Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante: walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Os fariseus, tendo-se retirado, entenderam-se entre si para enredá-lo com as suas próprias palavras. – Mandaram então seus discípulos, em companhia dos herodianos, dizer-lhe: Mestre, sabemos que és veraz e que ensinas o caminho de Deus pela verdade, sem levares em conta a quem quer que seja, porque, nos homens, não consideras as pessoas. Dize-nos, pois, qual a tua opinião sobre isto: É-nos permitido pagar ou deixar de pagar a César o tributo? Jesus, porém, que lhes conhecia a malícia, respondeu: Hipócritas, por que me tentais? Apresentai-me uma das moedas que se dão em pagamento do tributo. E, tendo-lhe eles apresentado um denário, perguntou Jesus: De quem são esta imagem e esta inscrição? – De César, responderam eles. Então, observou-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo-o falar dessa maneira, admiraram-se eles da sua resposta e, deixando-o, se retiraram. (S. MATEUS, cap. XXII, vv. 15 a 22. – S. MARCOS, cap. XII, vv. 13 a 17.)

É-nos permitido incluir modismos nos Centros Espíritas tendo como alegação que a necessidade de arrebanhar novos adeptos para a Religião? Melhor dizendo, podemos adequar os ensinamentos espíritas para os dias atuais para, desta forma, fazermos com que mais pessoas tornem-se espíritas?

A situação apresentada no parágrafo anterior é a mesma que tentaram colocar Jesus. Com uma diferença: hoje, os conhecimentos vindos da espiritualidade superior e os próprios exemplos escritos ou falados nas nossas reuniões mediúnicas espíritas nos dão prova que é necessário separarmos o joio do trigo e que a informação deve sair de dentro das Instituições Espíritas para a rua e não o inverso. Então a adequação deverá ocorrer primeiro em nossos lares, em decorrência das informações que trazemos do Centro. Informações de amor, perdão, renovação íntima e mudança constante em busca do sentido existencial da vida.

Jovens e velhos permitem-se evadir das Casas Espíritas, tidas como rígidas, acreditando que poderão formar agrupamentos mais sintonizados com o Cristo. O Mestre Rabi não nos deixou nenhuma palavra escrita, mas seu exemplo foi tão forte que muitos escreveram e escrevem sobre Ele. Tento imaginar Jesus nos dias atuais, recém entrando na puberdade e participando das nossas Instituições. Será que Ele iria se satisfazer com pequenas recreações ou gostaria de estudar o Evangelho de forma adequada ao seu entendimento ainda juvenil? Contentar-se-ia em fazer tratamentos infindáveis de passes ou buscaria compreender o que vem a ser o trabalho de renovação interior e procuraria fazê-la em si mesmo?

E quando os primeiros sinais da mediunidade começassem a lhe envolver, permitiria que “as vozes do além” lhe ditassem a conduta ou procuraria estudar, aprender e desbravar a sua própria psique antes de procurar se associar a outras psiques em trabalhos de reuniões mediúnicas? E quando, pela sua facilidade em falar e magnetismo que emana, começasse por fazer palestra, estudaria Kardec ou acreditaria que o que está nos livros da codificação foi escrito em outro século e que agora as coisas mudam na velocidade da luz e que por isso o valor das experiências vividas valem mais que o que os espíritos explicam no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo e em O Livro dos Espíritos?

Não estamos dizendo nada demais. A questão 625 de O Livro dos Espíritos nos traz que Jesus é o nosso modelo e guia, então, por conseguinte, o que Ele fizesse hoje seria correto também o fazermos. Às vezes, nos arvoramos em sermos precursores de verdades. Mas em se tratando de Espiritismo, tais verdades já foram ditas. E não foram ditas por Kardec, mas por Jesus. O que Kardec e a plêiade de Espíritos capitaneada pelo Espírito de Verdade fizeram foi “explicar e desenvolver” (Livro A Gênese, cap I, item 28). Então, incorporar modismos a doutrina é querer incorporar modismos a Jesus.

Quando o Mestre foi consultado sobre se era correto pagar ou não o tributo a César Ele deixou bem claro que o que é do mundo segue as regras do mundo e que a parte espiritual nos rege as regras de conduta moral. Como somos o mesmo ser humano nos dois mundos, depreendemos que o mundo espiritual pré existia, existe e continuará existindo, cabendo-nos neste mundo de relação estabelecer regras sociais de conduta assemelhadas as espirituais e não o inverso.

Dar a César o que é de César faz-nos refletir sobre o cidadão que somos na sociedade, o respeito que devemos as regras e as pessoas e qual realmente deve ser nosso comportamento “com as coisas santas”. Se realmente alguns querem aplicar as regras de fora dentro da Instituição estará fazendo do Centro um local como outro qualquer: uma praça, um shopping, etc. Nos quais as pessoas se reúnem com finalidade social e não espiritual.

Ao adentrarmos uma Instituição Espírita queremos encontrar lá um local diferente do que estamos vivendo. Onde existam regras; onde se fale de amor, mas que se viva o amor; que profiram palavras aconchegantes, mas que elas estejam balizadas nos precursores do Espiritismo; que o homem ou mulher que adentre a Instituição saiba que o local que ele (a) está é diferente e por ser diferente é que é bom. Que os jovens ao procurar a Instituição não encontrem, infelizmente, a continuação de suas casas, nas quais o poder “do grito” e de quem tem mais influência fale mais alto e não o poder do exemplo.

Realmente reflitamos: queremos trazer os hábitos de fora para a Instituição Espírita ou gostaríamos, se pudéssemos, morar na Instituição Espírita? Se a nossa resposta for à segunda opção é porque a Instituição a qual frequentamos possui regras, mais ainda, é uma Instituição que prega Kardec, que prega e procura vivenciar Jesus.

Jornal O Clarim – Janeiro de 2015

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