Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“Os infortúnios ocultos encontram-se em todos os seres humanos, sem qualquer exceção. Dissimulados, escondidos, ignorados eles são as presenças-apelos da vida para o crescimento interior, ao esforço para alcançar os patamares da paz e da alegria perfeita. Sem o seu concurso todos se contentariam com as paisagens menos belas da névoa carnal, não aspirando ascensão, nem imortalidade!” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. Os Infortúnios Ocultos, Joanna de Ângelis/Divaldo Franco)

Existem males necessários ao nosso aprendizado e que fazem parte das situações biológicas e/ou emocionais de difícil trato, mas que constituem o psiquismo dominante, ainda, da humanidade. Por mais que tentemos fugir, mudamos de personagens, mas os fatos repetem-se até que a lição seja aprendida. O estar encarnado neste momento representa Dádiva Divina ofertada a todos, mas que poucos de nós conseguimos realmente aproveitar-lhe as benesses.

Vemos a mesma temática em Joanna de Ângelis e em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 4 – Os Infortúnios Ocultos: “… a par desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares… Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar assistência.” Não estamos encarnados sozinhos no mundo, nem tão poucos somos os únicos que temos a nossa porta da consciência batida com a necessidade de reajuste. Vivemos todos neste regime de contenção e resolução dos vícios com o fortalecimento e desenvolvimento do senso moral.

Então o que faz uma criatura agir diferente de outra perante os sofrimentos? Além da maturidade espiritual que é a base e o centro do entendimento humano perante as dores e a evolução que se faz necessária, temos a visão periférica da criatura perante a vida. Quando focamos o olhar para o problema que estamos vivendo deixamos de observar o que nos cerca. Passamos a enxergar somente o que nos é conveniente e necessário para resolvermos ou nutrirmos mais ainda a situação que estejamos vivendo. Dizemos nutrir, pois alguns de nós, se felicitam em ser objeto de atenção em virtude das desgraças particulares que por ventura estejam vivendo, causando certo burburinho ao redor, preocupação e ajuda dos mais próximos.

Mas existe outra classe de pessoas, aqueles que mesmo sofrendo ampliam seu objeto de visão e começam a olhar em volta estendendo a visão espiritual para todos aqueles que estão em seu derredor. Os consultórios médicos estão abarrotados de pessoas que vão à busca normalmente de atenção e amparo para os seus sofrimentos. Vivemos numa sociedade tão informatizada, que mandamos flores, abraços e beijos virtuais, estando um ao lado do outro e não fazemos isto pessoalmente. Nunca se sofreu tanto de solidão como atualmente, alguns de nós vivem em busca da “alma gêmea” esquecendo-se de valorizar as “almas algemadas” que passam verdadeiras encarnações ao seu lado sem serem valorizadas, acarinhadas e respeitadas.

Reclamamos que não somos amados. Mas será que estamos nos dispondo ao amor? Ao amor puro, sem mesclas e sem segundas intenções. O Evangelho nos fala de uma nobre senhora, que mesmo possuindo seus afazeres sociais, procurava ser útil ao semelhante, saindo de si mesma para poder ajudar ao mais carente. Carente de recursos financeiros e de amor. Às vezes a hipocrisia toma conta de alguns agrupamentos afirmando que devemos “levar a palavra de Jesus” aos mais pobres esquecendo-se que palavras desprovidas de ações não provocam ressonância. Realmente, a função da sociedade é amparar no que for possível aos mais necessitados, mas como falar de amor, de Jesus e de Deus com aquele que tem o estômago vazio e que o que mais desejaria era ter sua fome aplacada?

Para cada agrupamento uma realidade diferente e uma forma de agir também. Em comunidades que não sabem o que é saneamento básico deixemos o nosso contributo de amor, mas também enriqueçamos este contributo com o alimento material que sustenta e dá vigor ao físico. O Evangelho nos diz: “Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita.” Incitando a caridade verdadeiramente modesta, sem mesclas. Que não procura um jeito de ser vista pelos outros, fingindo que foi descoberto; nem tão pouco o faz em busca de honrarias humanas. Faz porque entende que está realizando uma verdadeira exaltação a vida futura, irmanando-se com aqueles de nossos irmãos que ainda tem fome e sede, que ainda são muitos em nosso Brasil.

Quando possamos estar na presença daqueles que tem fome e sede de amor, pois seus estômagos já foram aplacados, tenhamos a doce palavra de conforto. Não precisamos ir muito longo para encontrá-los. Muitos destes moram em nossas residências. Suplicam pela nossa atenção. Realizam verdadeiros malabarismos para estarem ao nosso lado e simplesmente não os enxergamos. Queixamo-nos de solidão, mas não nos movimentamos para sanar. Se por ventura, sejamos os que suplicam amor e não somos atendidos, distribuamos o que temos em abundância para tantos que também caminham ao nosso lado em busca de uma troca saudável.

A nobre senhora além de dar o pão material oferece o pão espiritual e a exemplo de Jesus, não perdendo uma oportunidade de dar o exemplo, se faz acompanhar da filha para que esta possa aprender o que vem a ser a caridade. Estimula-a fazer trabalhos manuais para poder oferecer a comunidade ou simplesmente cuidar dos doentes junto com a mãe. Exercendo a prática do bem e do amor em sua maior acepção. A carência afetiva é grande, mas podemos revertê-la e até extirpá-la fazendo um movimento de visão periférica, enxergando quem caminha ao nosso lado, necessitado de nosso amor e respeito. Muitas das doenças modernas deixarão de existir com estas simples atitudes.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – Abril 2015