capas_rie_02-2014.inddO mundo não cessa de rodar; como se diz em tom de blague, a fila anda!

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 Jamais devemos desprezar a opinião dos filósofos, cientistas, pesquisadores ou especialistas de qualquer área, porque podem nos trazer revelações sobre os segredos da vida, da mente ou do relacionamento entre as pessoas, determinado pelos sentimentos dos homens e refletidos nas suas relações. Mas nunca coloquemos neles um ponto final.

É preciso considerar, e isso é importante, a permanente evolução que envolve tudo e todos nesta caminhada incessante em que vivemos, dia por dia, no tempo chamado agora, e que guarda sempre novidades para o futuro, muitas delas absolutamente inesperadas, e o que foi dito hoje acaba sendo desdito amanhã.

Não podemos dar as ideias como prontas e finalizadas porque tudo atende a um momento próprio, em que são verdades relativas. E mesmo que perdurem, mais a frente serão conhecidas de forma mais ampla e precisa. Não ficamos presos aos bancos da escola primária quando estamos na universidade. Sem que desprezemos o tempo precioso da infância, ela foi apenas o alicerce para nos tornar adultos. Crescemos e nos preparamos para saber mais e também para pensar por nossa própria cabeça. Não fora isso e nada haveria de novo sobre a Terra. Os velhos pensamentos ainda prevaleceriam, a Terra continuaria como um planeta achatado ou como o centro do sistema solar.

O mal dos homens é colocar-se em duas posições radicais: ou têm a prepotência de serem donos da verdade ou desfraldam o estandarte da própria ignorância e tudo aceitam sem examinar e raciocinar.

Os primeiros acreditam-se os privilegiados racionais, os únicos que têm inteligência e realmente sabem pensar. E quem não pensar como eles é ignorante e atrasado. Só o seu jeito é o certo. Os segundos apequenam-se na inércia e não se supõem capazes de alterar algo no sentido de melhorá-lo. Uns agem como gurus e outros como obedientes discípulos. Mas isso não é real.

Os que sabem muito, são competentes e têm boas ideias, precisam ainda de muitos outros que lhes ensinem desde as coisas mais intrincadas até as mais simples, que por vezes não merecem a devida atenção, apesar de serem vitais. Os outros, embora menores de competência, sempre encontrarão os que precisarão até do seu pouco conhecimento para auxiliá-los no crescimento. A professora primária aprende com o professor universitário. E ambos são professores. Mas até os doutores, de estágio mais elevado, continuam aprendendo e um dia foram alunos dos professores que os alfabetizaram.

Nada devemos negar quando não temos conhecimento ou condições para compreender ou fazer melhor. Porém, tão logo nos sintamos em condição para avaliar algo e dar-lhe algum aprimoramento, aceitemos o desafio com confiança. Saulo de Tarso tinha certeza de que Moisés era a verdade absoluta e o judaísmo a religião irretocável. Paulo constatou que ele era realmente a verdade; mas relativa. Que naquele momento Jesus estava acima de Moisés e que valeria a pena ouvir o que Ele ensinava, porque a sabedoria de Moises, com Jesus, fora amplamente aprimorada. Transformou-se no maior apóstolo do cristianismo porque teve coragem de mudar. E nós sabemos o sacrifício que lhe custou e as consequências que sofreu ao romper com o convencional. Abandono dos amigos e familiares, subalternos e seguidores. Teve de trabalhar como tecelão para sobreviver. Mas manteve-se convicto quanto às vantagens da mudança. Cresceu e renovou-se, empreendendo, como diz ele próprio, o bom combate; o homem vencendo a si próprio.

Se hoje existe o Espiritismo, devemos agradecer a outro corajoso que, nascido em berço católico, rompeu com suas próprias tradições norteado pelo bom senso. Duvidou de início da mensagem dos Espíritos, mas assim que se convenceu deixou para trás todo o seu planejamento de vida, aprimorado como discípulo de Pestalozzi, para organizar esta Doutrina que hoje nos dá tanta esperança, resignação e entendimento.

Para a chamada reforma íntima, que pode ser traduzida por reforma moral, é preciso que nos enchamos de coragem para combater o velho homem que ainda somos e fazer nascer o homem novo, sob a inspiração de Paulo de Tarso. Disse Jesus: “muda enquanto estás a caminho.” Diríamos nós que é preciso desprender-nos do mundo enquanto estamos na matéria. Não fiquemos escravos dos pensamentos já pensados, porque não sairemos do lugar ou caminharemos sempre um passo atrás. “Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde outros já foram”, disse Graham Bell, o criador do telefone. Há horas em que é preciso tentar coisas novas, mesmo sem desprezar as velhas!

Não esqueçamos que os inovadores sempre correm riscos e não são compreendidos no seu tempo nem pelo seu povo. Analisemos o que houve com Jesus, como o mais expressivo exemplo. E Ele não foi o único. A história registra centenas de pioneiros que hoje são reverenciados e que no seu tempo foram humilhados. Conhecido adágio já afirma “que ninguém é profeta em sua terra” e que “santo de casa não faz milagres”. E a voz do povo é a voz de Deus! Nós completaríamos que os gênios nunca o são para a sua própria época. Só a história e o tempo mostram que tinham razão.

Pensemos no assunto com interesse e coragem e, quando menos esperarmos, seremos um ser renovado, crescido e maduro. E se a maioria discordar de nós, que isso não nos preocupe. Lembro-me que certa vez, em classe, usei a palavra privilégio e a turma, unanimemente, me corrigiu, horrorizada: “não é privilégio, é previlégio!”. Felizmente o professor entrou na hora certa e corrigiu os mais de trinta surpresos equivocados colegas. “Toda unanimidade é burra”, dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues. Valorizemos mais os que nos criticam do que os que nos elogiam. Quase sempre este último vem emoldurado de bajulação ao passo que a crítica nos estimula a rever atos e comportamentos. Com ela, passamos a nos conhecer melhor.

Abandonemos o conformismo e jamais tenhamos preguiça de pensar. Todo gênio, antes de ser reconhecido como tal, é tido como louco. Se for necessário, corramos também nós esse risco!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro de 2014