Não, eu não invejo ninguém… eu tenho tudo Senhor!
Na manhã cheia de sol eu me sinto feliz
como os pássaros que abandonam o mistério dos ninhos
e são notas de música na pauta dos caminhos

Eu dormi bem, Senhor. como as crianças e os justos,
muito embora eu já tenha sofrido
e já tenha pecado.
– fechei os olhos com as estrelas! e abri-os quando o sol
saltou o muro verde das montanhas
e libertou-se pelo descampado!

Acordei com a madrugada dealbando
e as aves tagarela,
– e ao abrir os meus olhos, já encontrei me espiando
os dois olhos quadrados das janela

Não, eu não invejo ninguém… Eu tenho livres e fortes
os braços, as pernas e o coração…
– E estão limpos os meus olhos e a minha alma é sadia,
– e posso sentir a força dos meus músculos
com um orgulho viril e uma ingênua alegria!

Abro os braços e respiro fundo, como quem sente
e saboreia lentamente um sorvo puro de ar!
E penso então para mim, intimamente:
– que bom, numa manhã de sol assim, a gente respirar!

Canta o ar nos pulmões que vibram como sinos
brônzeos, sincopados, num misterioso som,
e eu repito comigo numa alegria cheia de prazeres incalculados:
– que bom a gente respirar! que bom!

Que bom sentir no sangue os ímpetos da vida
e nos olhos a luz que dos céus se irradia,
como se abríssemos pela primeira vez os olhos
para o primeiro dia!

Sentir-se humano, e amar as coisas simples
encontrando-se de repente livre e puro
depois de tanto tempo cativo,
a repetir tal como eu, atordoado com a própria descoberta:
– eu amo! eu vivo

Não, eu não invejo ninguém… e quero dizer ao mundo
por que me sinto feliz…
Há tanta gente como eu que está vivendo
e segue se maldizendo sem saber o que diz…

Eu tenho tudo, Senhor…Eu tenho tudo, Senhor…

Posso vestir-me e sair, deambular pelas ruas;
olhar as casas, ouvir os pássaros, acompanhar os navios
partindo e chegando;
ou sentar-me no banco dos jardins, sob a sombra ainda fria
das árvores para sentir-me criança outra vez, na alegria
da criança sorrindo e brincando…

Sentar-me no banco das praças, junto aos lagos e às ermas
dos poetas, a olhar os repuxos bailarinos
esquecido do tempo e sem saber quem sou eu…
– para reler aqueles versos claros e divinos
que um dia. Raul de Leoni escreveu…

E posso debruçar-me nas amuradas a observar
as gaivotas que mergulham, os ônibus que correm,
ou os reflexos do sol liquefeito no mar…

E posso ir às praias encontrar-me com as ondas,
meter os pés descalços nas areias úmida,
correr como um menino ou como o vento!
– e escalar as montanhas, e fugir pelas estradas
sem saber por muito tempo qual o próprio destino
do meu pensamento!

E posso entrar nos “cafés”, e deixar-me ficar
para ver todo mundo que passa nas ruas;
e admirar as vitrinas e desejar as mulheres!
– tudo isso eu posso fazer!
E posso amar, e posso pensar, e posso escrever!

Não, eu não invejo ninguém . . . Eu tenho tudo. Senhor!

As ruas, as praças, os jardins, os caminhos,
as árvores, o mar, a alegria das crianças,
o ar com que encho os pulmões…
E o ruído das ondas, e o sussurro das folhas, e a música das água.
e as cores, e os perfumes, e as formas, e os sons!

Eu tenho tudo. Senhor!… Eu tenho tudo. Senhor!

Tenho demais talvez, porque ainda trago um coração
que compreende a grandeza dessa graça, e a infinita beleza desse amor!…

– Obrigado, Senhor!…
(Poema de J.G. de Araújo Jorge – do livro Eterno Motivo –  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras – 1943)

Anúncios