terra. Pode ser bom ou mau. A lei de ação e reação se faz nessa hora sem que haja burla. Diz a lei de Newton que toda ação faz gerar uma reação, igual e contrária, de igual intensidade. Cada causa dá origem a um efeito. Espiritualmente não é diferente!

Como não nos lembramos do passado, contestamos essa verdade; ignoramos que tal esquecimento existe para evitar conflitos sociais. Se soubéssemos exatamente como convivemos anteriormente com o atual parente, seria um desastre. Se ofendidos, poderíamos ter desejos de vingança; se fôssemos nós o ofensor ficaríamos envergonhados.

A parentela é uma coisa tão séria e importante para resolver problemas do passado que há poetas desencarnados que até brincam com o problema. Diz Cornélio Pires em forma de trovas, estas duas verdades: Quem já venceu noutras eras / atritos e ódios mordentes / já pode nascer na Terra / com muito poucos parentes.” Ou: “Quase sempre nesta vida / sogro, sogra, genro e nora / é o amor de Deus unindo / os inimigos de outrora.”

De nada adianta argumentar que o conhecimento do passado nos ajudaria a não cometer os mesmos erros. Se hoje na Terra fumamos, sabendo como o tabaco faz mal; se bebemos, conhecendo os malefícios do álcool; se somos nervosos, sabendo como a irritação nos causa enfermidades e se somos invejosos, apesar de saber que a inveja rebaixa o homem, por que acreditamos que se lembrássemos das outras encarnações agiríamos diferente?

Constatamos que temos um passado espiritual quando analisamos as diferentes vocações das pessoas. Há o atleta e o intelectual; há o valente e o equilibrado; um gosta de matemática, outro de geografia; um aprende artes com facilidade enquanto outros por mais que estudem jamais conseguirão tal conhecimento; um nasce para ser líder, outro para ser comandado. Tudo isso é o resultado do passado espiritual que, pouco a pouco, construiu nossa atual personalidade. A única certeza é que nunca fomos melhores do que somos hoje. Estamos no apogeu do nosso desenvolvimento espiritual. Não confundir com posição social!

Para amar um inimigo do passado é preciso o véu do esquecimento. A lembrança de mútuas agressões dificultaria esse relacionamento e o fracasso, fatalmente, se repetiria.

Quem quiser ser espírita não se limite a tomar passes e água fluída. Para ser espírita de verdade é preciso dedicado estudo da doutrina. E não é tarefa para uma encarnação; não é com uma única leitura dos livros da codificação que compreenderemos o Espiritismo. A cada leitura descobrimos novas facetas dessa extraordinária mensagem. Os grandes divulgadores do Espiritismo, entre os quais destacamos o conferencista Divaldo Pereira Franco, que é estudioso de O Livro dos Espíritos há cerca de seis décadas, não abrem mão da leitura permanente das obras básicas e também de outras que trazem ensinamentos em profusão.

Não esquecemos o passado no que se refere às nossas verdadeiras conquistas. As virtudes de hoje foram aprendidas em vidas anteriores e em nós estão incorporadas; são os tesouros que o ladrão não rouba, conforme ensinou Jesus Cristo. Fica o que é útil e pode ser aplicado agora, como as vocações e a personalidade já moldada. As agressões ficam encobertas pelo véu que vai se dissipando à medida que foram sendo reparadas, até desaparecerem. Se o esquecimento fosse absoluto após a morte, de que nos serviria a reencarnação?

Analise as razões que o trouxeram ao Espiritismo. Seja qual for, estude muito, agradeça e aproveite tudo o que a Doutrina lhe oferece para mais tarde não repetir a conhecida e comprometedora frase: “Ah, se eu soubesse!”

RIE-Revista Internacional de Espiritismo-setembro de 2012