A morte e o desencarne

Octávio Caumo Serrano

Conversávamos com um amigo espírita e lhe dizíamos que nosso irmão consanguíneo havia morrido em 1999. Ele prontamente nos corrigiu, com a pergunta: – morreu ou desencarnou? Respondemos que ele primeiro morreu sem o que não poderia desencarnar.

Usando-se expressão de outras doutrinas, a morte é um desenlace. Isto significa que a alma se desliga do corpo, quando chega a hora final.

A fim de diferenciar do conceito comum de morte, o Espiritismo adotou o verbo desencarnar em substituição ao verbo morrer. A ideia é enfatizar que a morte espírita é diferente, porque não significa o fim de uma individualidade que viveu por um tempo na Terra, mas apenas o abandono do corpo por aquela alma que viverá eternamente e que voltará a diferentes mundos, geralmente ainda densos, para novas experiências.

As pessoas morrem porque cessa o funcionamento dos órgãos vitais. A morte biológica completa-se e é muito fácil de ser constatada. Mas, o que ocorre, todavia, é que, mais comum do que imaginamos, devido ao apego aos valores mundanos, nem sempre haver a pronta libertação, o desenlace, o desencarne que efetive a morte espiritual, pelo desligamento dos laços fluídicos que ligam o espírito – ou alma – ao corpo físico. E as sensações do morto é que ele continua vivo como pessoa comum, permanecendo no trabalho, no lar, na escola ou no centro espírita. Sente necessidade, inclusive, de alimentar-se como fazia quando vivo. Permanece escutando a linguagem articulada, por meio dos ouvidos humanos, e não percebe que a comunicação passou a ser mental.

Chico Xavier afirmou, certa vez, que os espíritas estão desencarnando mal, numa alusão ao apego dos seres humanos àquilo que lhes serviu durante a encarnação, porque os espíritas não são exceção. Apesar do conhecimento e da necessidade do desprendimento dos bens terrenos, tão enfatizado nas orientações doutrinárias, não executamos na prática o que sabemos por teoria.

A colônia Nosso Lar, sediada nas camadas superiores da Terra, que imaginamos ser um recanto ESPÍRITA, segundo Chico Xavier, tem mais católicos, evangélicos e ateus do que espíritas. Não é uma região espírita, mas uma estância espiritual e para lá vão os que são atraídos graças à sua conduta cristã, porque aproveitaram bem a encarnação independente da doutrina que professaram na Terra. “Fora da caridade não há salvação”, é o lema da nossa Doutrina. Nunca foi dito que fora do Espiritismo não há salvação.

Bem compreendida a fenomenologia da morte, cabe a nós viver bem para morrer bem. Por isso há espíritos encarnados mais libertos da matéria que muitos desencarnados que ficam imantados aos desejos humanos que envolvem prazeres e bem estar, o que os impede de libertar-se do mundo quando precisam mudar de estado vibratório. Viver no mundo sem ser do mundo, é a grande sabedoria ensinada pelos Espíritos Superiores. Se quisermos mudar para a espiritualidade e imediatamente ajustar-nos à nova condição, ela tem de ser preparada desde agora. É como educar um filho; quem deixa para começar quando ele já está crescido, não mais poderá colocá-lo nos trilhos da vida.

Esperamos que nossos amigos leitores compreendam o que dissemos e decidam se preparar para o desencarne. Morrer fica por conta de Deus que define a hora de cada um. Desencarnar depende de preparação nossa, individual, sem regras fixas, mas com receitas já muito bem definidas pelo Evangelho de Jesus e amplamente confirmadas pela Doutrina Espírita. Consiste em libertar-nos do jugo material enquanto o temos na mão e podemos manipulá-lo. Depois da morte, perdemos o controle sobre ele e ficaremos a mercê da nossa invigilância e da nossa inferioridade.

Começa agora um novo ano. Tempo bom para pensar no assunto e começar a viver de maneira diferente. A menos que queiramos ficar sentados sobre o nosso túmulo por longo período, vendo a eternidade passar.

FELIZ ANO NOVO!

Jornal O Clarim – Janeiro de 2014