Filhos: possíveis irmãos do passado em novo reencontro

Quando conversamos com a mãe de um bebê, ouvimos reclamações do trabalho que ele dá. Dar de mamar, de três em três horas, trocar fraldas muitas vezes ao dia, ficar acordada durante a noite tentando adivinhar a dor ele sente para dar-lhe o remédio correto. Um trabalho insano. Cocô tá duro, cocô tá mole; tá branco, tá preto… Quanto sofrimento! É o que ela pensa!

Ao ouvirmos a mãe de um menino de cinco a dez anos, ela reclama que tem de brigar para que se alimente, acorde para ir à escola e faça lições de casa. Se a mãe trabalha fora, à noitinha tem de compensar as horas de ausência com carinho intenso. Trocar a quantidade pela qualidade, esquecendo-se de si mesmo, do seu repouso e do seu lazer. Não vê a hora que o filho cresça para ser independente. Já sente saudade do tempo que dava de mamar e punha no berço. Comia e dormia.

Caso seja mãe de um adolescente, as queixas são outras. Começa o período de engraçar-se com namoro, faltar à aula e não levar o estudo a sério. Reclamações chegam a toda hora e a mãe se desgasta e se aborrece com o atendimento ao filho problema. Fica nas redes sociais do celular o dia inteiro, mesmo dentro da sala de aula. Como estudar assim? Por isso, é comum ela dizer: – Filho é muito bom. Pena que cresce!

O tempo passa e agora ela é mãe de um adulto de vinte e cinco anos que se prepara para o casamento. Ela fica radiante porque um dia ganhará um neto. Pensa que isso lhe trará muita alegria e não sabe que só aumentará seus problemas e preocupações. No fim da vida, hora de descansar, vai ser babá para colaborar com o casal que trabalha fora para melhorar de vida. Comprar apartamento mais novo, carro do ano, parafernália eletrônica, celular com todos os Gs. possíveis, etc. Mas ela sempre dirá que gosta e faz tudo com muita alegria! Será que foi o que sonhou para o seu fim de vida?

Um dia, ela é mãe de cinquentona ou cinquentão e pensa que agora poderá ter sua vida independente. Engano, porque os problemas se acumulam e se multiplicam. Os irmãos brigam entre si porque cada um quer ter mais vantagens no relacionamento com os pais. Sem falar que nesta altura da vida já chegaram os agregados: genros e noras, que a transformam num parente considerado pejorativo; agora ela é a sogra. Por mais que ela se sacrifique e tente agradar, compre com dinheiro o amor dos filhos, noras e genros, nunca vai acertar. Ciumeira de todo lado!

A sabedoria popular já diz: “filho criado, trabalho dobrado.” E a mãe que sonhava vê-lo crescido, sente saudade dos tempos de berço, da escolinha do jardim, quando tinha apenas cinco anos. Ela era feliz e não sabia!

E se pensar em contar com o apoio dos filhos nas suas dificuldades, não confie muito. Outro dito popular já afirma que “uma mãe cuida de dez filhos e dez filhos não cuidam de uma mãe.” E a voz do povo é a voz de Deus!

Já diz, porém, o poeta Vinicius de Morais no seu “Poema Enjoadinho”: Filhos… Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los? Como saborear o que não se prova? Como um lindo bolo, o filho também sabe a mel; é certo que, às vezes, tem gosto de fel!

O importante, porém, é dar e não receber. A missão de mãe e pai é, sobretudo, transformar aquele espírito que vive no corpo do filho em alguém melhor do que era quando chegou. Se todo empenho e dedicação forem postos nesta empreitada, merecerá o respeito de Deus, Ele sim o verdadeiro Pai de todos nós. Nossos filhos são nossos irmãos que vieram morar na nossa casa por um pouco para ajudar-nos e ser ajudados. Na maioria das vezes com temperamentos antagônicos, o que transforma a tarefa dos pais numa árdua missão. Mas será assim, ainda por muito tempo, enquanto formos todos espíritos imperfeitos habitantes de um mundo de provas e expiações. Temos no DNA da alma o nosso passado milenar cheio de falhas que ainda carece de grande aprimoramento.

Que Deus abençoe mães e pais neste 2015 que acaba de chegar!

Jornal O Clarim – Matão – Janeiro de 2015

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