Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

Aprendestes que foi dito aos antigos: “Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo que aquele que houver olhado uma mulher, com mau desejo para com ela, já em seu coração cometeu adultério com ela.” (S. Mateus, cap. V, vv.27 e 28.)

Esta passagem de Mateus encontra-se encabeçando o capítulo VIII, item 5 de O Evangelho Segundo o Espiritismo: Pecado por pensamento – Adultério. Quando lemos este capítulo, a primeira vista, podemos ter a impressão que ele trata somente da visão restritiva do adultério que está vinculada ao casal, mas existe um sentido mais amplo, pois conforme definição do dicionário. Proibirem a palavra adultério também significa: “Viciar dolorosamente a qualidade de uma coisa, juntando-lhe outras mais ordinárias que passam despercebidas à simples vista.”

Partindo da visão restritiva caminharemos para a visão mais ampla do significado. As relações humanas são constituídas de vários aspectos. Nós criaturas humanas trazemos vários elementos que nos constituem, alguns destes não temos interesse ou realmente não desejamos que os outros conheçam. Joanna de Ângelis fala-nos das máscaras que utilizamos nos mais variados agrupamentos para poder conviver com as pessoas. Então são personalidades diversas que tem representatividade na família, no trabalho, no centro espírita, no grupo de amigos, etc. O que ocorre é que estas máscaras, com o passar do tempo e do próprio conhecimento crístico em nossas vidas devem ser reduzidas ao ponto que seremos as mesmas pessoas em todos os locais.

Casamos com a imagem que o outro projeta para nós e com a parte desta imagem que queremos enxergar. Quando agregamos a isso outros interesses que não são de cunho emocional elevado ou desejo de junção para aprendizado mútuo e progresso, tais uniões se tornam estéreis, sucumbindo ao mais sutil vento que possa vir a soprar como prelibar de uma intemperança maior.

Particularmente discordamos da afirmação que as criaturas estão se relacionando pior com relação ao casamento hoje do que antigamente. O que ocorre é que estão chamando de casamento uniões desprovidas de profundidade que levam as criaturas a processos de tristeza e crises; mas ao contrário, as uniões granjeadas na simpatia mútua fazem com que as criaturas se elevem moralmente, fortalecendo sim, neste momento de processo evolutivo que se traduz de forma tão dolorosa em virtude de todas as agruras sociais que vivenciamos.

O Evangelho nos diz que não devemos separar o que Deus uniu. Mas sabemos que em virtude de vinculações mentais que estabelecemos não com o que a criatura mostra, mas como tal qual é, uniões são formadas e nos encontramos, em determinado momento, envolvidos com desnecessário nesta situação: o adultério. O Livro dos Espíritos na questão 281 nos traz: “Por que os Espíritos inferiores se comprazem em nos induzir ao mal? “Pelo despeito que lhes causa o não terem merecido estar entre os bons. O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam. Isto não se dá também entre vós outros?”

É interessante, vivemos situações que buscamos, sejam decorrentes de atos desta encarnação ou de outra. Por vezes nos encontramos num casamento feliz, equilibrado, estamos centrados, mas como a questão nos fala, criaturas que não estão felizes consigo mesmas e não querem estar sozinhas começam a nos apresentar as facilidades do caminho nos desestimulando a viver a vida que estamos vivenciando. O equilíbrio para alguns representa causticante calor, porque algumas criaturas querem viver no ápice o tempo inteiro, esquecendo-se de que se isso fosse possível o corpo responderia através das doenças, em virtude das substâncias exaradas nestes momentos de excitação.

Como também e neste momento caminhando para o entendimento da palavra adultério de forma mais ampla, verificamos que adulterar é enganar o outro. É agir de caso pensado, fazendo com que o outro incorra em erro. Alguns que fazem isso afirmam que todos possuímos o livre arbítrio e que cada um é capaz de discernir o que deve ou não deve fazer, como se assim pudesse se isentar da culpa. Mas somos responsáveis também pelo induzimento ao erro cometido pelo outro. Se o outro falir por nossa indução, somo co-responsáveis pelos erros cometidos.

O Evangelho no referido capítulo, no item 7 nos fala sobre as consequências do mau pensamento mesmo que nenhum efeito tal pensamento produza. Destacamos a seguinte frase da explicação a esta pergunta: “Todo pensamento mal resulta, pois da imperfeição da alma…” Naquele que nem sequer pensa no mal, já há progresso realizado; naquele que pensa, mas não realiza o progresso está em vias de se fazer e naquele que pensa, mas não faz porque o outro não se permitiu enredar nas redes do mal ou porque as próprias Leis Divinas pouparam o outro, esta criatura ainda está no início do processo de entendimento.

Todos os nossos atos provocam ressonância, mesmo aqueles que só a nossa consciência é testemunha. São pensamentos que se associam a outros pensamentos e concretizam em atitudes o que desejamos nos refolhos da alma. Não nos espantemos quando vemos criaturas que possuíam um comportamento e mudam repentinamente. Para alguns representa o início do processo de diminuição positiva das máscaras, assumindo-se tal qual é. Pois para avançarmos rumo à perfeição, primeiramente precisamos nos enxergar como somos para valorizarmos aquilo que possuímos de bom e reconhecermos e trabalharmos naquilo que precisamos melhorar. A doutrina espírita está em nossas vidas como rota consoladora a nos mostrar o caminho a seguir e de que forma chegaremos à perfeição.

Jornal O Clarim – Outubro de 2015

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