Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkiria.wlac@yahoo.com.br

“Exaure-se, em companhia dos seus demônios internos e dos seus anseios desregrados, até que surge a fome, por escassear os meios de prosseguir na loucura, e termina por encontrar companhia nas pocilgas dos vícios mais perversos, alimentando-se dos miasmas e excentricidades que lhe chegam em decorrência do abandono dos parceiros emocionais… É, então, quando tem um insight e dá-se conta de que não é aquilo, somente se encontra daquela forma, que não necessita de chafurdar mais fundo no chavascal da vergonha e do desdouro moral…” (Em Busca da Verdade, cap. Um País Longínquo, Joanna de Ângelis/Divaldo Franco.)

O texto trazido acima foi extraído da explicação de Joanna de Ângelis a cerca da passagem evangélica do filho pródigo. Analisando o comportamento daquele que foi embora e volta para a família, em andrajos. Tendo conhecido o mundo lá fora dos prazeres fácies e das amizades estéreis volta para o convívio do lar paterno e encontra o Pai Amoroso que o recebe e o recolhe num abraço e beijo afetuosos. Típico daqueles que conhecem o significado da palavra amor.

O limite da extensão do sofrimento vivido passa pela compreensão dos fatos e do amor envolvido para resolução do problema. Assim, a criatura elastece ou diminui a tolerância de acordo com estes dois fatores. A pessoa que está encarnada vive e sobrevive do Amor emanado pelo Pai. Por isso é tão importante à comunhão com Deus. Estamos num movimento de aprendizagem através da encarnação. Isto denota passar por diversas etapas, fato que constitui a vida de cada um de nós. Mesmo os aparentemente felizes possuem também a sua carga de aprendizagem, vinculada ao sofrimento. Ele nos educa a todos sem exceção.

Lendo O Céu e o Inferno, em seu capítulo IV, item Lisbeth, verificamos que a nossa situação no pós-desencarne constitui-se a decorrência daquilo que fizemos anteriormente. Que as nossas escolhas, aparentemente sem correlação com o passado ou futuro nos vinculam ao modo de concorrência de atitudes e faz com que o nosso viver seja uma constante escolhas e ressonâncias. A Lisbeth nos fala do arrependimento, no referido item, mostra-nos que ele não deve ser somente dos lábios e que este se constitui na primeira etapa de reajustamento com as Leis Divinas. Primeira e mais importante, pois a criatura, que antes acreditava não ter necessidade de mudança, verifica que o seu comportamento está indo de encontro com a mensagem de Amor do Mestre e começa por racionalizar os atos cometidos e verifica que precisa mudar de rota.

Quando estamos encarnados, para alguns, esta análise constitui-se como impossível. Mas quando desencarnamos, inclusive pela força das coisas, têm-se as condições de verificar melhor e estabelecer uma mais judiciosa análise das atos cometidos. Não é fato obrigatório este de acontecer, mas ocorre para a maioria, constituindo o grande público que procuram as reuniões de desobssessão. A criatura aparvalhada com o sofrimento e vendo nas Instituições Espíritas um grande foco de Amor, buscam-nas como forma de lenitivo de suas dores.

São encaminhados das mais diversas formas, pelos mais intrincados caminhos, pelas mais diferentes razões. Mas o ponto primordial a ser destacado é que todos demonstram arrependimento dos atos cometidos, mesmos os que afirmam que não se arrependem. Pode parecer um contrasenso esta nossa afirmação, mas não é. Partindo do princípio que estamos falando de uma Instituição séria, baseada nos preceitos doutrinários, depreendemos em virtude das leituras auxiliares e dos relatos trazidos pelos próprios espíritos, que há uma seleção e preparo para que tais criaturas participem dos trabalhos. Pois bem, estes irmãos em evolução passaram por um preparo, orientação e amparo até que chegue o momento azado da comunicação.

O que ocorre é que admitir o que o facilitador/doutrinador vem trazer como informação libertadora representa aceitar que a sua conduta até aquele momento está errada, mais ainda, que a partir daquele momento é imperioso a necessidade de mudança. É como nos traz O Livro dos Espíritos na questão 798, a qual fala da Influência do Espiritismo sobre o Progresso: “… Entretanto, terá grandes lutas a sustentar, mais ainda contra o interesse que contra a convicção…” É uma questão muito maior de interesse, por isso que se obstinam em insistir que não concordam.

Quantos ali estão trazidos pelos familiares também já desencarnados e que oram ao Pai por estes que estão na retaguarda do sofrimento! O arrependimento é necessário, o segundo passo é a mudança de visão com relação à vida, constituindo-se na sequência a imperiosa necessidade de mudança de conduta. Como Lisbeth nos diz na passagem já citada que “O arrependimento produtivo é aquele que tem por base o remorso de haver ofendido a Deus, e o ardente desejo de reparar.” É justamente este desejo ardente de reparar que nos conduz na mudança de conduta fazendo com que nos confrontemos conosco mesmos e mudemos os nossos objetivos de vida. Agora maduros, colhendo o plantio anterior, mas efetuando um novo plantio. Agora de amor, equilíbrio e paz.

Semelhantes ao filho pródigo, tendo esta fome de vida, retornando-nos todos ao Pai Amado, que nunca nos julgou e que nos ampara e vela por nós. Sempre é tempo de nos arrependermos e recomeçar. Não importa o que tenhamos feito. Sempre podemos, a partir daquele momento, modificar a nossa conduta. Experimentamos do erro, agora sabemos o que não devemos fazer. Temos as condições de encaminhar outros no caminho reto do bem e do amor, mostrando através do exemplo o que deve ser feito. O amor nos conduz, Deus nos ampara e a rota é traçada por nós rumo à perfeição.

Jornal O Clarim – Fevereiro de 2016