Walkiria Lucia Araujo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“A fatalidade da vida é alcançar a harmonia plena, mediante o equilíbrio do amor a si mesmo, ao próximo e a Deus.”(Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 15 – A vingança)

Sempre que nos reportamos à caridade, invade a nossa mente a prática exterior do dar, alguns aprofundamos o entendimento na tolerância e amor ao próximo, mas poucos nos colocamos como fonte primeira de beneficiamento desta caridade, melhor dizendo, usar da Luz da Caridade para conosco mesmos, sendo indulgentes, tolerantes e amorosos para conosco mesmos, antes de exercitarmos com os outros. Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

Quando amamos mais a nós mesmos e esquecemo-nos dos outros, somos egoístas; quando acreditamos que amamos mais ao próximo, temos uma compreensão distorcida da humildade e quando acreditamos que amamos mais a Deus e não nos amamos e nem amamos ao próximo temos uma ideia equivocada da submissão sem compreensão das Leis Divinas.

O período de equilíbrio entre estes três pontos passa pelo aprendizado de algumas encarnações. Existem mais dois outros fatores que influenciam neste equilíbrio: as inimizades (quando nós nos inimizamos ou quando os outros se inimizam conosco) e os arquétipos que trazemos de outras encarnações. Estes últimos, quando não devidamente trabalhados produzem as autoflagelações e as agressões gratuitas, tendo como filhos diretos a vingança e o ódio. “A vingança constitui-se numa patologia do ego insubordinado ante as ocorrências do mecanismo de crescimento.” (Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 15 – A vingança)

Reencarnamos para viver situações de reajuste moral. Mesmos as que, a princípio, só provocam ajuste físico. Debatemo-nos quando não conseguimos entender o porquê. Quando isto ocorre por muito tempo geramos a mágoa e quando esta faz moradia, criamos o ressentimento. Quando o outro nos faz o mal, não obrigatoriamente é porque haja uma vinculação espiritual entre nós e ele, mas porque o outro não está bem consigo mesmo e resolve atacar aquele mais próximo que se apresenta mais feliz (mesmo que aparentemente) ou que esteja em condição de inferioridade social/profissional perante ele. Se não estivermos equilibrados para compreender o que a situação nos quer dizer, ficamos na superficialidade do ato do outro e acabamos por fazer crescer a mágoa e na sequência o ressentimento.

O Evangelho Segundo o Espiritismo em todo seu capítulo XII – Amai os Vossos Inimigos nos traz a temática do perdão referente ao que o outro nos faz. Num momento em que as pessoas se levantam para reagir diante das ofensas, aquele que permanece sentado e não retribui, mas age, atinge o patamar da compreensão da mensagem Crística. O Mal é a ausência do Bem, o mais forte é aquele que sabe conter as suas forças e não ir à desforra, agindo com paciência e tolerância perante a vida. Pois a irritação não nos leva a nada, a não ser a doenças fisio-psicológicas de difícil diluição. Quantas visitas ao médico poderiam ser evitadas se precatássemos mais diante dos acontecimentos da vida?

“Ser precavido, resguardar-se do mal dos maus, cuidar de não se envolver em contendas, evitando os entreveros estabelecidos pelos belicosos, também é atitude recomendada pela Sua [Jesus] conduta. No entanto, jamais fugir do testemunho, ou debandar do holocausto quando seja convidado, não revidando mal por mal, nem se vingando nunca, mesmo que surjam oportunidades propiciatórias ao desforço.” (Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, cap. 15 – A vingança)

Também é caridade para conosco mesmos observarmos o que está acontecendo ao nosso derredor e não cedermos ao mal dos maus, pois que ele existe e é real. Existe o mal provindo da ignorância e o que nasce do desejo deliberado em prejudicar o outro. Quantos casos nos são relatados de pessoas que se vêem em situações vexatórias porque cederam a indução telepática (de encarnados ou de desencarnados) e tomaram atitudes que estão em total desalinho com o comportamento cordato da criatura? E depois se arrependem profundamente, por aquela situação não representar o que a criatura é em totalidade? O Mestre Jesus sempre agiu de forma enérgica, sem ser agressivo, em todas as situações, deixando claro a Sua proposta, mas não se envolvia em contendas. Explicava a Sua mensagem através do exemplo.

O que mais provoca dissabor e desalinho emocional é o mal decorrente de situações que nos convidam ao testemunho como Joanna de Ângelis abordou. São os holocaustos pessoais que vivenciamos e que em alguns momentos nos sugam as forças, fazendo com que nos sintamos esmorecidos em nossa fé e querendo usar do instrumento da vingança se nos for apresentada ocasião. São as atitudes dos mais próximos que nos causam mais tristeza, pois esperamos deles um comportamento coerente com o sentimento que dizem nutrir por nós. A calúnia bem urdida, a honra quando é ataca ou quando são feitas pérfidas insinuações, como o Evangelho nos diz no referido capítulo, item 9, faz-nos avaliar o nosso comportamento e até em alguns casos, justificarmos, para a nossa consciência, que temos o direito de nos defender. A calúnia representa um grande bisturi moral que nos corta a carne do ego agredido, mas sempre o caluniador e nós saberemos a verdade e o nosso proceder irá desmentir o que foi dito.

As criaturas acreditam naquilo que querem acreditar. Mesmo que nada seja dito, sobre o nosso proceder, quem quiser acreditar que somos diferentes, o fará. A maior caridade que podemos fazer a nós mesmos é vivermos em equilíbrio e em paz com a nossa consciência. Fazendo o melhor que pudermos fazer de bem para o outro e agindo sempre como gostaríamos que agissem para conosco. O processo é interno, de consciência e construído paulatinamente no decorrer de nossa existência.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro de 2016