RIE_Outubro_2013

Ninguém imagine que falo de reforma do Espiritismo.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 

Há quem defenda a modernização da nossa doutrina porque O Livro dos Espíritos estaria superado e precisa de atualização com base na moderna ciência e nas transformações sociais. O próprio Kardec já disse mais ou menos isso, quando defendeu que o Espiritismo é uma doutrina evolutiva e, portanto, não está pronta e acabada.

O que entendo, porém, é que ainda estamos no jardim da infância nesse assunto e a quase unanimidade dos espíritas ainda desconhece as orientações mais elementares da doutrina. E os poucos que já leram ou estudaram algo, ainda têm pouco conhecimento da mensagem dos Espíritos, porque ela está acima do nosso entendimento. Decoramos o que diz a letra, mas não entendemos o que nos fala a alma da letra; a mensagem espiritual. Se não fosse isso, teríamos comportamento diferente.

Apesar de não ser dos mais antigos, já conto quatro décadas de estudo e divulgação doutrinários e comparo o que me ensinaram lá por 1970 com o que hoje se divulga. Melhorou muito. Quando comecei na doutrina, informaram-me que reencarnávamos para sofrer e não adiantava reclamar. Com o passar do tempo, compreendi que a reencarnação é um presente de Deus e que voltamos para aprender e crescer, e não para o sofrimento. Sofrer ou não é opção e depende do entendimento e da fé de cada um.

Ensinaram-me também sobre o carma, palavra sânscrita que nas filosofias da Índia significa “o conjunto das ações dos homens e suas consequências”. Só que nunca me disseram que eu poderia ter um carma bom. Se ele é consequência do que faço – ação e reação –, posso criar carmas favoráveis. E diziam mais: se você tem problemas no lar tem de aguentar até o fim da vida. Não adianta desfazer o casamento porque terá de voltar com o parceiro quantas vezes for necessário. E se você maltratou sua mulher, a situação se inverterá e você é quem será agredido por ela. Eu ouvia e acreditava, afinal, era recém-chegado ao Espiritismo. Hoje, sei que há muitas formas de se resgatar erros e que os agentes podem ser outros – e não as próprias vítimas da nossa ação, quando elas não são vingativas.

Já compreendo que não existe o fim da vida e que estou na vida eterna desde o dia em que Deus me criou, simples e sem qualquer conhecimento. Esse foi o primeiro dia do resto da minha vida, que jamais terminará, porque sou imortal. Mesmo que eu queira morrer, não consigo; estou condenado a viver por toda a eternidade, porque fui criado à imagem e semelhança de Deus e gozo da mesma imortalidade que Ele. Sou fruto da Sua árvore.

Um dia me convidaram para aprender a doutrinar Espíritos. Um orientador me deu as primeiras lições e disse que era fácil; bastavam quatro itens para fazer o trabalho, conversando com a entidade: 1 – Sabe onde está? Num centro espírita, uma casa de caridade. 2 – Sabe que já morreu? 3 – Pede perdão a Deus pelos seus erros. 4 – Siga com esses irmãos e vá com Deus.

“É só isso”, explicou-me o “professor”. O fez em questão de minuto. Na semana seguinte, segunda-feira de carnaval, havia apenas dois médiuns e um único doutrinador: EU, que havia feito um estágio de uma hora na semana anterior. Felizmente, ao receber o Espírito, conversei com ele fraternalmente e tentei acalmá-lo, garantindo-lhe que estava no lugar ideal para ser ajudado; que aproveitasse a oportunidade.

Com o passar do tempo, os centros se abriram mais para o estudo e o misticismo e a fantasia aparecem cada vez menos. Atualmente, vemos universitários e doutores no movimento, estudando a Codificação e o Evangelho com objetividade e bom senso. Para confirmar, temos a existência das Associações Médico-Espíritas em todo o Brasil, além da AME Internacional. Há associações espíritas de magistrados, de militares e de muitos outros profissionais. Há reuniões de estudo e mediúnicas em muitos hospitais, empresas e universidades.

Mesmo com esse progresso, ainda é preciso estudar bastante para entender sobre a nossa existência e o que nos compete nesta longa e interminável caminhada. Uma escada de infinitos degraus, que mesmo já tendo subido muitos, estamos ainda mais perto da Terra do que do Céu. As casas espíritas devem criar mais reuniões de estudo e mesmo nas escolas de moral cristã, para crianças, é preciso brincar e cantar menos e já começar a estudar o Evangelho, a partir dos primeiros anos de vida.

Certa tarde, ao final da reunião do centro, uma menina de três anos, que ia com a mãe assistir à palestra – e geralmente dormia –, saiu-me com esta:

Mãe, a palestra do seu Octávio foi tão legal.

– Foi filha? Do que você gostou mais?

– Gostei quando ele falou que nós temos de fazer para os outros só o que nós queremos que os outros façam para nós. Achei muito legal!

Após ouvi-la com atenção e respeito, tive a certeza de que não há crianças, conforme nos explica o Espiritismo. São os mesmos Espíritos que retornam e que já trazem sua sabedoria particular. Por isso devemos estar sempre muito atentos.

As magistrais palestras ministradas por médicos, psicólogos, engenheiros ou que tais, devem ser canalizadas mais para os iniciantes ou para os que não são espíritas e querem ser convencidos por argumentos sólidos sobre a sobrevivência da alma e as consequências de suas ações. Os mais entendidos só precisam ser induzidos a melhorar o caráter e isso se consegue com o estudo e o trabalho incessantes. Conhecemos espíritas com vinte anos de frequência aos centros que apenas se comprazem em ouvir palestras. Têm a cabeça cheia de informação, mas as mãos vazias e o coração ressequido.

Como os Nicodemus do século XXI, se não entendemos ainda nem das coisas da terra, que será quando precisarmos entender das coisas do céu! O alerta do Cristo continua valendo; e temos de correr porque o tempo está acabando!

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – outubro de 2013