• RIE_Dez_2015

O que  buscamos, realmente, no Espiritismo?

No capítulo XXIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Moral Estranha”, há nos itens 14 e 15 bons assuntos para meditação. Mostra que o “Cristianismo apareceu quando o paganismo declinava, debatendo-se contra as luzes da razão”. Embora restassem adeptos, a crença enfraquecia. Só os que tinham interesse pessoal o cultivavam. O Cristianismo nascente defendia sua doutrina a custa de violência ainda maior que o paganismo.

O interesse particular nos faz defender pontos de vista que afrontam a razão, mas são convenientes, e vale a pena sustentá-los e combater os que se opõem a eles. Causam-nos prejuízos embora comprovem nossos erros com racionalidade. Sabemos que estamos errados, mas isso pouco importa. A verdadeira fé não nos interessa; temos medo da luz que esclarece os cegos. A lição nos diz, ainda, que como o erro nos traz proveito nós o defendemos.

Uma das facções do Cristianismo foi o Catolicismo que quis consolidar sua crença também com violência. As Cruzadas, com as Guerras Santas, e os tribunais da Inquisição que puniam os que não pensavam como eles, inclusive queimando-os, demonstravam ignorância: queimam-se corpos, mas não se queimam ideias, que permanecem e se espalham quando verdadeiras. No Auto de Fé de Barcelona, em 9 de outubro de 1861, não queimaram pessoas, mas livros, com medo das verdades que continham. Que ingenuidade!

O Catolicismo também sofreu cisão. Dele nasceu o Protestantismo por discórdia com a doutrina católica. Viraram inimigos, cada um defendendo seus pontos de vista; mais por ser convenientes e lucrativos que verdadeiros. Tanto isso é real, que de cada uma dessas igrejas nasceram outras tantas para divulgar os Evangelhos pelos capítulos e versículos que lhes eram mais convenientes. Carismáticos, Testemunhas, Pentecostais, Metodistas, Presbiterianos, Assembleia de Deus, Batistas, Universal; uma variedade que não caberia neste texto. Cada dia uma nova. É só ter um salão, fixar placa na fachada e esperar os sofredores, sempre abundantes devido à transição planetária por que passamos e também pela incapacidade que todos temos em administrar a própria vida.

Como nenhuma dessas igrejas tem a receita certa para solucionar os problemas humanos, analisemos particularmente os adeptos da nossa doutrina surgida em 1857, o Espiritismo, já que seus praticantes não fogem à regra. Pretendemos também ser donos da verdade e senhores de elevadas revelações que o céu jamais enviara aos homens para a sua salvação.

O que vemos no nosso movimento são comportamentos que nada diferem dos demais religiosos. O que buscamos, realmente, no Espiritismo? A maioria busca apenas o passe, a palestra ou a água fluidificada para curar todos os males. Os que temos alguma lucidez executamos trabalhos no centro. Aplicamos passes, fazemos explanações evangélicas, costuramos para os pobres ou participamos da sopa fraterna. Falta-nos, todavia, preocupação com nosso próprio aperfeiçoamento, razão primeira de uma encarnação.

É muito triste ver-nos lutar por posições de chefia, de destaque, usando de expediente que se assemelham às artimanhas político-partidárias em tempos de eleição. Defendemos postos a ferro e fogo, traindo, mentindo e usando de recursos que não ficam bem num espírita. Nossa preocupação é ser importante para os outros e não para Deus.

Isso é mais comum do que parece; nossa dose de vaidade é grande porque o ser humano da Terra ainda é inferior. Entrar para uma organização espírita, simplesmente, em nada melhora uma pessoa, a menos que permitamos que o Espiritismo nos sirva de guia. Temos um grande zelo na melhora do semelhante, acreditamo-nos grandes aconselhadores, mas não fazemos como ensinamos aos outros.

Vamos às tribunas com ares de catequizadores, dando receitas que não aplicamos em nós. Cheios de soberba, porque conhecemos uns versículos a mais, citamos frases de efeito e bibliografia, para, no final, receber os incensos que fazem bem ao nosso ego, pondo-nos a imaginar que somos especiais e que vivemos em elevados patamares, se comparados ao comum dos homens. Pobres de nós que nos conhecemos tão mal. A quem enganamos?

Temos nas mãos um tesouro chamado Espiritismo e não sabemos lidar com ele. Chegamos até a fazer algo pelos outros com base nesta extraordinária doutrina, que revive a pureza das lições de Jesus, mas não deixamos que ela faça nada por nós. Escondemo-nos sob a capa do conhecimento doutrinário, mas flutuamos distantes da vivência.

Quando o Espiritismo será a norma de conduta para os seus adeptos? Quando seremos exemplos mostrados sem precisar perder-nos entre tantas palavras? Quando seremos espíritas mostrando e não apenas falando? Quando teremos amor pelo próximo, mesmo que não simpatizemos com ele, porque não nos bajula? Quando daremos ao outro o direito de ter a sua crença, já que desejamos que o outro aceite a nossa? Inclusive nas famílias? Quando deixaremos de combater quem não pensa com a nossa cabeça, porque nos imaginamos donos da verdade? Pretensos seguidores de Jesus, quando seremos imitadores de Sua conduta?

Enquanto formos papagaios de repetição, simplesmente explicando como os outros devem conduzir-se, não sairemos do lugar. Quando as palavras não são emolduradas pelos exemplos não chegam ao destino, pois carecem de convicção. Tentamos vender um produto que nós mesmos não compramos. Falamos, mas não convencemos!

Os espíritos nos conhecem bem porque escutam os nossos pensamentos, não nossas vozes. Quase nunca podem nos ajudar porque não compreendemos o idioma que eles falam. Eles se comunicam pelo amor e nós pela simulação. Somos mansos enquanto nos aceitam, mas violentos à menor contrariedade. Amamos apenas os que concordam em nos amar. Para os amigos tudo; para os inimigos o desprezo e a distância. Pobre de nós, quase todos espíritas de fachada. Temos muito caminho a percorrer antes de nos atrevermos a dizer que entendemos a proposta da Espiritualidade Superior. Por ora, fazemos tentativas na esperança de superar os percalços. Mas estamos longe de conseguir. Quem analisar-se – sem falsidade – concordará que temos pelo menos dez por cento de razão. O tempo é bom para verificação. Vêm aí o Natal e o Ano Novo. Felicidade para todos; ela é deste mundo, se a buscarmos de maneira correta!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – dezembro 2015