Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br 

“A beneficência, ou a ciência de bem fazer, a arte da ação do Bem é, do ponto de vista da psicologia profunda, o compromisso de humanidade para com as criaturas no seu sentido mais elevado.” – Joanna de Ângelis/Divaldo Franco. (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda)

As religiões de modo geral, preceituam fazer a caridade, mas não explicam com maior profundidade o sentido de fazê-la. A Doutrina Espírita mostra-nos que se realizando o bem para com o próximo estamos fazendo o bem a nós mesmos, transmitindo ao outro, parcela construtiva de nós.

Em virtude da mercantilização e a própria cultura moderna o ser humano acaba por supervalorizar a parte fisiológica, a busca das coisas em detrimento das pessoas. Encarcerando-nos nelas, deixando de lado a busca psicológica por ideais superiores.

A beneficência representa uma catalizadora e reeducadora das emoções. Permitindo o contato destas já adormecidas com as suas necessidades reais. Um dos pontos que catalogamos nas comunicações espirituais é o arrependimento de tais criaturas por terem buscado tanto ter e parecer e deixaram de ser e estar.

Jesus foi um grande educador. Ele usava o exemplo para ensinar. A teologia acaba engessando Jesus em dogmas e prescrições religiosas. A Doutrina Espírita nos traz um Jesus que ama e ampara a todos; alivia a muitos e ensina, através do exemplo, o caminho do bem. Ele procurou falar de uma forma tal, que a sua mensagem nos tocasse profundamente. Que o Eu Divino que Ele trazia em Si e transmitia na Sua mensagem rediviva entrasse em contato com o Eu Divino que habita em nós.

“Homem que perscrutava o âmago do ser com a visão penetrante do amor, cuida sempre de ensinar a autoiluminação, para diluir toda a sombra da ignorância em que se encontra mergulhado o indivíduo nesta fase do seu cometimento evolutivo.” (Jesus e o Evangelho Segundo a Psicologia Profunda, cap. A Beneficência). Joanna neste capítulo nos fala que Jesus converteu o humanismo em humanitarismo. Fez com que o olhar da criatura saísse de uma doutrina centrada no homem e passasse para uma doutrina centra na humanidade e no bem-estar desta. A pessoa deixa de alimentar as “paixões servis” para se autoiluminar trazendo alegria e bem-estar para o outro. É fazer para o próximo àquilo que gostaria que lhe fosse feito.

Jesus ia além: Ele não só socorria as necessidades aparentes da criatura. Ele buscava as não percebidas. Todos que o buscavam encontravam alívio para as suas dores, mesmo as não reveladas. É assim que Deus age conosco. Somos atendidos não naquilo que pedimos, mas naquilo que realmente temos necessidade. Vemos exemplos disso no Evangelho Segundo o Espiritismo em todo o seu capítulo XIII, destacando os itens: Infortúnios Ocultos e A Beneficência, da qual extraímos a seguinte afirmação: “Compreendei as obrigações que tendes para como os vossos irmãos. Ide, ide ao encontro do infortúnio; ide em socorro, sobretudo, das misérias ocultas, por serem as mais dolorosas!” (item 11, Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII).

Infelizmente as criaturas saíram de um Deus punitivo para passarem a glorificar o consumismo, bombardeados que somos pela propaganda. Todos estão sorrindo, todos estão felizes. Expõem mulheres e homens seminus. Vendem a imagem do prazer sexual. Mexem com a libido, excitam o desejo. Enfim, estimulam a parte sensorial no que há de pior.

Jesus sai de um molde pré-estabelecido e nos convida a reforma de si e a busca pela autoiluminação através da prática da beneficência, “da ciência de bem fazer”. Isto representa uma forma diferente de enxergar a vida, identificando-nos com a simplicidade e a grandeza moral de Jesus.

“Todos vós podeis dar. Qualquer que seja a classe a que pertençais, de alguma coisa dispondes que podeis dividir. Seja o que for que Deus vos haja outorgado, uma parte do que Ele vos deu deveis àquele que carece do necessário, porquanto, em seu lugar, muito gostaríeis que outro dividisse convosco. Os tesouros da Terra serão um pouco menores; contudo, os tesouros do céu ficarão acrescidos. Lá colhereis pelo cêntuplo o que houverdes semeado em benefícios neste mundo.” (Item 11, Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII)

Estar encarnado é uma benção. Somos coroados de bênçãos a todos os momentos de nossas vidas. Mas o que ocorre é que muitos de nós acreditam que são deserdados e por isso só recebem a pior parte. Todos temos o nosso quinhão de testemunho perante as Leis Divinas, situações a serem reajustadas, aprendizados que precisam ser completados, informações que estão equivocadas e que precisam ser esclarecidas. Mais em todos os momentos podemos de alguma forma aliviar a dor do outro: agindo para o bem da humanidade enquanto buscamos o reequilíbrio em nós mesmos.

Conta-se que uma nobre senhora ia durante o silêncio da noite acalentar o coração dos que não tinham mais esperança de viver, pois estavam vivenciando o momento de uma doença terminal. Ela que não conseguia dormir, em vez de buscar ajuda nos psicotrópicos, buscava o irmão em dor, doando de si amor e recebendo alento de vida tendo a certeza que existem dores cruciais a envolver a muitos durante a encarnação e que alguns destes sofrem num leito de morte sem possuírem uma mão amiga que venha lhe aliviar a solidão. Sempre podemos acrescentar algo de bom no outro, sempre podemos fazer a diferença na vida dos outros, como também já fizeram e fazem a diferença na nossa. O remédio para as nossas dores está em nossas mãos: a autoiluminação e o nosso próximo!

Jornal O Clarim – Maio de 2015