RIE_julho_2014

Isso não foi o que ensinou Jesus, segundo Mateus – 20-43/47.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

O capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo tem por título “Amai os vossos inimigos”.

A primeira pergunta que cabe nesta análise é: quem e de que natureza são os nossos inimigos? E perguntamos, também, como nascem os desentendimentos que criam inimigos para nós?

Respondendo, diríamos que os inimigos são os encarnados, os desencarnados e os autogerados, que acreditamos sejam para nós os mais prejudiciais.

Os primeiros, que dividem conosco a vida no plano físico, são concorrentes de toda ordem ou têm interesses comuns conosco. Se nos sentimos lesados, os transformamos em desafetos. Embora Jesus tenha recomendado que os amemos, porque são nossos irmãos e filhos de Deus como nós, o Espiritismo já nos adverte que não conseguiremos ter por estes o mesmo amor que devotamos àqueles que nos querem bem e nos ajudam.

O amor, nesse caso, fica restrito ao perdão e à tolerância, porque demonstraremos que respeitamos e conhecemos a sua inferioridade e que muito do mal que fazem decorrem da falta de conhecimento. Há vezes em que esse desafeto não foi ingrato, nem desonesto, nem maledicente, mas apenas agiu como imaturo invigilante. Disse ou fez algo que nos desagradou que, mesmo sem ser por mal, não mereceu desculpa de nossa parte. Fez um comentário desagradável sobre nós ou nossos mais queridos. São as reconciliações mais fáceis de conseguir se uma das partes der o primeiro passo, vencendo o próprio orgulho. A grandeza de pedir desculpas soluciona muitos desses males.

Quando o inimigo é maldoso propositadamente, não devemos alimentar sua desonestidade alegando que está tudo bem, porque não está. Desculpá-lo e permitir que ele continue fazendo o mal representa uma conivência com os erros que ele comete e que o comprometerão cada vez mais. Não é necessário revidar, ofender, mas defender-nos, ainda que de maneira sutil e inteligente, retirando a pessoa do nosso meio, o quanto nos será possível. Há vezes que ele é o cônjuge, ou algum parente, e aí a solução é sempre mais difícil. Mas não é impossível!

Outros inimigos perigosos são os que já deixaram este plano e hoje vivem na espiritualidade, para onde foram carregando mágoas contra nós por males que, consciente ou inconscientemente, lhes fizemos. Abandonamos o lar desfazendo a família, destruímos uma sociedade por incompetência ou desonestidade, abandonamos um necessitado quando podíamos ajudá-lo, entre outras situações.

Quando Jesus recomendou que antes de fazer a oferenda no templo deveríamos reconciliar-nos com os inimigos, ele falava também do processo obsessivo que o desencarnado exerce sobre nós, cobrando-nos naquilo que o lesamos. Mas só quem tem consciência da lei da reencarnação e compreende a continuidade da vida e a necessidade do retorno ao mundo material para novas experiências, pode entender, acreditar e administrar esse tipo de situação. Tratará de evitar o mal, a qualquer preço, perdoará setenta vezes sete vezes, não sentira ódio ou desejo de vingança. Buscará a reconciliação a todo custo, enquanto estiver a caminho.

Falamos também de inimigos autogerados e gostaríamos de analisá-los quanto ao mal que nos fazem e que se transformam em enormes comportas por onde jorram as águas do mar da obsessão. Escancaramos nossa mente na sintonia com o negativismo, que tem origem na tristeza, na inconformação, na mágoa e noutros sentimentos que mostram falta de fé. Quem sofre revoltado é porque não aceita o cumprimento da lei divina e se sente injustiçado crendo não ser merecedor dos males que precisa viver para a reparação dos enganos cometidos.

Apesar de conhecer a interferência do passado espiritual em nossa vida, para o bem ou para o mal, a grande maioria do nosso sofrimento tem origem nesta encarnação mesmo. Plantio e colheita permanentes durante toda a caminhada. De quanta coisa nos arrependemos sem que possamos mais voltar no tempo! Quanta tolice dita e quantas páginas escritas que gostaríamos de nunca ter sido o autor. Mas como um saco de penas jogadas ao vento, não mais é possível recolhê-las. É preciso pensar muito antes de agir. Lembrar-nos das peneiras de Sócrates – um princípio do jornalismo equilibrado – e ver se o que dizemos é verdade, é bondade e é utilidade, porque o mal recai sobre nós mesmos, os autores da manchete.

Conclui-se que grande parte dos males humanos, pelo convívio com os inimigos de toda ordem, tem origem no próprio homem. É ele, geralmente, o causador do seu sofrimento, seja por ação ou omissão. Quem é inteligente evita fazer inimigos no mundo porque eles ficam para sempre; neste e no outro plano, até que consigamos a reconciliação. Deixemos que nasçam os inimigos que involuntariamente chegam à nossa vida pelas imposições sociais: o chefe que despede um subordinado, por exemplo, em defesa da estabilidade da empresa. Inevitável! Porém jamais nos desentendamos por tolices, que deixam sequelas desnecessárias, só para que não seja ferido nosso orgulho e prevaleça a nossa forma de ser e de pensar. Não vale a pena! Recordemos Paulo de Tarso, quando escreveu sua primeira carta à comunidade de Corinto: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém!”

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho de 2014