Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. – Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; – e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; – e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. – Daí àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado.” (Mateus, cap. V, VV 38 a 42)

O convite nos foi feito para que pudéssemos nos conquistar moralmente. Para que aceitemos o desafio e não entabulemos discursões estéreis. Caminhando mil passos se for necessário demonstrando a perseverança e a paciência da criatura diante das adversidades. Destacando que o mais importante não é a prática exterior, mas a modificação e sacrifício dos vícios em detrimento das virtudes na criatura.

Joanna de Ângelis, através da psicografia de Divaldo, no livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 15 – A Vingança, nos diz que “A fatalidade da vida é alcançar a harmonia plena, mediante o equilíbrio do amor a si mesmo, ao próximo e Deus.” Equilíbrio esse difícil de ser conseguido, pois quando prepondera mais o amor a si, somos egoístas; quando acreditamos que amamos mais o nosso próximo, temos uma compreensão distorcida da humildade e quando acreditamos amar mais a Deus, demonstramos uma submissão sem compreensão.

Temos mais dois outros fatores que influenciam neste equilíbrio: os arquétipos, que trazemos de outras encarnações e as inimizades. Estas podem ser explicitadas nas situações em que nos inimizamos com o próximo, quando ele se inimiza conosco ou quando a inimizade é recíproca. No caso dos arquétipos, podemos entende-los, de forma sucinta, como “marcas” que trazemos de reminiscências de outras encarnações e que de tempos em tempos eclodem, mais explicitamente, permeiam a encarnação sendo o modelo primordial de comportamento. Este (arquétipo) é a maior dificuldade que possuímos. Primeiro em entender e depois em resolver. Em virtude desta dificuldade, começamos por nos debatermos e atacarmos a nós mesmos: são as autoflagelações e atacar os outros: são as agressões gratuitas, a vingança e o ódio.

Reencarnamos para vivermos situações de reajuste moral. Mesmos as que, a princípio, só provocam ajuste físico. Debatemo-nos quando não conseguimos entender. Quando isto se processa por muito tempo geramos a mágoa, quando esta faz moradia, criamos o ressentimento. Quando o outro nos faz o mal, não obrigatoriamente é porque haja uma vinculação espiritual, mas porque o outro não está bem consigo mesmo e resolve por atacar aquele mais próximo que se apresenta (mesmo que aparentemente) mais feliz ou que esteja em condição de inferioridade perante ele.

Oferecer a outra face também é “Ser precavido, resguardar-se do mal dos maus, cuidar de não se envolver em contendas, evitando os entreveros estabelecidos pelos belicosos, também é atitude recomendada pela Sua [de Jesus] conduta. No entanto, jamais fugir do testemunho, ou debandar do holocausto quando seja convidado, não revidando mal por mal, nem se vingando nunca, mesmo que surjam oportunidades propiciatórias ao desforço.” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 15 – A Vingança)

É sempre mais fácil para a maioria de nós nos deixarmos levar no que a sociedade atual chama de “a força das coisas”. É como se para a maioria fosse normal reagir e não agir diante dos fatos. Aquele que não pensa reage de forma maquinal ao ataque, o ser que compreende as verdades imutáveis age para se defender dos ataques e solucionar a problemática gerada em virtude  do ocorrido. Quando começamos por nos precatar diante do “mal dos maus” começamos por não mais cair nas armadilhas de lobos entendendo que uma palavra basta para começar ou por fim em uma contenda. Precisamos analisar o que estamos querendo construir para o nosso futuro. Também não sabemos com que intenção o outro nos ofende. Tal ato pode significar uma forma de atentar contra a própria vida. Como a criatura não tem coragem de fazer nada contra si mesmo, tenta armar a mão do adversário para que seja, aparentemente, uma morte mais louvável. Fora aqueles que se sentem felizes em estarem na condição de vítimas, pois segundo eles, são mais amados.

Não podemos esquecer que a taça de fel nos é apresentada a todos, na encarnação. São os testemunhos que precisamos vivenciar para aprendermos a fazer direito a lição que fizemos errado outrora. Nestes momentos, precisamos mais do que nunca, fortalecermo-nos em fé para que possamos superar os entreveros que nos são apresentados. E quando formos atacados na honra e nas afeições, pois tais criaturas não recuam diante da calúnia, tenhamos a certeza que não somos vítimas e que se chegou o momento do nosso reajuste com as Leis Divinas o outro também terá o seu. Enxergando o momento como instrumento reparador não como arma perigosa a nos desferir o golpe fatal. Assim torna-se mais fácil superar o momento e adquirir o aprendizado.

“O ódio somente desaparece mediante a terapia do amor incondicional, que o dilui, porquanto se enfrentam no mesmo campo de batalha, que é a consciência.” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda – O Ódio). Vivemos esta batalha no íntimo do ser todos os dias. Ora pendemos mais para o amor, ora para o ódio. Quando a compreensão das verdades imortais forem cristalizadas em nós faremos com que esta batalha não mais aconteça e somente o amor viva em nossos corações.

Tribuna Espírita – Julho/Agosto