“Viver sem amigos, não é viver” – Cícero

Mas onde estão eles, meu caro pensador? No mundo, embora tudo melhore a cada dia, a solidariedade ainda está longe do ideal. O egoísmo, de braços dados com o orgulho, continua reinando soberano em todas as camadas sociais, intelectuais, morais e até religiosas. O preconceito vige em todas as áreas.

As pessoas escolhem os amigos quase sempre pelos valores materiais. Filhos de pais ilustres casam-se com moças de descendência nobre. Juntam-se os títulos, os bens e os sobrenomes. Daí muita gente ter uma coleção deles para homenagear as famílias dos dois lados. Não satisfeitos, ainda põem um prenome composto na pobre criatura. Vai ter que carregar pela vida afora o fardo da complicada assinatura. Do tipo Princesa Isabel. O leitor lembra o nome dela? Dizem que era Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Tudo isso para depois ser apenas a Princesa Isabel.

O dia a dia muda as criaturas. Daí ser comum uma pessoa pobre ficar vaidosa após melhorar de vida. Fica arrogante de repente, pensando que o dinheiro a deixa mais valorizada. Continua vazia como pessoa, apesar da sua conta bancaria estar um pouco mais recheada. Monteiro Lobato, na fábula dos dois burrinhos, define tais pessoas. Sintetizamos:

“Dois burrinhos seguiam pela estrada. Um conduzia ouro em pó e o outro, sacos de farelo. Embora da mesma igualha, não queria o primeiro que o segundo caminhasse ao seu lado. – Alto lá! – dizia – não se emparelhe comigo, que quem carrega ouro não é igual a quem leva feno. Guarde distância. O burrinho do farelo obedecia roendo-se de inveja do fidalgo… De repente, ladrões agarram os burrinhos pelos cabrestos. Examinam primeiro a carga do burro humilde e dizem desapontados: – Farelo.! Vejamos se há coisa melhor no da frente. – Ouro, ouro! – gritam, arregalando os olhos. E atiram-se ao saque. Mas o burrinho resiste. Desfere coices e dispara pelo campo. Os ladrões correm, cercam-no e lhe dão em cima de pau até saqueá-lo. Terminada a festa, o burrinho surrado que nem podia suster-se em pé, reclama o auxílio do outro que comia capim sossegadamente. – Socorro, amigo! Venha acudir-me que estou descadeirado… O burrinho do farelo respondeu: – Mas poderei aproximar-me de Vossa Excelência? – Como não? Minha fidalguia estava dentro da sacola e lá se foi nas mãos daqueles patifes. Sem o ouro no lombo, sou uma pobre besta igual a você… – Bem sei. Você é como certos homens do mundo que só valem pelo cargo e dinheiro. No fundo, são simples bestas de carga, eu, tu, eles… E ajudou-o a regressar para casa, decorando, para uso próprio, a lição que ardia no lombo do vaidoso.”

Feliz aquele que na vida recebe a surra de esclarecimento para conhecer-se melhor e saber que o homem vale pelo que é, não pelo que tem.

Sobre o assunto, temos ainda a mensagem da bonita composição de Billy Blanco, “A banca do distinto”, cantada pela saudosa Isaurinha Garcia: “Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho; pra que tanta pose, doutor, pra que esse orgulho. A bruxa que é cega esbarra na gente e a vida estanca; o enfarte lhe pega, doutor e acaba essa banca. A vaidade é assim, põe o bobo no alto e retira a escada e fica por perto esperando sentada, mais cedo ou mais tarde, ele acaba no chão! Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal, todo mundo é igual quando a vida termina com terra por cima e na horizontal!”

Podemos aprender com as coisas mais singelas; se o quisermos. É só ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, como já ensinou Jesus Cristo. O Evangelho não está escrito apenas nos livros sagrados, mas também nos jornais, na TV, na rua e nos olhos e atitudes das pessoas. Precisamos saber lê-lo em qualquer ocasião. Isto é sabedoria!

Jornal O Clarim – abril de 2014

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