RIE_Fev_2016

 

A vida que temos não nos pertence; aprendi com um morador de rua.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Assistia certa vez a uma entrevista na TV Cultura de São Paulo, quando um repórter conversava com essas pessoas sem lar que vagam pela Capital paulista. A reportagem mostrou diferentes tipos e concentrou-se num homem que demonstrava sabedoria que surpreendia o próprio profissional da imprensa.

Sereno, respondia às questões a ele dirigidas diretamente, com filosofia pouco comum mesmo nas pessoas privilegiadas pela vida, econômica, social e culturalmente. Mostrou um indigente que tirava do lixo o alimento e comentou que ele estava errado. Essa atitude denigre a pessoa. Ele poderia tirar do lixo algo que pudesse transformar em dinheiro, material reciclável, e então comprar sua comida; jamais comer lixo. “Mas ele não sabe”, completou o homem.

Nesse momento, o repórter lhe perguntou se ainda assim valia a pena viver. Após sonora gargalhada, ele disse: “Não é questão de valer a pena, meu amigo; o senhor tem de viver porque a sua vida não pertence ao senhor. Ela é de Deus!”. E completou: “Se esses governos poderosos soubessem não se matariam por inutilidades, poluindo a atmosfera com cadáveres que ficam jogados pelos ares. Mas como eles pensam que tudo podem, fazem essas tolices imaginando que estão certos e que assim defendem a sua soberania e dignidade”.

A frase “o senhor tem de viver” impregnou-se em mim e, como espírita, sou obrigado a entender que o homem tinha razão. Se nem matar-nos é possível, porque o suicídio dá fim ao corpo, apenas, sobrecarregando a alma que é imortal, criando-lhe mais problemas que deverá reparar em futuras encarnações, como podemos acabar com a vida por mero desinteresse ou incapacidade? Temos de viver, sim, porque somos eternos e imortais!

Se já entendemos e somos ainda ajudados pela lei do determinismo, porque rebelar-nos ou dificultar nosso progresso concentrando-nos em interesses miúdos, quando o progresso espiritual é o que importa. Essa lei, que por muito tempo da nossa caminhada espiritual tem mais força que o livre-arbítrio, impulsiona-nos ao alto, independente da nossa vontade.

Depois de viver um dia, nunca somos mais a mesma pessoa. O aprendizado é inerente à existência. Basta estar vivo para aprender. Como estamos vivos espiritualmente, mesmo após o desencarne, significa que aprendemos sempre, queiramos ou não. Não deitamos ao final do dia a mesma pessoa que acordamos pela manhã. Temos novas experiências e novos conhecimentos; aprendemos muita coisa que desconhecíamos e fizemos novas amizades ou desfizemos outras mais antigas. A vida muda a cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo. Estamos rindo felizes, agora e em segundos poderemos estar mortos. Não há como prever todos os acontecimentos.

Como comportar-nos diante da vida, então? A resposta é estar sempre pronto para desencarnar. O que é estar pronto para desencarnar? É ter a consciência tranquila. Só morre bem quem vive bem. E viver bem é estar em paz consigo mesmo. Não se envergonhar de nada do que faz ou do que é. Ter passado limpo podendo olhar-se no espelho sem sentir vergonha.

Ainda por muito tempo seremos mais produto do determinismo no quesito evolução, pelo menos quanto ao conhecimento, do que do livre-arbítrio que geralmente usamos mais em nosso prejuízo que benefício. Felizmente a lei nos impulsiona ao crescimento pela sua própria constituição, sem consultar-nos se estamos de acordo. Após o calor, a sede; após o trabalho, o cansaço; após a fadiga, o sono; e assim sucessivamente. Queiramos ou não, porque é a natureza comandando a nossa vida.

À medida que nosso entendimento se amplia, o determinismo diminui e o livre-arbítrio alarga-se. Começamos a ser mais donos das nossas ações porque deixamos de ser crianças espiritualmente e passamos a dominadores da nossa vontade, sabendo claramente sobre direitos e deveres e as consequências que eles acarretam. Se a maior parte da humanidade é de sofredores, deve-se ao uso indevido do arbítrio de cada um!

Se estivermos atentos à vida, aprendemos sempre; por um cartaz de rua, por uma manchete de jornal, com o gesto de uma criança ou com os próprios animais. Da janela do meu escritório, mais uma vez testemunhei um gesto de amor ao próximo. O comportamento de um sanhaçu que deve ser mãe e está alimentando sua cria. É muito lindo de se ver. Basta entender a linguagem que eles usam. Para mim é muito clara. Olhando-os, fiz este soneto. Confiram:

Solidariedade (Inspirado num casal de passarinhos)

A fêmea, ao descobrir cedo o mamão / Que eu ponho sobre a mesa do terraço, / Não come. Antes faz um estardalhaço, / Avisando o parceiro da ração! / Enquanto ali não vem o outro sanhaçu, / Ela nem bica a fruta e, com atenção, / Se ele não chegar vai logo, então, / Voando bem depressa ao seu encalço. / Voltam logo depois e ele, primeiro, / Avança sobre a fruta e ela o espreita! / Depois que ele se farta por inteiro, / Aí, ela com calma, bem serena, / Degusta o seu pedaço e se deleita… / Olhar tão belo exemplo vale a pena!

Que sempre possamos ter olhos de ver, ouvidos de ouvir e cabeça de pensar; seremos mais felizes.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro de 2016