Walkiria Lucia Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Mas, tendo sido semeado, cresce.” — Jesus. (MARCOS, capítulo 4, versículo 32.)

A semente lançada ao solo produz frutos. A lei de Ação e Reação nos coloca a todos no mesmo patamar perante as Leis Divinas. Não podemos pretextar ignorância, pois elas estão insculpidas em nossa consciência e no transmudar de roupagem física temos a possibilidade de vivenciarmos vários tipos de experiências inclusive invertendo a polaridade, encarnando ora como homens, ora como mulheres.

Mas ao estarmos aqui, deparamo-nos com situações que não nos trazem alegria, pois fazem parte do freio e da espora que necessitamos para evoluir. O primeiro comportamento é o de fuga, não aceitando as situações e tentando conspurcar as Leis. Outros, já compreendendo que a fuga só representa adiamento da reparação aceita sendo que em alguns momentos até buscam esta reparação. O que precisa ser analisado é se estamos em vez de aceitarmos o reajuste devido não estamos revirando a arma na ferida aumentando a dor justificando a necessidade de evoluir. Problema grave, que hoje detectamos nas Instituições Espíritas. Pessoas que entendem da necessidade de evolução e querem “recuperar o tempo perdido” macerando-se com sofrimentos, algumas vezes improdutivos.

Mais ainda, a criatura faz consciência de culpa e acredita realmente que deve suportar todos os sofrimentos que lhe são infligidos e que não deve procurar se libertar. Sai de um oposto e vai para outro. Uma pergunta recorrente: Qual o limite que devo utilizar para me livrar do mal? E a resposta que damos é sempre a mesma: o limite da inteligência e da moral. O Evangelho nos fala que “…as provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação.” (ESE, cap. V, item 26, Editora Idea, 320º Edição) Se usarmos todos os recursos e mesmo assim não conseguirmos nos desembaraçar do sofrimento é porque ele faz parte do nosso processo de aprendizagem evolutiva. Deus não teria colocado os mecanismos de libertação em nossas mãos se não fosse para que nós os utilizássemos.

O Evangelho traz mais: “O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as consequências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta, em se não desesperar, senão é bem-sucedido; nunca, porém, numa negligência que seria mais preguiça do que virtude.” (ESE, cap. V, item 26, Editora Idea, 320º Edição) Há mérito então em procurar o sofrimento, ou em procurar situações que agravem os que já existem? Depende. O Livro dos Espíritos, questão 720-a trata sobre o mesmo assunto. Enquanto que o evangelho diz que “…aqueles que se infligem tais sofrimentos existe egoísmo por fanatísmo”, O Livro dos Espíritos acresce, “…que quando tem por finalidade um simulacro, não passa de uma zombaria”. Maltratar o corpo não é solução para os nossos problemas. Mas quando o sofrimento decorre de uma abstinência em virtude do bem ao próximo constitui-se na caridade pelo sacrifício.

Outra questão a ser levantada é sobre as pessoas que preferem abster-se da convivência no mundo para evitar as seduções. Alegam que em virtude de tantas torpezas é melhor viver apartado da sociedade. Mais uma vez recorremos ao Livro dos Espíritos na parte que fala da Vida Contemplativa. Os espíritos nos falam sobre o tema, se agrada a Deus esta vida contemplativa, já que as criaturas que se dedicam a isso não fazem nenhum mal. Os venerandos emissários do Pai nos respondem: “Não, porque se eles não fazem o mal, não fazem o bem e são inúteis. Aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense nele, mas não somente nele.” Destacamos o final: Pense nele, mas não somente nele. Palavras sem atitudes que corroborem, são palavras vazias desprovidas de conteúdo emocional/psicológico que não convencem a ninguém.

Durante a encarnação nos deparamos com vários questionamentos: Será que posso abrandar o sofrimento do outro ou devo deixar a Lei seguir seu curso? Posso expor minha vida para salvar a do meu próximo? Posso minorar a dor de quem sofre em um leito de dor e abreviar-lhe a vida corpórea? Posso sacrificar a minha vida em detrimento da vida do outro? E por fim, os sofrimentos que vivo, servem de alguma forma de benefício ao outro?

O Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu capítulo V, itens 27 a 31 traz-nos a resposta para todas estas perguntas. De nossa parte aduzimos: toda atitude que serve para glorificar a existência humana é bem-vinda. Em tudo é levado em consideração à intenção. Não conhecemos os desígnios divinos, cabe-nos trabalhar em consonância com as Leis, acreditando que a misericórdia Divina nos abarca a todos. Somos viajantes que ao aportarmos numa cidade precisamos nos abastecer do que há de melhor nela para que possamos continuar a viagem. Nos momentos de calmaria nos abasteçamos de paz, equilíbrio e esperança para que quando chegue o momento de turbulência tenhamos capacidade de enxergar o fim e com isso caminharmos firmes diante das dores.

Esta não é a nossa primeira nem será a última encarnação. Estamos neste ir e vir a muito tempo. Então, aproveitemos as oportunidades de agora, para que mais tarde possamos colher os louros do plantio. Nenhuma boa ação é perdida na contagem divina. Tudo o que fazemos de bom nos é levado em conta. Não percamos a oportunidade bendita, não aumentemos o que já é por demais suficiente para o aprendizado necessário e a evolução almejada. Tudo tem seu tempo e nada acontece por acaso, precisamos aprender a nos conhecermos e detectarmos como poderemos agir da melhor forma para suportarmos e superarmos os embates que nos são apresentados. A exemplo do Cristo, com os passos firmes. Mesmo tendo a certeza da traição ele não recuo e foi crucificado. Que possamos carregar a nossa cruz e seguirmos em frente.

Jornal O Clarim – Novembro de 2014