RIE agosto 2014  A salvação que precisamos é de nós mesmos.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

É comum ouvirmos a afirmação que o Cristo salva!

Perguntamos, então, como Ele nos salva. Só porque dizemos que O admiramos? Porque “Ele deu seu sangue para nos salvar?”. Acreditamos que Ele tenha a obrigação de resolver os problemas que são nossos? Deixamos tudo para Ele solucionar? É assim que o Cristo nos salva?

Nem Jesus Cristo pode nos salvar se nós próprios não nos salvarmos. O que Ele deixou foi a receita infalível para que cada um consiga sua própria salvação. A Boa Nova, também conhecida como o Evangelho, o Testamento que Ele ofereceu à humanidade é onde estão contidas todas as receitas para a nossa salvação.

O que significa a salvação? Kardec já disse que “fora da caridade não há salvação”. Temos que nos salvar do que ou de quem? Enquanto não entendermos que temos de nos salvar de nós mesmos, não sairemos do lugar nem daremos um só passo na direção da propalada salvação.

Quem desejar salvar-se deve começar a reformular desde agora seus conceitos sobre a existência e o relacionamento com o meio em que vive. Em vez de ser irritado, seja calmo. Em vez de revidar, silencie até que surja o momento oportuno para dizer ao outro o que ele precisa ouvir, ou até que ele cresça e descubra por si mesmo o melhor rumo a ser seguido.

Nunca delegue a um estranho a tarefa que é sua. Eleja seus pontos fracos e estabeleça uma sequência de renovação, substituindo cada defeito pela virtude antagônica. Ou somos orgulhosos ou humildes; egoístas ou desprendidos; pacientes ou descontrolados. Nunca podemos ser, ao mesmo tempo, as duas coisas. Ou temos o defeito ou temos a virtude. O conjunto de defeitos nos mantêm inferiores, enquanto que a coleção de virtudes nos faz melhores e com direito a desfrutar a felicidade, ainda que nos seus mais embrionários resquícios.

Não confiemos aos outros, nem mesmo a Jesus Cristo, as atribuições que são da nossa alçada, porque somente conquistando-as por nós mesmos é que poderemos saborear o prazer de haver vencido uma batalha. Peça ajuda, mas acima de tudo, peça força. Não procuremos inimigos fora de nós porque eles nenhum mal podem nos fazer, espiritualmente. A grande batalha do mundo moderno é a travada entre o bem e o mal que se desenvolve no interior de cada um de nós. Nós próprios somos o grande inimigo a ser vencido. O desequilíbrio nos impacienta e nos adoece; a serenidade nos cura e nos acalma. Pelo uso do livre-arbítrio, decidamos o que queremos para nós: tristeza ou alegria; prazer ou suplício. As escolhas estão à nossa disposição para que elejamos o que mais nos interessa.

Não há igreja, não há prece, não há simpatia, não há talismã ou qualquer tipo de ritual que possam melhorar-nos se não contarmos com o nosso próprio esforço de renovação. Uma frase dos Espíritos diz: “Deus que te criou sem o teu conhecimento, não poderá salvar-te sem a tua colaboração”. A salvação, que poderíamos substituir por evolução, está, como sempre esteve, em nossas mãos. Fomos criados lá atrás, na eternidade dos tempos, sem nenhum conhecimento. Hoje temos muitos saberes resultantes do que elegemos como prioridades para nós. Daí a diversidade de caracteres e temperamentos entre as pessoas. Uns avançaram mais na direção do bem, outros no sentido da imperfeição. Podem ser identificados facilmente num aglomerado. Numa cidade, numa família, num povoado, numa instituição, veremos quais as prioridades que cada um deu à sua vida. Somos sempre o produto das nossas ações e preferências.

O Espiritismo não se arvora como monopolizador do saber, nem se considera dono de receituário milagroso ou diferente para que as pessoas possam chegar mais depressa à perfeição. Mas, seguramente, é uma doutrina lúcida, de bom-senso e baseada na lógica da natureza. Faz o bem, colhe o bem; faz o mal e recebe o mal como resposta, dentro da lei básica de ação e reação.

Certa vez, no nosso centro, uma jovem de aproximadamente dezessete anos veio até nós e disse que fora ao centro para saber se com ela havia espíritos. Dissemos que sim. Então, ela disse: “Bem, isso eu sei; quero saber que tipo de espíritos”. Ao que aduzimos: “Isso é mais fácil ainda de saber; basta você analisar o que gosta, o que faz e no que você mais pensa habitualmente”. Ela nos olhos fixamente, meio assustada, e completou: “Vixe Nossa Senhora!”.

As pessoas que pensaram, ao ler o título, que tínhamos fórmulas milagrosas como receitas de salvação devem estar decepcionadas. Simplesmente repetimos o que já foi dito há séculos, mas que ainda não conseguimos incorporar aos nossos hábitos para que a teoria seja vivida na prática. Sabemos das coisas complicadas que todos entendem, mas não sabemos das coisas mais simples, que ainda não conseguimos compreender. Delegamos aos gurus, mestres e orientadores aquilo que compete a nós resolver. Só quando pusermos as mãos à obra e enfrentarmos nossas inferioridades com coragem, com humildade e sem vergonha ou preconceito, é que teremos descoberto a verdadeira rota da salvação.

Queremos conhecer o sexo dos anjos, mas não sabemos fazer reforma íntima; discutimos se o corpo de Jesus era fluídico e se Ele nasceu do Espírito Santo e de uma Virgem, e nos esquecemos de prestar atenção ao seu Evangelho. Deixamos de amar o próximo e exigimos o amor de Deus. Enquanto continuarmos nesta incoerência, não sairemos do lugar.

Os tempos não são chegados; já estão passando. Rogamos a Deus para que abençoe nossos bons propósitos e nos dê discernimento e coragem para um imediato despertar! Que assim seja!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Agosto de 2014