Rie_Junho_2013

O ideal seria um idioma no qual cada palavra tivesse um significado único e particular. A afirmação não é nossa, mas do Espiritismo.

É comum encontrarmos em O Livro dos Espíritos comentários dos Veneráveis sobre a linguagem dos homens, dizendo que isso pouco os preocupa. O importante é nos entendermos, o que muitas vezes não acontece.

Como exemplo, tomemos a pergunta 28: “Já que o próprio espírito consiste de alguma coisa, não seria mais exato, e menos controverso, designar esses dois elementos gerais pelos termos matéria inerte e matéria inteligente?” Ao que eles responderam: “As palavras pouco nos importam. Cabe a vós formular a linguagem de maneira a vos entenderdes. Vossas controvérsias advêm quase sempre do fato de não vos entenderdes quanto às palavras, porque a vossa linguagem é incompleta para exprimir o que não vos toca os sentidos.”

Isso se repete diversas vezes, quando eles respondem os questionamentos dizendo simplesmente: “pobreza de linguagem” ou “definição incompleta”. Caso da questão no 3.

Independente da falta de clareza pelas limitações das palavras para exprimir as ideias, também há de considerarmos a invigilância e leviandade das pessoas que não sabem guardar as palavras dentro da boca e deixá-las sair só depois de correta avaliação do que pretendem dizer. Falam sem pensar em vez de pensar no que vão dizer. Por isso repetimos sempre que a primeira qualidade de um bom médium é saber ficar calado.

Vamos exemplificar:

Recentemente pessoa de nosso relacionamento viu-se acometida de uma enfermidade grave que demandava cirurgia urgente de intestino. Embora comprovado por exames especializados, antes da operação, decidiram consultar um médium que se propôs a operá-la. Ao final do procedimento espiritual, ele disse ao operado e seus familiares que os médicos teriam grande surpresa ao abrir o paciente.

Como não podia deixar de ser, a declaração gerou uma expectativa nas pessoas, que foram para o hospital mais confiantes do que o normal. Os familiares repetiram a frase ao médico, que pouca importância deu ao comentário. Quando o profissional chegou à enfermidade, durante o ato cirúrgico, teve realmente uma surpresa: o problema era muito mais grave do que os exames haviam demonstrado. Desnecessário dizer que a frustração foi total, criando, além da dor, grande desânimo diante do ocorrido.

Qual deveria ser o comportamento do médium? De equilíbrio, evidentemente. Se não pudesse ficar sem comentar algo, poderia dizer às pessoas que fizera tudo o que foi permitido por Deus e que os médicos seriam ajudados no seu trabalho. Mas ele, vaidosamente, tentou adivinhar uma cura que não se efetivara e que ele não podia garantir. Perdeu-se pela boca e, quero crer, já não mais merece credibilidade por parte dos envolvidos, que não o recomendarão aos de seu relacionamento. Gerou uma desnecessária expectativa que provocou um efeito contrário. Um médium espírita não pode ter tal comportamento. Não pode prometer cura nem informar que o mal é incurável. Faça a sua parte e pronto. Isso também é caridade.

Dissemos que a comunicação é uma faca de dois gumes, exatamente por isso. As palavras que elogiam são as mesmas que criticam. As expressões que animam podem gerar desestímulo, quando distorcidas. Os mesmos vocábulos que compõem uma frase de amor podem formar uma mensagem de ódio. É preciso cuidado no uso das palavras. E se as palavras carregarem ofensas ou leviandades, melhor deixá-las na boca. Quando não podemos falar bem de uma pessoa, melhor ficar calado. Depois que escapam, fazem estrago e não mais podem ser recolhidas. Diz antigo provérbio: “Você é o dono da palavra contida e o escravo da palavra proferida.”

Quando analisamos a vida do maior médium brasileiro de todos os tempos, Francisco Cândido Xavier, constatamos que ele nunca fez previsões de fim de ano, como os tarólogos, os jogadores de búzios, os adivinhadores, porque ele sabia que só Deus conhece o futuro das coisas e das pessoas. Sempre deixou mensagens de esperança, sem falsas promessas, e conselhos de cunho moral para o aprimoramento da criatura. Cada um tem sua história e suas necessidades, que se alteram todos os dias em razão do comportamento diante da vida. Tudo é mutável. O destino é construído no dia a dia.

Aprendamos a usar as palavras para distribuir doçura, otimismo, esperança. E quando vemos ou percebemos algo de mal ou de grave numa pessoa, transmitamos alento, advertência, conselho, mas nunca façamos qualquer tipo de terrorismo. Não ajuda, além de atrapalhar. Temos o mau hábito de pôr sempre mais lenha na fogueira ou de apagar incêndio com gasolina, cada vez que sabemos de uma notícia ruim, ou quando alguém ferido por um acontecimento nos pede conselho. Jamais aconselhamos a quietude do amor, mas o estardalhaço do olho por olho. Geralmente fazemos a apologia à vingança.

Quem usa qualquer dos sentidos para destruir, registra em si próprio os resgates que deverão ser corrigidos um dia. Se não quisermos nascer surdos ou mudos, cuidemos das nossas palavras para que sejam sempre úteis à nossa comunicação, seja falada ou escrita!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2013