RIE novembro 2013

Depois de estudar o Espiritismo por tanto tempo, verifico a cada dia como é mais raro encontrarmos homens de bem, segundo as prerrogativas espirituais.

No livro O Céu e o Inferno, capítulo III, temos o depoimento do avô José Bré, que discorre sobre a honestidade segundo Deus e segundo os homens. Atende ele a uma pergunta da neta que deseja saber como ele está vivendo no mundo espiritual. E quando ele responde que expia a sua descrença e sofre por não ter aproveitado melhor o tempo na Terra, ela se surpreende e pergunta: “Como! Não viveste sempre honestamente?”

A partir daí, o Espírito faz uma longa dissertação sobre o abismo que há entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus. Explica que não basta cumprir as leis sociais e não prejudicar os outros ostensivamente, ou seja, ferindo-os, agredindo-os, denegrindo-os. Que não basta livrar-nos das punições mencionadas no código penal, porque há outros males, como a hipocrisia e a maledicência, por exemplo, que não são punidos pelas leis dos homens.

O homem de bem, que é o honesto perante Deus, deve policiar seu comportamento, seus gestos, suas palavras, pois não deve agredir o semelhante nem mesmo por insinuações. Não pode ser orgulhoso, vaidoso, leviano, maledicente, invejoso, ciumento, melindroso ou ter qualquer defeito que o nivele às pessoas descaridosas, com o próximo e consigo mesmo. Deve ser alguém que não se deixa atingir pela ofensa, porque compreende que o agressor é um doente que precisa de tratamento. E o remédio é geralmente a outra face que oferecemos com esclarecimentos baseados no Evangelho. Imitando os grandes exemplos de Jesus, Gandhi, Chico e tantos outros. Se não couberem palavras na explicação, serão oferecidos o silêncio e o perdão. Só amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é que o homem pode ser um homem de bem.

O Espiritismo, mais do que qualquer outra doutrina, nos dá receitas e exigências para que alguém seja considerado um homem de bem. Dois textos similares da codificação atestam o que afirmamos:

1. A pergunta 918 de O Livro dos Espíritos – Características do Homem de Bem; 2. O capítulo XVII, item 3o, de O Evangelho Segundo o Espiritismo – O Homem de bem.

Mostra que não somos homens de bem se não praticarmos a Lei de Justiça, de Amor e de Caridade. Se não formos homens de bem em três situações diferentes: diante do próximo, diante de Deus e diante e nós mesmos. Analisemos!

Posso me perguntar: considero-me homem de bem? Sim, evidentemente. Cumpro com os compromissos assumidos, pago pontualmente minhas contas e procuro não ser maledicente nem injusto. Mas isso é suficiente? Não; é pouco. Isso me faz honesto diante dos homens, mas não diante de Deus.

Para ser honesto diante de Deus é preciso que eu valorize a minha encarnação, esse gesto da misericórdia divina, não me irritando, não perdendo a fé, não culpando a sorte pelos meus erros e não me adoecendo sem necessidade pela ganância, pela vaidade e pela busca irrefreável dos supérfluos.

E para ser honesto diante de mim mesmo, tenho de cuidar dos meus sentimentos de modo a acrescentar virtudes e banir defeitos. Simples. Só não ficar nervoso, insatisfeito, melindrado etc. Não podemos ser ao mesmo tempo desprendidos e avarentos, pacientes e aflitos. Por que não conseguimos administrar bem tais sentimentos? Porque nos faltam atributos, obviamente. Queríamos, mas ainda não estamos no tempo de controlar-nos, porque a fé ainda está embrionária. Vivemos num mundo de provas e expiações e ele não está nessa categoria pelos seus rios, seus montes, suas matas, mas pelo conjunto das almas que habitam este planeta. Quem passa pelas provas e expiações são os Espíritos e não a geologia terrestre.

Os Espíritos afirmam que as duas maiores enfermidades do homem são o orgulho e o egoísmo, piores do que os cânceres ou a AIDS, os infartos e as ulcerações de toda natureza. Estas acabam logo após o desencarne, mas as doenças do caráter nos acompanham pela eternidade e sua cura só é conseguida mediante a reforma interior enquanto estamos sendo testados diante da vida. Não são detectadas por ultrassonografias, ressonâncias, raios X, tomografias ou hemogramas. A aparelhagem usada por Deus ainda não é do conhecimento dos homens. Ou começamos a curá-las desde já ou continuaremos almas imperfeitas saindo da encarnação sem nenhum acréscimo espiritual. O momento é aqui e agora. A separação de joio e trigo já está bem adiantada.

Ser homem de bem, por enquanto, só é possível no aspecto social. Se é patrão, ser generoso; se é empregado, ser dedicado. Se é pai, ser responsável; se é filho, ser agradecido. Se é rico, ser caridoso; se é pobre, ser resignado e humilde. O homem de bem deste instante da humanidade sobressai nas pequenas coisas, nos gestos de gentileza e educação, quando tem a boca cerrada aos comentários maldosos, quando não é juiz apressado do comportamento alheio. Desculpa porque sabe que também necessita do perdão, já que erra ainda num volume comprometedor. O homem de bem, citado nos textos mencionados anteriormente, tem ainda uma longa estrada a percorrer e ela envolve inúmeras encarnações purificadoras. Mas isso não deve ser motivo de desânimo. Se já sabemos sobre o roteiro da evolução e temos os recursos oferecidos pelo Espiritismo, com absoluta clareza, sabemos que já caminhamos muito, apesar de ainda faltar grande parte do caminho.

Sigamos a proposta de Santo Agostinho, na questão 919 de O Livro dos Espíritos, na qual nos orienta sobre o autoconhecimento. Podemos traçar um roteiro seguro de autoanálise que repetiremos com certa frequência, a fim de irmos a cada tempo nos modificando e substituindo os defeitos mais comuns pelas virtudes que os neutralizam. Um por vez, aos poucos. Começando pelos mais fáceis ou pelos que mais nos comprometem. Parte se consegue no contato com o semelhante, parte no nosso colóquio com Deus e grande parcela na tentativa de domar a fera que mora no nosso coração e que está sempre pronta a atacar. Um pouco por dia, por mês ou por ano. Desde que comecemos logo, porque o tempo está acabando e o trem para o exílio já está nos trilhos e com as caldeiras acesas, esperando apenas pelos passageiros invigilantes. Podemos mudar o sentido da nossa vida e candidatar-nos a ficar na Terra no seu período de promoção a Mundo de Regeneração. Não é difícil, mas demanda algum esforço. Mas no fim, valerá muito a pena! Boa sorte para todos nós!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Novembro de 2013