RIE dezembro 2012A melhor religião é a que melhora o homem

Esta é uma afirmativa tradicional, porque é preferível que alguém esteja ajustado na sua doutrina a que venha para a nossa e não se complete nas suas necessidades, que consistem, basicamente, no entendimento da vida e sua verdadeira razão de ser.

As religiões não foram criadas por nenhum poder superior. Elas são fragmentos de ideias e pontos de vista humanos que, com o decorrer do tempo, acabam por ser enfeixadas num tratado que lhe confere o título de doutrina. Paulo de Tarso criou a doutrina cristã. Moisés, a judia. Seguidores do profeta Maomé, o islamismo; adeptos de Buda criaram o budismo e Allan Kardec codificou o Espiritismo.

O bom-senso do Codificador Espírita, e aí está a sabedoria, fez com que ele abrisse um parêntesis para explicar que o Espiritismo não está pronto e acabado, mas que é uma doutrina que atende a um instante da humanidade, condizente com os conhecimentos de sua época. Dia virá em que ele será aperfeiçoado, porque os homens estarão em condições de entender um pouco mais. Como numa aula de matemática, quando primeiro ensinam-se as quatro operações para depois explicar sobre cálculos avançados.

Percebemos, e isso é tão antigo quanto a humanidade, que há interesses muito acima da divulgação da verdade quando alguém defende sua religião como sendo a única que detém o poder de “salvação”. Quem nos salva não são as religiões, mas cada um a si próprio. Não adianta rezar, não adianta pagar, não adianta fazer penitências, se não agir como pessoa de bem. É o homem que se salva, porque se dependesse de Deus, estaríamos todos salvos. Nada mais entristece o poder divino que contemplar a inferioridade dos humanos, desinteressados em ser melhores. A salvação do homem consiste na consciência tranquila.

A competição que existe entre as diferentes doutrinas tem mais a ver com o comércio que envolve – e sempre envolveu – as religiões. Jesus já havia criticado as oferendas do Templo de Jerusalém, sugerindo que era mais importante que antes o homem se reconciliasse com seu adversário. As oferendas eras vendidas por quem detinha o monopólio dos negócios no templo. E esse monopólio pertencia ao administrador, seus amigos e familiares. Duas ou três famílias revezaram-se por muitos anos na gerência daquela “casa de oração”.

Vinte séculos se passaram e as multinacionais da fé continuam agindo sem mudar uma vírgula da receita deixada pelos irmãos da velha Palestina. Combatem a religião do outro e tentam arrebanhar os fiéis com todo tipo de promessas. Geralmente oferecendo facilidades mediante pagamentos ou diferentes tipos de doações ou concitando-os às promessas. Tudo muito bem orquestrado como faz a grande mídia na busca da audiência.

Não ignoramos que o discurso de cada doutrina agrada a um tipo de adepto que com ela sintoniza com mais afinidade, pela sua compreensão neste momento. O Espiritismo, por exemplo, é vítima do preconceito porque é a única doutrina cristã que defende e explica as razões da reencarnação. Nem por isso deixa de ter adeptos, que são mais a cada dia, que se mantém coerente nos seus princípios. Defende o que acredita, sem intenções ocultas.

O que importa esclarecer acima de tudo é que a recomendação de Jesus, em quem se baseia o cristianismo, é que devemos amar-nos uns aos outros, sem que fossem feitas ressalvas de raça, cultura, idade ou religião. As religiões, principalmente, deveriam  unir-se para fortalecer o que é mais importante: a harmonização do mundo e a união entre os homens. Lamentavelmente elas têm sido inimigas. Quem não reza pela cartilha de cada uma é inimigo declarado. As Cruzadas, a Inquisição, as guerras entre árabes e judeus, as revoluções intestinas na Índia, dada à multiplicidade de seitas, os conflitos religiosos da Irlanda do Norte, são exemplos que ainda permanecem em nossa memória. E mesmo as guerras atuais, mais econômicas que armadas, estão presentes no dia a dia.

Lembro-me de um exemplo político quando o ex-presidente Jânio da Silva Quadros, candidato em São Paulo, foi acusado de ser advogado de porta de cadeia, onde ficava para tirar os comunistas da prisão. Disse ele, em palanque: “Tirava-os, tiro-os e tirá-los-ei, porque entendo que eles têm o direito de ser comunista, como eu tenho de não sê-lo.”

Parodiando o velho mato-grossense, aplicaríamos a mesma premissa aos religiosos: eles têm o direito de ser católicos, de ser ateus, de ser protestantes, ou o que desejarem ser, como nós temos o direito de ser espíritas. Ou, partindo o raciocínio do nosso lado, de forma inversa, como desejamos ser espíritas temos de dar a eles o direito de ter a religião que pretendam ou mesmo não ter qualquer doutrina para nortear a sua vida. Chama-se livre-arbítrio que é o bem mais precioso do ser humano: o seu direito de ser e de fazer.

Da parte da população trata-se de fanatismo, mas se considerarmos os chefes das seitas fica claro que o interesse é mais comercial que de ideologia. De toda maneira, pelo menos nós, os espíritas, vamos respeitar a religião dos outros mesmo que eles não tenham a mesma atitude em relação à nossa.

Um dia todos nós formaremos um só rebanho guiado pelo mesmo pastor; e ele não pertencerá a nenhuma igreja atualmente conhecida, porque elas já perderam o bonde da história. As religiões estão todas na UTI, tentando sobreviver com novas ideias, novos rituais e revolucionárias propagandas, respirando os estertores finais de uma fé doente que não consegue melhorar o homem para ajudá-lo a encontrar o caminho para Deus.

Mas não podemos desistir. Já diz o Espírito Meimei, em mensagem ditada a Chico Xavier, sob o nome “Confia Sempre”: “De todos os infelizes os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmos, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo”.

Neste momento, quando festejamos mais uma vez o nascimento de Jesus, recolhamo-nos  ao íntimo de nossa razão e bom-senso, para festejar um Natal que seja realmente cheio de Luz, preparando-nos, desde agora, para a iminente chegada no novo Planeta Renovado.

Os tempos já chegaram; não percamos, nós também, o chamado divino a fim de nos incluirmos entre os escolhidos.

Boas Festas e Feliz Ano Novo, aos estimados seguidores da Doutrina dos Espíritos.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – Dezembro de 2012