Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“A sombra coletiva, no entanto, prossegue inquietando, e os indivíduos, açodados pelo ego não superado, esperam o Messias que os liberte dos vícios e da indolência sem o auto esforço, que lhes conceda felicidade sem a ocorrência de vexames, sem lutas, esquecendo-se que, mesmo que tal absurdo se fizesse normal, não poderia impedir-lhes a ocorrência da morte física, o enfrentamento com a autoconsciência e com a Realidade. ” (Livro: Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 28 – Mediunidade)

A questão da transferência para outro a solução de problemas que pertencem a própria criatura é algo que perpassa os tempos. Assim foi a época do Mestre Jesus quando queriam que os profetas, por estarem em contato maior com Deus (segundo o que o povo hebreu acreditava) trouxessem respostas prontas para as situações vividas. Jesus tendo ciência dos enfrentamentos com relação a isso deixou-nos as seguintes passagens:

A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má; – porquanto, cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto. Não se colhem figos nos espinheiros, nem cachos de uvas nas sarças. – O homem de bem tira boas coisas do bom tesouro do seu coração e o mau tira as más do mau tesouro do seu coração; porquanto, a boca fala do de que está cheio o coração. (S. LUCAS, cap. VI, vv. 43 a 45.)

Pode parecer simplória e até rudimentar tal comparação. Pois imaginar que uma árvore produza frutos diferentes daquilo que ela é, seria irreal. Mas o contexto em que se apresenta é diferente. Nos dias atuais, com exceções dignas feitas, as criaturas vivem sem aprofundar as relações interpessoais, em geral, isto favorece ao conhecimento equivocado dos outros e de nós mesmos. Pois para fazermos parte de determinados agrupamentos sociais e até familiares começamos por nos moldarmos aquele agrupamento e a trilogia: atos, valores morais e razão fica prejudicada.

Os nossos atos decorrem dos valores morais que possuímos, estes por sua vez são forjados no juízo de valor que fazemos (razão). Destaque para os valores morais no sentido que eles são sedimentados em virtude de aprendizado de outras encarnações; das informações que nos são ministradas, acadêmicas ou não e fruto do aprendizado da convivência social. Quando mesmo a razão nos fornece os materiais necessários para um justo juízo de valor, mas os nossos valores morais estão mesclados com interesses egoísticos começamos por produzir atos que não se coadunam com a consciência. Fazendo assim, que a má árvore produza aparentemente bons frutos para o agrupamento que fazemos parte. Sabemos o que é o certo, mas produzimos o errado que é tido como certo pelas pessoas que nos rodeiam, pois isto supre os interesses momentâneos.

Tende cuidado para que alguém não vos seduza; – porque muitos virão em meu nome, dizendo: “Eu sou o Cristo”, e seduzirão a muitos. Levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas pessoas; – e porque abundará a iniquidade, a caridade de muitos esfriará. – Mas aquele que perseverar até o fim se salvará. Então, se alguém vos disser: O Cristo está aqui, ou está ali, não acrediteis absolutamente; – porquanto falsos Cristos e falsos profetas se levantarão que farão grandes prodígios e coisas de espantar, ao ponto de seduzirem, se fosse possível, os próprios escolhidos. (S. MATEUS, cap. XXIV, vv. 4, 5, 11 a 13, 23, e 24; S. MARCOS, cap. XIII, vv. 5, 6, 21 e 22.)

A sede de novidade é grande na criatura. Somando-se a isso a dificuldade em lidar com as frustações, temos como resultado a busca incessante, em forma de clientelismos, das pessoas nas instituições religiosas, especificamente as espíritas, tentando encontrar nos palestrantes e nos médiuns principalmente respostas para as suas agruras, como se tais criaturas fossem detentoras de respostas sobrenaturais e que pudessem de alguma forma resolver os problemas da humanidade, como por um passe de mágica.

Somos criaturas falhas, que também experienciamos os nossos momentos de dificuldades e que transmitimos as mensagens evangélicas de acordo com o arcabouço moral que possuímos. Quando não conseguimos realizar algo, não significa que não possa ser realizado. Só não pode ser realizado naquele momento ou da forma como gostaríamos. Assim também o é com relações as dificuldades vividas durante a encarnação. Tudo segue um encadeamento lógico, necessário para a nossa evolução. Não podemos e não devemos estender a outros ombros situações que pertencem a nós resolver. Encontraremos sim, o apoio necessário para avançarmos, a orientação pontual sobre temas que possuímos dúvidas, mas jamais como deveremos fazer. Somos responsáveis por nós mesmos.

Antigamente elegíamos estátuas de barro para glorificar, hoje, algumas criaturas equivocadas o fazem com relação aos palestrantes e aos médiuns. Da mesma maneira existem criaturas tão equivocadas que se auto intitulam salvadores da humanidade ou o próprio Cristo como a passagem evangélica nos traz. Assim, vemos pessoas desistindo do movimento espírita (a caridade esfriando), pois não elegeram como móvel norteador a doutrina, mas as pessoas que proferem esta fé vida.

Quanto maior o conhecimento e o discernimento mais fácil torna-se a compreensão da criatura diante da vida e mais fácil torna-se a caminhada. Necessitamos redobrar a vigilância, para como o Evangelho nos alerta no cap. XX, item 4 – Missão dos Espíritas: “Só lobos se prendem em armadilhas de lobos.” Se algo de sobrenatural pode acontecer, será a presença constante do Mestre Jesus em nossas vidas. Faz mais de dois mil anos de presença física entre nós, mais foi tão intensa que é como se ainda ele convivesse conosco. E ainda convive, sua presença amorosa e lumirífica nos envolve a todos constantemente. Tenhamos fé em Deus. Acreditemos que não estamos desamparados e que por mais turbulosa que a passagem sobre a Terra nos pareça, tenhamos a certeza que não estamos sozinhos, que o Mestre amado nos acompanha os passos bem de perto, nos sustentando e amparando. Não precisamos endeusar ninguém. Temos Deus em nossas vidas, temos Jesus a nos mostrar o caminho a seguir.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Outubro de 2015