Octávio Caúmo Serrano.

Troque a honraria provisória e duvidosa dos homens pela glória eterna de Deus.

Certa vez, um palestrante, ou como preferem os espíritas modernos, um conferencista, de outro estado, foi levado à nossa casa por uma amiga e o autorizamos a fazer seu trabalho de divulgação, repetindo tema que já usara em outros centros da nossa cidade.

Como conhecemos os costumes de algumas casas locais, advertimos nosso convidado que ele não teria palmas no final de sua apresentação, o que não significava que o trabalho dele não tivesse sido do agrado, mas que era hábito do nosso centro não aplaudir o orador.

Assustado, e parecendo decepcionado, perguntou-nos a razão desta atitude. Explicamos ao confrade que, segundo nosso entendimento, isso não cabe no trabalho do espírita que é apenas repetidor do Evangelho e dos postulados deixados por Kardec. Somos divulgadores de ideias alheias, apesar de muitas vezes usarmos palavras nossas. Falamos de pensamentos já pensados e por mais brilhante que seja a nossa forma de apresentá-los, nada têm de original porque não são criados por nós.

Citamos o próprio Chico Xavier que quando lhe perguntavam por que ele cedia totalmente os direitos autorais de suas obras, ele respondia que o fazia porque nenhuma só linha de seus livros era de sua autoria e, portanto, ele não podia beneficiar-se pecuniariamente com elas; tudo pertencia aos espíritos que ditavam as lições.

O aplauso generalizado contempla todos, dos mais brilhantes oradores aos iniciantes nessa difícil tarefa e contempla os bons e os maus discursos, indistintamente. É hábito, naquela casa, bater palmas ao final da exposição. Isso não significa que o púbico gostou, mas visa apenas demonstrar educação e lhaneza.

Quem deve ser grato pela oportunidade de falar, num Centro, ou em qualquer lugar onde nos reunamos em nome do Espiritismo, é o palestrante que espalha o conhecimento que já adquiriu com o estudo desta doutrina especial e libertadora, porque sua fala é como se fora gratidão pelo que recebeu nos seus primeiros contatos com essas verdades. Um dia, completamente ignorantes no assunto, fomos buscá-la para conhecê-la ou tentar solucionar problemas que nos afligiam ou obter respostas que desconhecíamos. Como fez sentido para nós, divulgamos tais conhecimentos na esperança de que tenham o mesmo efeito para aqueles que agora nos ouvem.

Nosso testemunho e trabalho assemelha-se a uma retribuição, um pagamento mesmo, pelo que recebemos quando fazíamos parte do público, semelhante àquele que hoje nos assiste. O privilegiado somos nós que retribuímos ao Espiritismo o que ele já fez por nós no passado. Somos devedores, não credores.

Quando você, confrade espírita, é convidado a proferir palestra numa casa coirmã, em vez de envaidecer-se fique feliz com a oportunidade, na certeza de que o beneficiado é você porque seus conhecimentos poderão não chegar aos que o ouvem, mas em você eles já estão incorporados. Ainda que você não consiga aplicá-los, o primeiro passo já foi dado: já sabe; já tem a informação de maneira clara; tente vivê-la a partir de agora e seja como o semeador que lança a semente sem a responsabilidade pela sua fertilização e crescimento, porque ela pode cair em terra boa ou não, no período das chuvas ou não, e livre de ervas que a afogue ou não. Semeie e prossiga, sabendo que Deus se encarrega do futuro dela, como fez com você que depois de ouvir as orientações decidiu segui-las e agora espalhá-las.

Não se envaideça se o aplaudirem freneticamente, nem se decepcione se a sua fala é seguida de profundo silêncio. O resultado do seu trabalho recebeu, nas duas situações, a mesma recompense da esfera divina. Você colocou a sua luz no alto, no velador, para que todos se beneficiassem dela; isto é o que importa.

Jornal O Clarim – Abril de 1015