RIE_JAN_2015Hora de autoanálise. Vai começar mais um ano. Vamos fazê-lo diferente.

Queixamo-nos da violência urbana que envolve a bandidagem e o massacrador trânsito urbano e interurbano. Culpamos as estradas e a falta de sinais e de fiscalização pelas tragédias que desfilam pelas ruas e rodovias de todo o país.

Reclamamos que as autoridades não refreiam a sanha dos pivetes, dos sequestradores e dos chefes da produção e do tráfico de drogas, e fecham os olhos ao livre comércio de ilegais, tais como pirataria de toda ordem, entorpecentes, celulares e demais eletrônicos, que chegam até mesmo a ser comercializados livremente em feiras públicas criadas para esse fim. Justa reação e justa reclamação!

Será essa, porém, a pior violência de que a humanidade padece? Se considerássemos todos os tipos de violência, precisaríamos de um policial honesto para cada cidadão; impossível. Melhor será que cada um policie a si próprio.

Que dizer da violência dos lares, quando marido e mulher se engalfinham por desentendimentos, por adultério, pelo vício do alcoolismo e outros que tais, às vezes até matando-se, e em outras tantas dando um exemplo negativo para os filhos que, embora trazidos ao mundo para serem educados, acabam tornando-se órfãos de pais vivos? Pior do que os que vivem em orfanatos e abrigos, porque estes pelo menos contam com certa assistência educacional e alimentar.

Quando damos exemplos de má educação, a violência somos nós. Ao perder a oportunidade de ensinar o bem, contribuímos para disseminar o mal. Quando o motoqueiro, com o escapamento aberto na sua máquina de 1000 cilindradas, acelera em frente ao hospital ou de madrugada enquanto as pessoas repousam, comete violência. Quando o doutor chega à sua mansão durante a noite e buzina para que lhe abram o portão, porque não teve o cuidado de automatizá-lo, o violento é ele. Quando alguém nos dá passagem no trânsito ou para entrar no elevador ou na loja ou no restaurante e nós nem o olhamos para dizer obrigado, estamos sendo violentos. Em vez de colocar um sorriso nos lábios do outro e estimulá-lo a repetir o gesto, fizemos com que ele destilasse ódio, arrependimento pela gentileza ou, no mínimo, decepção com nossa falta de educação.

Quando equipamos nosso carro com som que agride os outros, cometemos violência; quando o candidato manda alguém ferir o ouvido da população divulgando seu nome como o mais trabalhador e honesto dos mortais, o que comprovadamente é mentira, comete violência; quando a TV passa seus reality shows e novelas obscenas e que só ensinam fraudes, traição, mentiras, comete violência; quando os filmes da TV funcionam como autênticas universidades do crime, ensinando detalhes de delinquência, cometem violência; quando o esportista, para conseguir a vitória, agride o colega de profissão, criminosamente, com socos e pontapés, algo que nem o mais violento animal faz, comete violência. E nós, ao prestigiarmos reputadas marcas que emprestam seus nomes comerciais para aumentar seus lucros de forma igualmente imoral, adornadas de mulheres famosas e galãs charmosos, também cometemos violência. Eles só existem porque tem espectadores: nós!

Quando fechamos o cruzamento, trafegamos na contramão, ultrapassamos o limite de segurança de nosso veículo, passamos no sinal fechado e não temos paciência para ser solidários no trânsito, cometemos violência.

A educação não é algo que se crie por departamentos: educação sexual nas escolas, encontro de casais para reeducá-los no relacionamento, educação para o trânsito. Ou uma pessoa é educada ou não tem educação, porque isso se aprende no lar, além das tendências que já trazemos de amadurecimentos anteriores. Inclusive de vidas passadas, o que é claramente demonstrado pelo comportamento diferente entre as pessoas. Podemos receber informações e cultura, mas não educação. As palavras enganam!

Quando as partes forem boas, o todo será bom. No dia em que cada lar for um reduto harmônico no qual as pessoas se amem e se respeitem, seja abrindo mão algumas vezes até de seus sagrados direitos para que os demais sejam beneficiados, seja demonstrando desprendimento e amor pelo semelhante, tudo irá melhorar. Os maiores obstáculos chamam-se orgulho e egoísmo, as duas chagas geradoras dos grandes males sociais: ambição, ganância, prepotência, amor-próprio; diferentes estados de violência!

A corrupção é violenta e a grande maioria dos seres humanos, em maior ou menor dose, se enquadra nesta lamentável categoria. Ao comprar o policial, ao dar propinas para ter facilidades, ao atropelar os direitos alheios, ao furar filas prevalecendo-nos de pretenso prestígio, praticamos corrupção que compromete além de nós o passivo envolvido na trama. Exemplos de violência. São delitos leves? Não; não há meio crime, nem meio roubo, nem meia violência; assim como não há meio estupro nem meia gravidez. Ou é certo ou é errado.

O mundo só poderá ser consertado a partir da individualidade humana e não de fora para dentro. Certo que está difícil conviver com a violência da rua, com a prepotência de “flanelinhas”, supostos guardadores de carro (sic!), com o tráfico que impõe silêncio na favela, invade escolas e manda fechar lojas. Mas isto ninguém pode evitar sozinho. Podemos, porém, não ser um deles se nos educarmos a tempo. Se não diminuirmos a violência, também não acrescentaremos mais lenha nessa triste fogueira que arde nas almas humanas.

Um projeto inadiável. Combatamos a violência com a nossa educação! 2015 é o tempo certo para iniciarmos essa revolução interior!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro de 2015

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