Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante: walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Enquanto o bruto contenta-se com o essencial para a existência, apenas experimentando impulsos e dando campo às necessidades imediatas, aquele que pensa aspira as mais significativas realizações que ultrapassam os impositivos automatistas do fenômeno orgânico.”(Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda – A busca) 

Enquanto a criatura estagia na forma primária do entendimento humano busca aplacar os prazeres sensoriais. Ao avançar, percebe que tais prazeres são vazios e desprovidos de conteúdo, tão logo acabem. Para progredirmos, precisamos perseverar tendo como inspiração a cultura e o conhecimento e não a busca hedonista.

Uma primeira diferença que precisamos estabelecer é entre o significado de alegria e felicidade. Temos como exemplo o cap. V do Evangelho Segundo o Espiritismo, item: Os tormentos voluntários. A paz do coração, única felicidade real neste mundo… a felicidade sem mescla não se encontra na Terra… Então podemos depreender que a alegria é um estado momentâneo conseguido pela conquista ou realização de algo. Tão logo acabe, queremos mais outros e outros momentos. A felicidade decorre não da conquista de algo em si, mas da busca pelo crescimento, do auto-aprimoramento e da auto-realização.

Sendo a paz íntima a maior característica da felicidade a criatura humana ao vivenciá-la caminha da consciência individual (egóica), para a consciência intuitiva (espiritual) até chegar à consciência coletiva (Crística). Esta última foi a que Jesus nos deu o exemplo. Ainda nesta busca pelo entendimento a criatura se volta para duas vertentes: a materialista e a utopista. A primeira é a busca pelo prazer incessante, o aproveitar sem comedimento, quanto mais se tem, mais se quer ter. A segunda tão prejudicial quanto à primeira apresenta uma sociedade sem dores, nem sofrimentos, da falsa tranquilidade e da beleza irrestrita. Neste ponto a Doutrina nos traz a consciência da imortalidade.

Não vos inquieteis pela posse do ouro, ou prata, ou qualquer outra moeda em vossos bolsos. – Não prepareis nem um saco para o caminho, nem duas roupas, nem sapatos, nem bastão, porque aquele que trabalha, merece ser alimentado.” (Mateus, cap. X, vv 9 e 10). O primeiro ponto que nós precisamos destacar é que as mensagens trazem correlação com a realidade da época, na qual os viajantes não precisavam se preocupar com mantimentos ou local certo para se abrigar, pois sempre encontravam guarita com as pessoas de bom coração. Não vos inquieteis pela posse do ouro. A passagem nos fala da angústia em ter e no desejo de acumular. Cabe-nos uma análise tendo como ponto de avaliação duas concepções: Material e a Espiritual.

Material: todo acúmulo é prejudicial. Alguém já disse e concordamos: “Nós é que temos que possuir as coisas, não as coisas nos possuírem.” É ter algo, mas que ele não faça parte de nós a tal ponto que se não o tivermos mais sofreremos angústias atrozes. Falamos também com relação ao outro. Quantas pessoas não suportam “perder” alguém. Sabemos que é no sentido figurado que se fala em “perder”, pois não comandamos os sentimentos e as vontades dos outros.

Espiritual: Quando abraçamos qualquer religião, por uma visão ainda infantil e primária dos fatos, queremos nos tornar íntimos dos Santos, dos Espíritos na esperança de resolvermos os nossos problemas mais rápido. É a visão material adaptada a espiritual: se somos amigo de quem tem o poder, acreditamos que poder também temos. Outros acreditam que uma religião não é suficiente e vão a mais de um templo religioso, acreditando que desta forma acumulará benesses espirituais e que se os Santos não resolverem, os espíritos resolverão. Não estamos falando aqui de pessoas que dentro da sua família possuem nos integrantes mais de um segmento religioso e que para que haja harmonia, uns frequentam as reuniões públicas dos outros. Isto é muito válido, denota sinal de amadurecimento espiritual de ambos que se permitem mesmo sendo de religiões distintas frequentarem a do outro num sinal de tolerância recíprocas, mas não deixando de professar a sua. Estamos destacando aqueles que querem garantir um lugar no céu sem se esforçarem por merecerem.

“… aquele que trabalha, merece ser alimentado.” Mais uma vez temos as duas visões: Material e Espiritual. Material: em nenhum momento diz que fiquemos em casa esperando que alguém bata em nossa porta para nos dar o alimento. O verbo é “merecer”, entendendo-se disso: “ter direito a”, “ter feito jus à”. Mas em nenhum momento fala que será conquistado sem esforço algum. Espiritual: O alimento espiritual. O pão da vida. Jesus nos trouxe o verdadeiro pão da vida. A mensagem divina que ultrapassa os séculos e nos nutre do sentimento de amor, fortalecendo-nos e dando-nos esperança.

Ao entrardes em qualquer cidade ou aldeia, procurai saber quem é digno de vos hospedar e ficai na sua casa até que partais de novo. – Entrando na casa, saudai-a assim: Que a paz seja nesta casa. Se a casa for digna disso, a vossa paz virá sobre ela; se não o for, a vossa paz voltará para vós. (Mateus, cap. X, vv 11 e 15). O maior exemplo para conversão são os atos. E mesmo assim. Existem criaturas que mesmo sendo ajudadas distribuem agressões. É a condição humana. Vivemos no mundo interior o céu ou inferno que construímos, mas os outros não fazem a mínima ideia de como estamos interiormente. Agimos literalmente como animal ferido que possui um espinho na pata que o tratador não vê e acaba não entendendo o porquê dele estar agressivo mesmo sendo objeto de carinho e de boa alimentação. Então, ao transmitirmos a mensagem precisamos escolher a quem a estamos fazendo. Não querer converter a todos. Devemos sim, informar aqueles que nos buscam. Dar o remédio de acordo com o doente.

Quando nos diz que a nossa paz voltará para nós, deixa-nos claro que não devemos nos agastar com o que o outro nos faz. Que deveremos seguir em frente e caminhar. Quando alguém não vos queira receber, nem escutar, sacudi, ao sairdes dessa casa ou cidade, a poeira dos vossos pés. Quando batemos a poeira da roupa ou do calçado estamos usando a figura de linguagem representativa “de não nos permitirmos impregnar pela sujeira psicológica alheia”. Batendo até o pó, os pensamentos remanescentes em virtude do comportamento do outro e sigamos em frente.

Digo-vos, em verdade: no dia do juízo, Sodoma e Gomorra serão tratadas menos rigorosamente do que essa cidade. Conta-se que as duas cidades tratavam os forasteiros de forma agressiva e praticavam a tortura para com eles e segundo a Bíblia judaica Deus havia mandado descer do céu fogo e enxofre para destruí-las. A questão do juízo é a própria consciência que nos cobra ora ou outra o compromisso assumido com a divindade de evoluirmos incessantemente.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Janeiro de 2015

Anúncios