RIE_Setembro_2013                                                                               Sentir alegria é estar de bem com a vida.

Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com 

Há uma falsa ideia de que os religiosos, mais particularmente os espíritas, devem ser fechados, introvertidos, e estão proibidos de sorrir e de sentir alegria. Parece que isso ofende o próximo e agride a miséria do mundo, como se estivéssemos impedidos de ser felizes em função das desigualdades humanas.

 Mas nem tudo é culpa nossa! Nem é essa a orientação ensinada pelos espíritos. Pelo contrário: dizem eles que devemos festejar a vida como forma de agradecer por mais uma encarnação a nós concedida e que nos permitirá avançar um pouco mais no sentido do apogeu espiritual.

Afinal, a reencarnação é a misericórdia do Pai que sabe que seus filhos são todos feitos à Sua imagem e semelhança.

Quando analisamos a vida dos grandes médiuns, notamos que, embora eles mantenham esta qualificação nas vinte e quatro horas do dia, nem por isso estarão o dia todo em trabalho mediúnico ostensivo, de tarefa explícita. Também dormem, comem, passeiam, divertem-se porque tudo isso os reabastece para que façam seu trabalho com alegria.

Quando imaginamos a figura do excelso Chico Xavier no seu intercâmbio com o plano invisível, atendendo e socorrendo mães e aflitos de toda ordem, ou quando o víamos à sombra do abacateiro distribuindo alimentos aos pobres da sua cidade, não imaginamos a figura alegre que era o grande missionário do Espiritismo.

Poucas vezes estivemos com ele, frente a frente, na intimidade, porque éramos dos que o poupavam, deixando-o para os que tivessem mais necessidade de falar-lhe. Mas nessas poucas oportunidades, constatamos a alegria do irmão, já idoso, doente e alquebrado, quando em colóquio com os mais chegados, comentando e rindo sobre fatos do cotidiano.

Nosso velho e saudoso amigo Miguel Pereira, do Grupo Espírita Os Mensageiros, editava mensalmente os folhetos distribuídos nos Centros, sob a orientação do Chico. Eram nove mensagens de cunho moral e uma doutrinária, geralmente extraída da codificação. O primeiro a receber o pacote era o Chico. Ao levar o material para Uberaba, Miguel não podia se esquecer de pôr o violão no carro, porque depois do trabalho mediúnico, Chico pedia-lhe para tocar e cantar. E Miguel, que era um seresteiro nato, tendo mesmo vivido da música por um tempo, cantava os velhos sucessos dos mais famosos menestréis, para deleite do médium, que cantava junto e ria feliz com a festa.

Era como se ele recarregasse as baterias com doses de felicidade para continuar por mais um pouco. Deste modo, apesar de toda a idade, reerguiase aqui e ali do desgaste provocado pelo trabalho, e quando parecia que não mais sairia do leito, lá surgia ele renovado para prosseguir na luta. E assim, doente por toda a encarnação, chegou aos 92 anos de idade, produzindo até o dia final, o sempre lembrado 30 de junho de 2002.

Quando estamos alegres é porque em nossa alma tudo está bem, mesmo que, segundo os valores do mundo, ainda nos falte algo. Sentimos paz, consciência tranquila, disposição física, esperança, somos pacientes, pacíficos e dispostos a servir, num gesto de gratidão pelo que recebemos da vida. Não somos impacientes, nem inseguros, nem precipitados. Seguimos o tempo de Deus e não o nosso. É aquela hora em que vivemos na prática o Pai Nosso, ao dizermos “seja feita a Vossa vontade”.

Quando, em vez de ficarmos preocupados apenas com o que nos falta, decidirmos agradecer pelo que já temos, facilitamos a conquista da nossa felicidade. Em vez de nos desgastarmos pela troca do carro atual por um mais moderno, lembremos os que andam de metrô, de ônibus, de trem, de barco, no lombo de um burro ou a pé. Em vez de reclamarmos do emprego que temos e do salário que recebemos, observemos os que pedem esmola por falta de trabalho e os que sobrevivem do alimento recolhido nas latas de lixo. Não é masoquismo nem autoflagelo, antes um recurso comparativo para ver como ainda temos mais a agradecer do que a lamentar.

Aceitemos nosso corpo, nosso rosto, nossas deficiências ou limitações, sabendo que elas atendem aos imperativos desta encarnação, para reparo das falhas do passado. Quando sofremos do fígado, do pulmão, dos brônquios, do coração, compreendamos que são deficiências gravadas no perispírito em vidas passadas e que agora servem de freio e alerta para não cometermos os mesmo enganos. A doença, portanto, em lugar de parecer um castigo, é uma aliada preservando a nossa saúde. Ela limita nossa ação para não repetirmos os mesmos excessos. Difícil compreender isso? Para quem tem fé, não. Tudo o que Deus faz é bom. Pode doer, mas é necessário e é para o nosso bem.

Nunca deixemos que nada nem ninguém tire a nossa alegria. Não entreguemos o bem mais precioso que temos – A NOSSA VIDA – ao primeiro que passa, seja ele o governo, o patrão, o cônjuge, o filho, o amigo, o guru ou o desafeto. Somos uma individualidade com duração eterna. E olhem que eterno é bastante tempo! Logo, não tenhamos pressa desmedida, atropelando o ritmo natural que constrói cada coisa no devido tempo. Quando estamos em equilíbrio, raciocinamos melhor. Tudo passa a ter mais sentido e dificilmente nos arrependemos do que fazemos, pensamos ou dizemos. Vale a pena treinar porque o lucro é de quem consegue.

Não há que sorrir exagerada ou debochadamente, como os portadores da idiotia; não há que alegrar-se com irracionalidade, não há que gargalhar com conversas chulas. Mas nunca percamos a oportunidade de rir, com a boca, com os olhos e com a alma, para nos sentirmos felizes.

Eis aí um elixir da longa vida. Um segredo para poucos: só para os que têm FÉ!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro de 2013
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