Argueiro é sinônimo de cisco; partícula muito pequena. Trave é um tronco de madeira grosso; uma viga. Portanto, quando Jesus perguntou “por que vês o argueiro no olho do outro e não vês a trave no teu próprio olho?”, segundo Mateus VII-3/5, criou uma metáfora exagerada, contundente, para despertar a atenção dos pretensiosos, que veem os mínimos defeitos dos outros, mas não veem os seus próprios.

Por que os homens fazem isso? Quem é o maior prejudicado com essa atitude, quando a criatura procura valorizar-se além do normal, enfatizar as falhas alheias e camuflar seus próprios defeitos? Espera enganar quem, a não ser a si mesmo?

Temos tendência a esconder nossas deficiências porque a sua exposição fere-nos o orgulho. Não queremos que os outros conheçam nossas inferioridades. O pior é que, assim agindo, estaremos enganando a nós mesmos. De tanto repetir, e isso é o pior, acabamos acreditando que somos melhores e mais competentes do que efetivamente somos. Fôramos mais modestos e sofreríamos menos.

Em O Livro dos Espíritos temos a conhecida questão 919, que pode muito bem orientar-nos na solução desta nossa falha de caráter. Indagou-se dos Veneráveis “qual o meio mais prático e mais eficiente para aperfeiçoar-se nesta vida, resistindo à tentação do mal?” Eles responderam que “um sábio da antiguidade disse: conhece-te a ti mesmo.”

Com base nessa orientação, Santo Agostinho, um dos Espíritos da Codificação, desenvolveu na questão 919 a., o  meio mais eficiente para o autoconhecimento, propondo um tipo de questionário que pode nos servir como roteiro de autoanálise.

É importante que cada pessoa se conheça para ajustar-se na vida, ocupando a exata posição que lhe compete no contexto social. Se mal temos capacidade para serviços de escriturário, nunca devemos atender a um anúncio de gerente. Sejamos primeiro o funcionário de menor graduação, aprimoremo-nos e teremos o direito de conquistar as promoções às quais fizermos jus, por méritos. Seremos alguém ajustado na função e se mudarmos de emprego levaremos a competência conquistada para o novo lugar de trabalho. Subimos degrau por degrau e não corremos o risco de despencar escada abaixo.

Quando colaboramos numa casa espírita, não tenhamos pressa em trabalhar nos altos postos. Não nos aflijamos para ser palestrante, dirigente, presidente ou ter qualquer posto que nos coloque em evidência. Todos os trabalhos são importantes e se entrosam. Numa casa sem higiene há desconforto e doenças. Portanto, também no Centro Espírita o trabalho da faxineira é fundamental. Tanto quanto qualquer outro.

Temos o direito e, mais que isso, o dever de progredir, porque a finalidade da encarnação é a evolução. Mas conhecer-nos é o primeiro e mais importante passo para o progresso sensato e seguro. Já disse o espanhol Miguel de Cervantes: “senta-te no teu lugar e não te farão levantar.”  Disse ainda o escritor castelhano: “quem não sabe governar a si próprio não sabe governar os outros.”

Jornal O Clarim – Matão – maio de 2013