RIE março 2013 Palestra é palestra; estudo é estudo!

Ao examinar as atividades do movimento espírita, em qualquer local, temos muito assunto para meditação e análise.
Observemos o comportamento do frequentador de Centro, que só por essa prática se considera espírita. Chega ao auditório, senta-se passivamente e ouve o palestrante que divulga os princípios espíritas . Ao final, satisfeito pelo que ouviu e pela energia do ambiente, volta para a casa com a sensação de dever cumprido. Isso, se não é dos que dormem, alisam o cabelo o tempo todo ou dos que se concentram nos celulares, tablets e similares, durante a palestra, o que já testemunhamos.
Mal comparando, é como a visita que fazemos à Igreja para assistir à missa. Ouvimos o padre, jovem, carismático, bom orador, cantor e bem humorado, que explana o Evangelho com muita beleza; ou a participação no culto de qualquer doutrina, para ouvir os mestres da instituição, conhecedores profundos da Bíblia, que nos explicam conforme a visão deles. Ouvimos calados e voltamos para a casa.
Valeu à pena? Claro! Cada momento de vida vale à pena, seja para aprender o que fazer ou o não fazer. Por que não valeria à pena um encontro religioso quando ouvimos orientações sobre moral, caridade e outras ações que demonstrem amor ao próximo?
Só que é pouco. Pouquíssimo, para quem conseguiu a duras penas uma nova oportunidade de renascimento na Terra, especialmente numa época em que isso é privilégio cada vez mais difícil de conseguir. A sociedade, ao limitar a natalidade dificulta a volta dos Espíritos à carne e quem conseguiu deveria aproveitar um pouco mais.
No dia da conferência semanal, quando também recebemos o passe, notamos que a casa se enche. Mas no dia de estudo, encontraremos público bastante diminuído em relação ao da palestra pública. Se o estudo – que às vezes não é, apesar de ter o nome – é ministrado por um orientador, quando só ele fala, o público ainda é um pouco maior. Fora isso, a reunião geralmente é esvaziada.
O número pequeno de pessoas, porém, não deve nos causar preocupação nem servir de desânimo. Lembremos que o primeiro local criado por Kardec para estudo regular do Espiritismo, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1o de abril de 1858, era uma sala com pouco mais de vinte metros quadrados para dez a quinze pessoas. O Codificador era adepto de reuniões com pouca gente porque, dizia, são mais produtivas. Em suas visitas afirmava que eram preferíveis dez centros com dez pessoas cada a um centro com cem. Este geralmente fica impessoal e dificulta a harmonia entre os participantes.
Nas reuniões com poucas pessoas, há mais oportunidade para perguntas e esclarecimentos de dúvidas, com oportunidade de interação. Sempre respeitando o tema que está em discussão, é importante que perguntemos e falemos de nossas experiências. Além de sermos orientados, a lição serve, também, para os demais. Diferente das grandes reuniões ou palestras quando apenas ouvimos e saímos cheios de dúvidas, sem poder discuti-las. E Espiritismo se aprende estudando. Não basta saber; é preciso, sobretudo, compreender. E só com estudo perseverante podemos consegui-lo.
“Anos são precisos para formar-se um médico medíocre e três quartas partes da vida para chegar-se a ser um cientista. Como pretender-se em algumas horas adquirir a Ciência do Infinito?”, comenta Kardec na introdução de O Livro dos Espíritos – item XIII, e completa: “(…) o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado”. (Introdução de O Livro dos Espíritos – item VIII) “Nunca (…) dissemos que esta ciência fosse fácil, nem que se pudesse aprendê-la brincando, o que, aliás, não é possível, qualquer que seja a ciência. Jamais teremos repetido bastante que ela demanda estudo assíduo e por vezes muito prolongado” Acrescentaríamos nós, por várias encarnações!
É preciso aproveitar este precioso e curto tempo na Terra, já que descobrimos o Espiritismo para a nossa vida. Felizes os que recebem o Evangelho de Jesus com a assessoria dos Espíritos Superiores. Sem fantasias, sem subterfúgios, sem mistérios. Tudo com clareza. E não reclamemos que nos faltam informações. Além da codificação organizada por Kardec, temos mais de quatrocentos livros psicografados por Chico Xavier, mais de duas centenas e meia pela mediunidade de Divaldo Pereira Franco, cerca de cento e trinta do saudoso e lúcido Roque Jacintho, além de vastíssima biblioteca de muitos outros renomados autores, brasileiros e estrangeiros.
Podemos assinar jornais e revistas sérios que trazem artigos revisados pelos editores e que servem de suporte para o estudo do Espiritismo. Pelo preço de um almoço de domingo, fazemos uma assinatura anual de uma revista. Além disso, há uma infinidade de blogs espíritas que podem ser acompanhados pela internet e que disponibilizam, gratuitamente, livros para leitura “on line” ou download, para os que preferem imprimir e ler no papel.
Não podemos mais perder tempo porque os dias estão com pressa. Muitos espíritos estão hoje na erraticidade sonhando com uma nova vida na Terra para avanço no conhecimento e aprimoramento moral. E têm de esperar porque a fila é grande e as oportunidades são poucas. Pior do que acontece nos vestibulares para as universidades.
Não é preciso abandonar a vida, nem privar-se dos prazeres do mundo, que são também dádivas divinas. Mas ninguém se comporte como se fora viver para sempre porque, inesperadamente, podemos receber o convite para regressar. E voltar de mãos vazias é o pior que pode nos acontecer. Troquemos com mais frequência a tela da TV pela leitura. Substituamos a balada que nos enche de vícios por um lazer edificante, instrutivo, esclarecedor, que ao final deixe algo que valha mesmo à pena. Que sirva de bagagem para a alma na hora da grande e inevitável viagem de retorno ao mundo da verdade.
Um comentário final: Leiam cuidadosa e atentamente a Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita em O Livro dos Espíritos para conhecer melhor o Codificador. Ele voltou à espiritualidade em 31 de março de 1869, aos quase sessenta e cinco anos de idade, mas deixou-nos material de estudo para muitas encarnações.
Quem não estiver interessado, depois não se queixe. “A cada um, segundo as suas obras”, ensinou Jesus, conforme registra o apóstolo Mateus.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2013