Octávio Caumo Serrano

Para os espíritas esta pergunta não é novidade. É a de número 1 já na primeira edição de O Livro dos Espíritos, lançada em 18 de abril de 1857, com 501 questões. A definição dada pelos Espíritos, que só repetimos como reforço, foi: “Deus é a Suprema Inteligência, Causa Primária de todas as coisas. Para acreditar em Deus é bastante lançar a vista sobre as obras da Criação.”

As discussões sobre a existência de Deus, com tentativas de provar que Ele não é uma realidade, demonstram como os homens inferiores deste mundo de provas e expiações são pretenciosos. Não percebem que não têm condições de entender nem a si próprios e procuram explicar algo sem que disponham dos atributos mínimos para iniciar o raciocínio.

Baseiam-se nas equivocadas deturpações religiosas, as mesmas que tentam imaginar Deus como humano; velho, sábio, meditativo, olhando para cada um de nós como fiscal de grupo escolar que acompanha o que faz o aluno no recreio. Falamos de ação e reação, como se Deus permanecesse à frente de uma luneta olhando para cada um de nós fazendo anotações de tudo o que construímos ou destruímos para nos dar, consequentemente, prêmios ou castigos.

Deveríamos nos contentar, ao reconhecer nossa pequenez, em saber que Deus é a Lei.  Ele deixa o homem livre para mergulhar nela, seguindo o lado edificante com o cumprimento das recomendações divinas, ou emaranhando-se em perturbações desagradáveis, por fazer tudo ao contrário. Pela Lei devemos ser calmos. Ao perder o controle sobre nós mesmos produzimos enfermidades. A cura não vem necessariamente por remédios mundanos, mas pela volta do homem à Lei da qual ele se afastou.

Supomos que o departamento de informática do Criador tem programas inimagináveis para controlar alguns gatos pingados que somos os sete bilhões de viventes na matéria deste planeta. Somos um bilionésimo – apenas para dar pálida ideia – do que existe no Universo. Até agora falamos da matéria densa sem preocupação com os da quintessência, muitíssimo mais numerosos e que são criados permanentemente. Aprendamos a compreender a nossa insignificância, apesar de merecer igualmente o grande amor de Deus.

Damos receitas para que as pessoas se aprimorem, supondo que Deus se vê em dificuldades quando o homem não age como parceiro do Criador para o melhoramento dos mundos. Imaginamos que se os homens não colaborarem para o progresso ele não se fará e criará um obstáculo para que Deus possa dar sequencia à sua legislação.  Quanta ingenuidade! O progresso já está pronto desde o início à disposição do homem que mergulhará nele quando entender.  Como os mares da Terra que existem mesmo que os homens neles não nadem ou os peixes neles não vivam. O homem é muito pequeno para atrapalhar a tarefa divina. Só consegue entravar a sua própria evolução.

Na verdade, se Deus não nos criou prontos e perfeitos, é porque queria dar aos filhos a oportunidade de se realizarem por si mesmos. Encheu o mundo da sua misericórdia e brindou o homem com o dom da vida. Por isso respiramos, caminhamos, digerimos, pensamos e envelhecemos como desejamos. Não fizemos o ar, não criamos a água, não inventamos o trigo. Nenhuma só fruta que há no mundo é uma invenção humana. O máximo que o homem faz é aprimorá-la com a permissão de Deus que quer testar sua inteligência e gratidão, criando híbridos resistentes às pragas e às variações de clima. Por isso diz um provérbio chinês: “Qualquer tolo sabe quantas sementes há numa fruta, mas só Deus sabe quantas frutas há numa semente.” O mesmo se dá com a clonagem. Como o homem consegue criar um ser vivo partindo de uma célula de outro já existente, imagina que criou a vida. Só que ele ignora que não haverá vida no novo ser sem que ele tenha uma alma. E alma é algo que o homem ainda não aprendeu a criar.

O Espiritismo veio dar um pouco de clareza à lei de Deus, dirigida aos que já despertaram e demonstram algum discernimento. Ao ler os Capítulos I, II, III e IV de O Livro dos Espíritos – Deus, A Criação, o Mundo Corporal e o Mundo Espírita  poderemos entender rudimentos sobre Deus e a sua obra.

A confusão ainda sobre Deus é tão grande, que até nossos irmãos católicos dizem na prece Santa Maria, mãe de Deus; confundem Deus com um de seus filhos e nosso irmão planetário maior, Jesus, o Cristo! O mesmo que afirmou que todos nós somos deuses e que não deveríamos nos maravilhar com o que Ele fizesse porque também o faríamos e até mais, se o quiséssemos. Deixou claro que até Ele, Jesus, ainda está em progresso e, portanto, ainda distante de Deus. Ao dizer “Deus e o Pai somos um” ele criava uma figura para dizer que suas ideias seguiam uma estreita semelhança com a Lei Maior. Ele foi quem melhor entendeu as Leis do Criador.

Conselho dado a Kardec em O livro dos Espíritos na questão 14, serve também para nós. Paremos de querer discutir e entender Deus, porque nos falta atributos para tal, e cuidemos mais da nossa própria evolução. É para isso que reencarnamos mais uma vez!

Tribuna Espírita julho/agosto 2015