RIE agosto 2013
Vamos criar o Partido da Solidariedade Cristã.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com
 

De vez em quando, surgem receitas para mudar a sociedade e melhorar o relacionamento entre as pessoas. Muitas são tentativas válidas, mas não têm futuro.

Certa época, em nome da caridade e do respeito humano, criaram-se leis para eliminar a escravidão no Brasil. A do Ventre Livre, a dos Sexagenários e, finalmente, a da Princesa Isabel que libertou o negro cativo. O que aconteceu após a Lei Áurea? Tiraram o escravo da senzala, onde o prendiam pela sobrevivência, e o mandaram para a rua com a responsabilidade de sustentar-se, sem ter como, e obrigando-o a pagar tributos.

Viu-se abandonado, sem trabalho e vítima de preconceitos, que perduram até os dias de hoje; como ocorre com os presidiários. Após cumprir a pena, preferem viver na ilegalidade e voltar para a cela, por impossibilidade de sobreviver na sociedade. Sete entre dez voltam a delinquir. Se em vez da ociosidade, quando toma sol, diverte-se e enferruja a mente, o presidiário estudasse e trabalhasse, ao sair, poderia ser um cidadão e não um reincidente.

O mesmo se deu com o comunismo, criticado porque tirava a iniciativa do homem, já que o mínimo necessário o satisfazia. O regime desapareceu, mas, na prática, segue igual. Ou seja, dez por cento da população do mundo detêm noventa por cento de toda a riqueza e os dez por cento restantes da riqueza são repartidos entre os demais noventa por cento da população do globo, numa comparação otimista. Na prática, a diferença pode ser ainda mais alarmante. No Brasil, por exemplo, as estatísticas mostram que só um por cento, aproximadamente, tem salário de dez mil reais ou mais; há muita gente sobrevivendo com trezentos reais por mês. É uma média que tende a modificar-se nas regiões mais pobres, como o nordeste brasileiro, onde o caos é ainda maior. Já vimos reportagens com professoras do sertão ganhando dez reais POR MÊS em sala de aula instalada em baixo de uma árvore!

Depois deste introito, perguntamo-nos de que adiantam as políticas de distribuição de renda mediante bolsas, vales, cotas etc. se a miséria continua igual, física e moral. Uma grande farsa dos que desejam perpetuar-se no poder. Sem um despertar coletivo com alguma renúncia da parte dos privilegiados em favor dos desprezados, nada vai mudar. Já disse o presidente Kennedy: Se uma sociedade livre não pode ajudar seus muitos pobres, também não poderá salvar seus poucos ricos”. Um retrato profético do mundo atual. Os ricos estão com medo!

O mesmo presidente americano disse: Não é dando esmolas que vamos acabar com os pobres, mas agindo de tal modo que deixem de ser tão pobres, e desfrutem de uma vida digna”; “Que o supérfluo dos ricos sirva para o necessário dos pobres”; “Dar o supérfluo agora para não dar o essencial depois”. Uma realidade dos dias atuais; e se não damos, eles tiram.

O progresso de todos só pode ser conseguido com o progresso individual. Se as partes forem podres o todo não será saudável. Não defendemos que todos devam ser ricos ou patrões porque nem todos têm a mesma inteligência e força de vontade. Impossível, porque cada um está no seu momento espiritual e as dificuldades também são importantes para o crescimento. Falamos com base no lema francês de liberdade, igualdade e fraternidade. Igualdade de oportunidades e respeito, pelo menos.

Os governos não governam para o povo; não ajudam os empresários a produzir frentes de trabalho. Ajudar os empresários não é apadrinhá-los com financiamentos indiscriminados, mas estabelecer regras sérias de convívio, sem criar sempre novos tributos ou mudar normas a cada momento, desorientando a maioria. Tentam resolver as crises que eles mesmos produzem criando soluções para os seus problemas, sem se importar com os entraves que tais atos acarretam para a sociedade que produz e que alimenta a economia dos países. Gastam indiscriminadamente e mandam a conta para o povo pagar. Os governos não fazem a sua parte. Falamos em distribuir riqueza pela via do trabalho. Há muitos anos já disse o cancioneiro: “Este nosso planeta tem de tudo, só não vejo quem faça a divisão”. Vide as regras da aposentadoria e, mais recentemente, da poupança, a economia do pobre.

De vez em quando, fingem que vão punir os desonestos. Passam meses diante das câmaras de TV lendo relatórios quilométricos, tentando provar o que está mais do que provado: estão lidando com delinquentes de todas as camadas, de dentro e de fora dos governos. Mas eles querem mais provas. O certo é que os políticos entram para os governos proletários e saem proprietários. Entram operários e saem milionários. Quando saem, porque geralmente cristalizam-se no poder!

O Espiritismo ensina que a solidariedade é a única saída. Deus dividiu as riquezas do mundo colocando um pouco em cada nação para que os povos negociem e estabeleçam trocas. Pôs o petróleo no Oriente Médio, mas falta-lhes a água potável. E assim fez com cada país.

Enquanto um filho de Deus continuar chorando toda a humanidade, viverá em pranto. Não falamos das lágrimas, mas de choro espiritual, porque não podemos ser felizes, por mais farto que seja nosso prato, se estamos diante de uma criança faminta ou de um velho indigente. Nossa consciência nos acusa; quando não é pela má ação é pela omissão. Aquele que pode e não faz o bem também peca. Não basta não fazer o mal, porque isso é um dever. O que conta por nós realmente é o bem que fazemos sem intenções ocultas. Como está na questão 893 de O Livro dos Espíritos, a virtude existe quando se pratica a caridade desinteressada.

O partido político que terá êxito não é o da democracia nem o do totalitarismo. O que vai solucionar os problemas do mundo é a solidariedade. Há que haver os que aceitem ter um pouco menos para dar algo a quem nada tem. Não há mágica. Só resta encontrar quem queira dar o primeiro passo; quem seja um pacificador de verdade e não fique esperando que a paz seja construída para depois desfrutá-la. Já diz o cancioneiro Nando Cordel: “a paz do mundo começa em mim”.

Enquanto o ser humano deste planeta de provas e expiações continuar egoísta e prepotente, será difícil que a paz reine na Terra. Só quando o patrão deixar de tratar o empregado como um ser inferior, porque pertence a uma classe social diferente, é que o mundo ficará em paz. Nossa esperança é que as dores nos eduquem e nos convençam a mudar para que haja um bem-estar coletivo, com a vitória da solidariedade; ampla, geral e irrestrita. Quem ainda tiver dúvidas, leia O Livro dos Espíritos que foi lançado por Allan Kardec em 18 de abril de 1857. Ali estão todas as receitas que precisamos.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Agosto de 2013