Da.Nenê e seus filhos

Uma carta que Da. Nenê, da Mata Redonda, Allhandra, PB, nunca escreveu e que eu imagino escreveria assim.

Meus filhos! Permitam-me chamá-los de meus filhos!

Muitos de vocês nem sabem que meu nome é Egrinalda da Silva Costa, nem que ganho tão pouco como agente carcerária, que quase nem posso me sustentar. Mas uma coisa vocês sabem: Amo todos vocês, que não são nascidos do meu ventre, mas que são filhos diletos do meu coração.

Para vocês, eu sou a mãe e para o povo eu sou Da. Nenê, que já foi acusada de maltratar crianças e ameaçada de que todos seriam tirados de mim porque não os cuido como devia. Isto, depois de trinta anos de intenso zelo pelo semelhante. Sabe o que disseram as autoridades? “Irregular e precário, abrigo acolhia há 28 (sic!) anos crianças e adultos em Alhandra.” Não sei onde se esconderam essas promotoras que só recentemente apareceram. Nos seus gabinetes com ar condicionado, quem sabe. Paciência, cada um faz o que sabe.

É certo que eu gostaria de dar-lhes mais do que dou, em comida, em roupa, em moradia; bem como eu gostaria de ter sido instruída na mocidade para transmitir a vocês mais conhecimentos e boas maneiras. Mas não aprendi nem para mim; o que sei foi a vida que me ensinou. É o que reparto com vocês e é só o que tenho para lhes dar. Faço-o com toda a força do meu melhor empenho e sou feliz por isso.

Hoje, olho para cada um de vocês e sinto que me amam também! Desde os pequeninos até os adultos, que são irmãos de alma, o que não se vê muitas vezes nos irmãos de sangue. Vejo todos saudáveis, serenos, limpos, educados e alegres e digo para mim mesma: Obrigada, meu Deus, pela dádiva de me permitir transformar esses deserdados da vida em criaturas de bem. Em cada um de vocês brilha uma centelha do meu amor.

Que destino teriam, se eu não os tirasse da rua? Quem poderá adivinhar… Estariam mais felizes do que ao meu lado, orientados por mim, ou se perdendo pelas ruas e adquirindo maus hábitos? Teriam tido melhor sorte ou nem existiriam mais? Só o Pai Celestial para responder a pergunta. Mas que importa a resposta, diante da realidade. Olho para vocês e sinto que estão felizes. Tenho a consciência tranquila de ter feito o melhor que podia e sabia.

Quero informar-lhes, meus filhos, que algumas pessoas de bom coração entenderam meu gesto e me ajudaram. Não me ajudaram a amá-los porque amor eu tenho de sobra para todos. Mas me ajudaram a sustentá-los, a alegrá-los, porque o caráter de vocês foi formado por mim com a parceria da índole de cada um. Eu soube identificar nos meus diferentes filhos cada alma, individualmente, e pude lidar com eles em harmonia.

Obrigado por me aceitarem como mãe e me amarem também. Perdoem se não pude fazer mais. Quero crer, porém, que com a base que lhes dei e o exemplo de família espiritual que tiveram vocês continuarão abrindo caminhos na vida e transmitindo sabedoria aos seus descendentes, multiplicando o pouco que lhes dei.

E quando eu me for, não chorem; façam por mim uma simples e curta oração. Basta que digam: – Vai com Deus, mãe Nenê. Que Jesus a recompense pelo que fez por todos nós! Amém.

– E eu seguirei em paz!

Assinado: Nenê

Jornal O Clarim – Matão – maio de 2014