Grande parte dos homens ainda considera o seu próprio espírito como uma terceira pessoa. Assim, são habituais as expressões: – Não tenho paz, porque meu espírito está perturbado.     – Quando eu morrer, meu espírito responderá pelas minhas ações. – No tribunal Divino, meu espírito será julgado.

Estas formas comuns de referir-se ao próprio espírito evidenciam que as criaturas humanas, mesmo os espiritualistas, consideram-se divididos em três partes distintas: Ele mesmo, o corpo e seu espírito. Por esta razão, atribui muitos comportamentos seus às influências do seu corpo e outros às influências do seu espírito, tal como se vivesse sob a ação de dois elementos diferentes de si mesmo e não subordinados à sua vontade.

Por isso é que, após a desencarnação, identificando-se como um indivíduo de corpo definido e de sensações inteiramente pessoais, mergulha num estado de perturbação mental. O meio que encontra diante de si é tão surpreendente e tão natural que se admira de como não cogitara dele como seriedade quando encarnado. Sente-se um estranho em terras estranhas.

Tem, por isso, necessidade de orientação segura a fim de nortear-se e estabelecer contatos salutares e construtivos dentro da nova sociedade que se obriga, mesmo contra sua vontade. Poderá estar por vezes repleto de boas intenções e desejos de paz sem, contudo, distinguir o que mais lhe convém. Precisa de doutrinação.

Doutrinar, segundo a definição espírita, é transmitir pacientemente informações curtas e exatas sobre as razões da vida, os motivos das encarnações, o destino de todos os homens, a estação de harmonia que aguarda a passagem da nossa vontade, os trabalhos que nos competem realizar e os esforços indispensáveis para a reformulação interior.

Doutrinar é ensinar o cristianismo-redivivo. E para ensinar uma doutrina é preciso antes conhece-la a fim de ofertarmos aos irmãos perturbados e perplexos as noções práticas de que eles precisam para recuperar-se de suas deficiências e batalhar para conquistar o direito a um lugar melhor.

A transmissão do ensino, porém, deve ser ajustada ao amadurecimento do senso moral dos interlocutores. Estamos diante deles como se estivéssemos frente a alunos de um curso primário, para os quais as noções transmitidas devem ser reais, mas devem, também, ser adequadas ao grau de compreensão e raciocínio do aluno. O mestre-escola não ironiza o aluno. Não ironizaremos também o comunicante.

O mestre-escola faz-se cheio de paciência. Sustentaremos, igualmente, a paciência.

O mestre-escola não dá aulas acima da idade mental dos alunos. Sem faltar à verdade, do mesmo modo não transmitiremos as nuanças e os coloridos, os complexos e o contexto da nossa Doutrina nos encontros educativos que sustentaremos com nossos irmãos que mal ingressaram no jardim da infância espiritual.

Nota- Vale a pena continuar estudando as orientações deste livro.

Do livro “Doutrinação” – Lição 4 – de Roque Jacintho – EDICEL – 1969 – 1ª edição