O exemplo do palhaço   – dia a dia

Ao estudar o Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XX, os Trabalhadores da Última Hora, vimos um comentário do espírito que assina Henri Heine, Paris 1863, que será o mesmo Christian Johann Heinrich Heine (Düsseldorf, 13 de dezembro de 1797Paris, 17 de fevereiro de 1856), poeta alemão, conhecido como “o último dos românticos”. Boa parte de sua poesia lírica, especialmente a sua obra de juventude, foi musicada por vários compositores notáveis como Robert Schumann, Franz Schubert, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner e, já no século XX, por José Maria Rocha Fereira, Hans Werner Henze e Lord Berners. Escreveu também, entre tantos assuntos, sobre a História da religião e da filosofia na Alemanha e Outros escritos. Tradução de Guilherme Miranda.

Embora valha a pena conhecer suas obras, e há muitas em português, conheci este autor por encantar-me com seu poema “O tédio”, também conhecido como The Clown (o palhaço). Voltou à minha mente a primeira vez que ouvi, em 1958, recém casado, quando meu sogro declamou para mim. Vale a pena conhecer e inclusive há tradução do poeta paulista Guilherme de Almeida. Se algum leitor desejar, mande email e enviarei.

Permito-me dizer que a poesia trata da história de um homem depressivo, vítima de terrível tédio, que busca ajuda no doutor e este lhe dá muitos conselhos: que desperte para a vida, que ame, que viaje. E quando ele diz que tudo isto já fez e não serviram como remédios para o seu terrível tédio, o doutor o aconselha a ir ao circo; o poema termina assim: “Vá ao circo, senhor, talvez a arlequinada do palhaço querido que as multidões não cessam de aplaudir lhe desperte a alegria que falta à boa gargalhada.” O homem, porém, retruca: “Já vejo meu doutor que o mal é incurával, o clown de que fala, o clown inimitável que as multidões diverte a rir no Coliseu, o riso que ele tem é um riso aparvalhado, que só misérias encobre, é um riso desgraçado. O palhaço, sou eu!”

Chamou-me a atenção a atitude deste palhaço, que a exemplo de tantos outros cantados em prosa e verso, esquecem e superam suas dores para que o povo tenha alegria. Que felicidade! Um verdadeiro gesto de amor ao próximo. Enquanto nós vivemos a lamentar pequenos dissabores, quantas vezes um palhaço deixa o filho no leito do hospital ou o corpo da esposa sendo velado, para cumprir seu dever de espalhar alegria. Que vitória sobre o próprio sofrimento. Ah! Se todos nós também de vez em quando incorporássemos a alma de um palhaço, afogando nossos males no sorriso da multidão, ficando felizes com a alegria do semelhante. Como fazem os verdadeiros amigos que evitam falar de seus problemas para não nos entristecer também.

Quando alguém nos pergunta como estamos, devemos sempre dizer que estamos bem; alegramos os amigos e aborrecemos os inimigos. Se desfilarmos o rosário de nossas penas, o resultado será o inverso e os inimigos é que ficarão exultantes.

Não é sem motivo que a literatura tem tantos trabalhos sobre o assunto, mostrando que depois que tira o nariz vermelho, o branco da face, a sombra dos olhos, a calça folgada e o suspensório trocado, encontramos por baixo de toda esta fantasia um irmão com as mesmas dores que temos e que carrega mágoas muitas vezes maiores do que as nossas. Mas, em atenção ao “respeitável público”, o espetáculo não pode parar. Ele faz rir o quanto possa, dando o melhor da sua competência, mesmo que depois, no camarim, tenha de verter todas as lágrimas acumuladas para lavar o próprio sofrimento.

Jornal O Clarim – Matão – Agosto de 2014