Walkiria Lucia Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“E os que estão sobre a pedra, estes são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; mas, como não têm raiz, apenas creem por algum tempo, e, na época da tentação, se desviam.” — Jesus. (LUCAS, capítulo 8, versículo 13.)

Ao lermos este capítulo – Firmeza de Fé, do Livro Caminho, Verdade e Vida, lembramos logo de Coragem da Fé, capítulo XXIV de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Quem melhor para exemplificar a coragem da fé que Paulo de Tarso e Estevão? Antes de nos aprofundarmos no tema, o que é fé? Fé entre várias definições constitui-se na crença em algo e na fidelidade no que ou em quem acreditamos.

Partindo deste ponto trazemos sempre ao pensamento a figura insofismável do Mestre Jesus. Homem que nos exemplificou a divina mensagem de Deus. Viver no mundo sem ser do mundo. Amar a todos indistintamente, perdoar sem exceção e restrições. Fazer o bem a todos que nos procurem e avançar fazendo o bem a quem não nos procura, mas necessitam. Este é o Mestre que trabalhando exemplificou, amando doou-se e permitindo-se ser crucificado ao lado de Barrabás demonstrou que todos serão recebidos da mesma forma no Reino de Deus, tendo as mesmas oportunidades de reparação/evolução.

O livro Paulo e Estevão no último mês de julho fez 73 (setenta e três) anos que foi escrito por Emmanuel com psicografia de Chico Xavier. Verdadeira obra prima que traz três personagens centrais: Paulo, Estevão e Abigail. Obra de significação expressiva leva-nos ao tempo pós-crucificação mostrando como os trabalhadores do caminho deram continuidade ao trabalho do Cristo. O jovem Estevão a ser recolhido a instituição em virtude de ter adquirido a peste torna-se grande admirador de Pedro afeiçoando-se a ele e buscando transmitir a mensagem do Mestre falando e curando, como Ele o fez.

É um tempo de perseguições aos cristãos. Um dos que encabeçava tais perseguições era o jovem Paulo, que há esse tempo ainda chamava-se Saulo. Fazia parte do Sinédrio e acreditava que os seguidores do carpinteiro estavam maculando os costumes e a doutrina de Moisés. Desafiou Estevão a fazer a mesma pregação no Sinédrio que ele fez na Casa do Caminho. E este aquiesceu. Quantas vezes, somos obrigados a defender as nossas ideias de pessoas estranhas ou não tão estranhas assim, que vivem suas vidas da forma que entendem, mas que se acham no direito de conspurcar a nossa. Ou em virtude da vinculação profissional, familiar ou social elegem-se como avaliadores do nosso comportamento.

A semelhança de Estevão reafirmamos a nossa fé. Demonstramos que não temos somente a ciência da informação, mas a consciência plena da fé que abraçamos. Uma informação não anula a outra. Não é porque o Cristo veio que tudo o que Moisés havia dito teria que ser esquecido. Tanto que os dez mandamentos servem de base para a Doutrina Cristã. Jesus veio desdobrar e a Doutrina Espírita veio explicar pontos que permaneciam obscuros pela falta de entendimento. A ciência confirma a doutrina. Então são informações que se somam e se completam sem se prejudicarem. Aquele que crê é fiel aos pensamentos esposados, mas permite-se alargar o entendimento buscando outros balizamentos para fundamentação do seu pensamento.

O Mestre ensinou que não se deve temer apenas o que poderá matar-lhe o corpo (Fala Estevão diante do Sinédrio). Saulo, enfurecido pela inteligência e postura digna de Estevão, parte para cima deste aos socos. Estevão não reage e em prece pede auxílio a Jesus. Quando somos fieis ao que acreditamos ligamo-nos a divindade através da oração, rogando ao Pai forças para suportarmos e superarmos os embates da vida. Que nos bate a porte de todos. Mas que não poderemos deixar que a fé viva e ardente se turve em virtude do que os outros dizem ou fazem. Somos responsáveis por nós mesmos.

Quanto tudo está tranquilo, poucos se decidem por manter a fé viva. Acreditam que nada irá mudar a situação. Mas quando a dor nos bate a porta, lembramos que Deus existe e quando já possuímos a consciência mais aclarada nos voltamos para ele em busca de haurir forças para lutar. Saulo, Saulo, porque me persegues? Mas quem é o senhor? Eu sou Jesus. Quantas vezes criaturas conhecedoras da mensagem crística, da doutrina espírita, tornam-se verdadeiros verdugos de companheiros de jornada, perturbando-lhes os passos e tentando boicotar as mais belas expressões de amor e caridade? Mas quando são tocados profundamente pela mensagem do Cristo, transformam-se em defensores fieis do Mestre.

Numa bela passagem do livro, Paulo de Tarso conversa com Abigail, esta já desencarna e lhe aconselha: “Ama, trabalha, espera e perdoa” e ele prossegue amando a todos indistintamente, trabalhando sempre pelo bem e progresso da humanidade, esperando o chamado do Messias e perdoando a todos que lhe faziam o mal.” Aquele que crê e tem a certeza de que está com a verdade, procura transmiti-la a todos indistintamente Traz a verdade que o tocou e que ele sabe que todo aquele que é tocado não mais o mesmo. Sempre vemos em todas as narrativas vinculadas a Estevão e a Paulo o exemplo de amor e caridade que os dois praticam e que contagiam aos que estão em derredor. Mesmo aqueles que são responsáveis pela prisão e tortura.

Friedrich Nietzsche diz que se mede a grandeza de uma ideia pelas resistências que ela provoca. Este abalo não é só nos outros, mas em nós mesmos. Precisamos ser corajosos para enfrentarmo-nos lutando contra o lado sombra que ainda existe em nós. Procuramos aqui de forma humilde trazer o exemplo do Mestre Jesus seguido por Paulo e Estevão como grandes exemplificadores da Moral Divina a que transforma e transformará ainda mais quem somos.

Revista Internacional de Espiritismo – Novembro de 2014