Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

Dia destes, fomos convidados para uma festividade de fim de ano em uma clínica de nossa Cidade. Entre as muitas brincadeiras, havia uma em que as pessoas depositavam numa urna um papel onde estava escrito, sem identificar-se, o que mais as faziam sofrer.

Logo depois, cada um dos presentes retirava um desses papéis e poderia opinar sobre o problema daquele anônimo, comentando ou dando conselhos. No papel que tiramos da urna, alguém havia escrito: “o casamento do meu filho não deu certo.”

Para descontrair e amenizar o tom de seriedade do problema, perguntamos: – Alguém aqui conhece algum casamento que deu certo? Depois de risos, embora estivéssemos falando sério, prosseguimos.

O casamento é um contrato social entre duas partes com o mesmo objetivo, ou seja, ser feliz. Ninguém vai para esse tipo de união com a séria intenção de proporcionar ao outro toda felicidade na relação. Ora, se um vai para ser feliz ele mesmo, por que o outro não tem o mesmo direito? É a aplicação prática do egoísmo humano que pode ser medido até nas frases mais corriqueiras: “Diz que me ama”. “Eu preciso tanto de você.” No desencarne, o clássico comentário: “Não podia ter feito isso comigo.” “O que vai ser de mim agora sem ele?” Não cogitam de saber o que vai ser dele, ou dela, após a morte, mas a parte está preocupada apenas porque agora terá de carregar o fardo sozinha.

O casamento, com todo respeito, é um mal necessário. Assim como um dia nossos pais nos trouxeram ao mundo, temos de fazer o mesmo com outros espíritos, até como reconhecimento e retribuição à vida pela oportunidade que tivemos. Nunca dá certo, mas sempre dá certo! Não dá certo como imaginamos, ou seja, um mar de rosas, sem percalços, sem desentendimentos e sem infelicidade. Mas isso não existe no mundo em nenhuma circunstância, quando se reúnem duas ou mais pessoas neste mundo de provas e expiações. “Onde há homens, há desentendimentos”, ensina um velho adágio.

Não podemos negar, todavia, que com o casamento fazemos grandes exercícios para a aquisição de virtudes. Se pensarmos um pouco no bem do outro, exercitaremos o amor ao próximo; se relevarmos alguns defeitos do parceiro, aprenderemos de paciência; se já compreendemos que somos reencarnantes contumazes, teremos resignação diante da difícil relação, porque desconhecemos as implicações do passado. O que fazemos, recebemos; e se tivermos capacidade para suportar as dificuldades, sairemos da empreitada com galardão.

Durante o casamento o espírito faz muitos aprendizados intensivos. Como mães, serão a nutricionista, a professora, a psicóloga, a empregada, a motorista, a enfermeira, além de atributos esporádicos a que são chamadas a exercer. Como pais, seremos o economista, o conselheiro, o mantenedor, etc., sempre correndo o risco, mães e filhos, de fracasso. O que der certo é lucro porque na maioria das vezes a novela termina com a mesma indagação: “Onde foi que eu errei?”

Nos dias atuais, neste conflito de gerações, quando cada década corresponde a séculos dos períodos medievais, pais e filhos vivem muito distantes uns dos outros e por mais que os velhos tentem acompanhar a velocidade do desenvolvimento mental e tecnológico, não conseguem. Perdemos hoje para os celulares, os tablets, os notes e todos os games com seus mais variados apelidos. Quer falar com filho? Manda convite para o face! Você será mais um entre os milhares de amigos virtuais e talvez eles deixem você compartilhar as ideias deles e talvez até acabem aceitando as suas. Pelo menos você terá mais possibilidade de ser ouvido quando conversa por meio da tecnologia. Na mesa do almoço ou jantar, o diálogo é quase impossível. O WhatsApp toca a cada segundo e espera resposta imediata; quando não é por mensagem de voz. Nem tente interromper porque você será odiado.

Neste item, nasce mais uma fonte de desentendimento entre o casal porque a mãe dirá, com o coração especial que ela tem: “Deixa a menina!…” “Ela está na idade de conviver com as coleguinhas…” E o pai defenderá o filho varão que precisa estar inserido no contexto social junto dos amigos…

Na mesma reunião mencionada no início, uma senhora falou depois e fez uma declaração de amor ao esposo, com quem está casada há cinquenta anos. Surpreendeu-se quando eu disse que casamento nunca é partida ganha. E mais ainda quando eu disse que era viúvo há dois anos, depois de ficar casado por cinquenta e quatro anos; e com a mesma mulher, um detalhe importante. Deu certo o meu casamento? Tivemos um filho, crescemos financeira e espiritualmente pelas tarefas que realizamos em favor de terceiros, fizemos amigos e tivemos desentendimentos, envolvendo familiares, sogro, sogra, cunhado, etc., como acontece em qualquer família. Penso que o saldo foi positivo porque cada um, individualmente, teve seu crescimento. Mas poderia ter sido melhor e mais agradável se pensássemos um no outro mais do que fizemos.

Em antiga entrevista na TV, uma repórter perguntou a uma senhora casada há sessenta anos qual era o segredo para uma união tão duradoura. Ela, serenamente, respondeu: “É porque nenhum dos dois teve coragem de pedir o divórcio!…” Alguém duvida que há milhões de casos como esse?

Quem pensar que somos contra o casamento, engana-se. A família, com todas as suas falhas, ainda é a célula mais importante da sociedade. Mas quem quiser que seu casamento dê certo, faça sua parte sem exigir o mesmo do outro. Prepare-se para dificuldades porque esse mar de rosas que une almas gêmeas ainda não é deste mundo. Somos todos imperfeitos, orgulhosos, egoístas, insatisfeitos e melindrosos. O resultado da união de dois seres nessas condições não pode ser efetivamente glorioso. Mas se houver respeito, está bom! Boa sorte aos novos candidatos; e que Deus proteja os atuais!

A todos um Feliz 2015!

Tribuna Espírita – Paraíba – Janeiro/Fevereiro 2015