RIE abril 2013No dia 18 deste mês, em 1857, surgia O Livro dos Espíritos, certidão de nascimento do Espiritismo.

Quando escrevemos o livro “Modo de Ver”, da Casa Editora O Clarim, incluímos como primeira matéria o texto “Chico Xavier e seu verdadeiro valor”. Desejávamos na oportunidade, julho de 1998, enfatizar que se o Chico era grande pela sua extraordinária mediunidade, era ainda maior pela dignidade. Se a mediunidade não depende do indivíduo, a dignidade sim, porque resulta de um processo de autoeducação que exige muito esforço da pessoa para incorporá-la ao seu caráter.

O que mais se destacava no missionário de Uberaba era a coerência como vivia em relação ao que sabia e divulgava. Serenidade, disciplina, desprendimento, solidariedade, indulgência, respeito por todos, eis algumas das inúmeras características do nosso venerando amigo que acabou cognominado “Um homem chamado Amor”. Chega a ser unanimidade entre as diferentes religiões. Algo raro.

Anotamos no título desta matéria a pontualidade associada à disciplina, porque é a forma mais simples de autocontrole e respeito ao próximo. Aprendemos com a natureza todos os dias. A noite e o dia, as marés, a produção das plantas, as sete luas da gestação, as estações do ano, e por aí vai. Tudo em equilíbrio para gerar harmonia.  Se nos atrasamos num compromisso, automaticamente geramos atrasos nos compromissos seguintes, nossos e dos outros, com prejuízo para todos.

Quando participamos de eventos do movimento espírita, observamos com tristeza que isso não é levado em conta. Quase nunca os trabalhos começam conforme estabelecido na programação, o que depõe contra tudo o que divulgamos. Respeito ao horário é também uma forma de amor ao próximo. A falha começa já no público que nunca é pontual.  Tal como a noiva no casamento. Dizem que é charme, mas é falta de educação mesmo.

Há pouco tempo, comparecemos a um importante congresso espírita no qual, devido aos atrasos, houve consequências negativas na apresentação. O tempo destinado a perguntas, no final da discussão de um dos blocos, não foi disponibilizado ao público, de modo que uma parte deste deixou de ser atendida, mesmo tratando-se de evento pago.  É um mau exemplo dado pelos adeptos da própria doutrina, que pregam de um jeito e agem de outro.

O problema é que essa atitude não mais choca; o mau hábito já se arraigou às tradições brasileiras, o que nos torna alvos de comentários negativos nos países adiantados, onde o relógio ainda tem utilidade.

A razão destes comentários, entretanto, é mostrar algo de positivo que observamos no evento em questão. Referimo-nos à participação do confrade Divaldo Pereira Franco, que proferiu conferência de hora e meia numa noite e ministrou um seminário, antecedido de manhã de autógrafos, num total de quatro horas no dia seguinte. Tudo com absoluta pontualidade.

Programou sua aula para o horário de 8h30 às 12h, prometendo iniciar a manhã de autógrafos às 8 horas. Exatamente conforme marcado, às 8 horas Divaldo tomou assento à mesa, formou-se a fila e ele começou a assinar os livros. Às 8h30, segundo a programação, interrompeu a atividade, para começar a parte principal da reunião matinal: a explanação doutrinária.

Seguindo rigorosamente o cronograma, quando o relógio marcou exatamente 10 horas, nova pausa de 30 minutos para continuar a manhã de autógrafos. Rápido lanche de dez minutos e retomada dos trabalhos às 10h40, pontualmente, levando a explanação até 12 horas quando proferiu a conhecida Prece da Gratidão, com a qual encerra suas apresentações.

Chamou-nos a atenção esse britanismo do médium baiano e então compreendemos como ele consegue, aos oitenta e cinco anos de idade, manter-se em equilíbrio e com a capacidade de trabalho absolutamente invejável; dele transbordam vitalidade e disposição.

Durante a palestra, falou das cerca de quatro horas de psicografia que tem diariamente, do tempo que destina à leitura de revistas e livros, destacando os da Codificação – como “O Livro dos Médiuns” – no qual, segundo ele, geralmente encontra detalhes que lhe haviam passado despercebidos em leituras anteriores. Terminada a reunião, deveria voar para Salvador por volta das duas da tarde.

Não fora ele um perfeito administrador do seu tempo e jamais teria realizado a obra que hoje lhe confere tanta importância. Seja como idealizador e construtor da Mansão do Caminho, seja como médium psicógrafo de mais de duzentos e cinquenta livros, seja como o grande conferencista espírita da atualidade, inspirador e orientador de organizações doutrinárias que se instalaram em todo o mundo, isso só para citar algumas dentre tantas outras tarefas.

A exemplo do que dissemos sobre Chico Xavier, quando enfatizamos sua dignidade como ainda maior do que a sua mediunidade, queremos que as pessoas observem em Divaldo Pereira Franco não apenas o grande divulgador da doutrina por meio de conferências, mas o cidadão do mundo que dá exemplos em cada gesto de comportamento. Pontual, gentil, imperturbável. E não creio que ele tenha menos problemas do que o comum das pessoas. O que acontece é que aquele que precisa de pouco para viver tem sempre muito, mesmo que seja pouco o que tem. Quem vive em paz consigo mesmo não se deixa perturbar pelos desequilíbrios do mundo. O ideal de Divaldo é servir, o que faz muito bem e com muito respeito por todos os locais por onde passa.

Além de ter aprendido muito da doutrina na reunião da qual participei para assistir ao trabalho do médium, sou grato porque percebi nele gestos de comportamento humano que faltam à maioria das pessoas, o que as leva a um desnecessário desajuste que acaba respingando nos que vivem à volta. Vamos analisar-nos para imitar o gesto dos bons. “Quem é fiel no pouco será fiel no muito”, está registrado no Evangelho de Lucas.

Como síntese do que dissemos, ressaltemos não haver aqui intenção de criticar falhas de organização dos eventos espíritas que, embora lamentáveis, são habituais, consequência dos maus hábitos da nossa vida diária. Quisemos, antes, destacar o exemplo de uma pessoa que já aprendeu e oferece parâmetros a quem desejar segui-la porque já tem olhos de ver.

Se já somos privilegiados por conhecer Jesus traduzido por Allan Kardec, sentimos também muito orgulho por fazer parte de uma geração que tem homens como Divaldo a nos mostrar que a humanidade ainda tem salvação. Basta que colaboremos e o mundo será melhor.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril de 2013